Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (1.ª parte)

Foi com o poeta chileno Pablo Neruda que aprendi que:

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não
ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem
não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do
hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não
conhece.

Descobri-o nas sábias palavras de Martha Medeiros, uma publicitária brasileira radicada no Chile.

Dir-se-ia que a América do Sul é um farol para a vida de muitos, pois é também de outro sul-americano, escritor, argentino, Jorge Luís Borges, que tive esta inspiração:

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiénico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria.
Mas se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos…

Bons momentos, sim, que devemos agradecer à autora Nadine Stair, uma poetisa norte-americana mediana, que escreveu estes ensinamento pelo punho de Don Herold, um cartoonista esquecido do Reader’s Digest.

Um pouco mais a norte, o escritor de ficção científica Kurt Vonnegut, de forma mais pragmaticamente norte-americana, deu uma série de conselhos úteis aos alunos do Massachusetts Institute of Technology:

If I could offer you only one tip for the future, sunscreen would be it. The long-term benefits of sunscreen have been proved by scientists, whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience. I will dispense this advice now.
Enjoy the power and beauty of your youth. Oh, never mind. You will not understand the power and beauty of your youth until they’ve faded. But trust me, in 20 years, you’ll look back at photos of yourself and recall in a way you can’t grasp now how much possibility lay before you and how fabulous you really looked. You are not as fat as you imagine. 

Agradeça-se estas palavras à autora, Mary Schmich, que as escreveu para o Chicago Tribune.

E quero terminar com mais luminosidade de um Nobel, Gabriel Garcia Márquez, que nos revela:
Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapos e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo. 
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate.

Sábias palavras as desta marioneta de trapos onde o ventríloquo mexicano Johnny Welch colocou as suas palavras.

***

Provavelmente já quase todos lemos alguns destes textos, quase sempre atribuídos a Neruda, Borges, Vonnegut e Márquez. O mais certo é os termos lido em e-mails reencaminhados por amigos, mas também referidos em jornais e revistas, programas de televisão e até mesmo filmes e livros.

E, contudo, estes textos têm a espantosa particularidade de não terem sido escritos pelos autores supostos, mas serem de autoria de Martha Medeiros, Don Herold, Martha Schmich e Johnny Welch, embora não tenha havido qualquer tipo de plágio. Aliás, Neruda e Borges provavelmente ficariam horrorizados por lhes serem atribuídos tais textos, Vonnegut é indiferente e Gabriel Garcia Márquez já declarou inconcebível que alguém pudesse acreditar que um texto daqueles pudesse ser seu.

Contudo, apesar dos esforços de esclarecer a autoria de autores, viúvas e amigos, estes textos continuam a circular de mão para mão, indiferentes a autoria, qualidade literária ou tempo.

Como e porquê é o que vou tentar explorar nas próximas semanas.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

2 respostas a Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (1.ª parte)

  1. Isso fez-me lembrar um meme nos primórdios da Internet que seguiu o percurso quase inverso: a famosa história do “assentador de tijolos”, popularizada em Portugal pelo programa do Nuno Markl, e que chegou aos mails de toda a gente entre os anos 1997 e 2000. Muita gente continua a assumir ou que a história é real e, mais grave ainda, que se passou em Cascais.
    A história é da autoria de um escritor (a sério), o grande David Foster Wallace, que a usou no “Infinite Jest” (1996), baseando-se muito livremente numa rotina antiga de Laurel and Hardy. Mas a versão que correu Portugal através da rádio e da Net era traduzida quase verbatim do romance dele.

  2. Zèd diz:

    Só por curiosidade (suponho que isso venha a ser abordado nas próximas semanas), como é que se conseguiu determinar a verdadeira autoria desses textos?

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