O plano C

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Depois da dobra, um texto do Paulo Varela Gomes sobre Marie Antoinette. Agradeço-lhe muito o facto de mo ter enviado, porque é certamente a coisa mais estimulante que li sobre o filme.

«Como mostrar a História? O filme de Copolla parte do seguinte e simplicíssimo princípio: não se pode. Mais: não se deve porque não se pode. E isto porquê? Porque, como qualquer historiador de hoje sabe, a história não tem nada para ver e, portanto, o “drama histórico”, falando estritamente, é uma aldrabice. No palco da história reina a penumbra e o nevoeiro, vagueiam fantasmas sem corpo e miragens de corpos que nunca existiram. Tacteia-se o caminho muito devagar, com muito cuidado, tropeçando em constantes enganos… e sabendo que é assim, que nunca será senão assim, que a verdade histórica fugirá sempre à nossa frente.»


O PLANO C
Paulo Varela Gomes

Tal como acontecia com a pintura que, no século XVIII, se distinguia em pintura “de história”, “de paisagem”, “cena pastoril” e por aí fora, também os filmes adquiriram uma tipologia dos géneros: “comédia romântica”, “filme de acção”, “drama”, etc.
O filme Marie Antoinette seria normalmente catalogado no tipo “drama histórico”, mas acontece que ninguém parece reconhecer-lhe dramatismo ou carácter histórico. Gerou-se, a propósito do filme, uma confusão de géneros. A pompa francesa, esse proverbial chauvinisme que tem a justa fama de ser o mais imbecil do mundo, não perdoou à realizadora ter tratado a rainha e o seu drama em género “comédia de costumes”. A crítica habitual – que, se não é juvenil, arma em juvenil para melhor se integrar na estupidez geral do mundo democrático-televisivo – vende Sofia Coppola barata e diz que sim senhor, se trata de uma “comédia de costumes”, ou até de um “filme de teenagers”, e que é por isso que o filme é bom.
Se o filme fosse um “drama histórico”, deveriamos emparelhá-lo com produções como, sei lá, Gladiator de Ridley Scott? Barry Lyndon de Stanley Kubrick? Amadeus de Milos Forman? O óbvio Dangerous Liaisons de Stephen Frears (que, aliás, Sofia Coppola cita num plano – falhado – do filme)?
O que é, afinal, um “drama histórico” em cinema?
Tratar-se-á, apenas, de uma história como as outras, diferenciável somente porque os personagens vestem coisas de cetim, têm penteados extravagantes e não andam de automóvel? Ou seja, será a mesma coisa que filmes “de ficção científica” mas ao contrário (sobre o passado), filmes obrigados, portanto, a ter um director artístico formado em história da arte?
A maior parte dos “dramas históricos” são exactamente isto. Ao fim de 5 minutos já não nos lembramos em que século é que a coisa é suposta ocorrer. Trata-se de pessoas e das chatices do costume quando se trata de pessoas. Os adereços estão lá só para adereçar.

O problema é que há “dramas históricos” complicados. São aqueles que invocam o sacrossanto nome da História com maiúscula colocando em cena gente e acontecimentos que têm lugar importante nos livros de história: Reis, Rainhas, Imperadores, Compositores e outros VIPs.
Os produtores e realizadores de filmes já sabem como é que se lida com estas situações: adopta-se o plano B ou o plano A.
De acordo com o plano B, o espectador é avisado pela publicidade do filme e pelo dito cujo de que não se trata de História (com maiúscula) embora esteja presente no filme o Imperador Cómodo (v.g. Gladiator). Aquilo em que o pagante do bilhete tem que se concentrar é no “drama humano” e na pancadaria.
O plano A é mais complexo: trata-se de explicar ao espectador que se trata de um espectáculo que ele deve ir ver por causa das coisas espectaculares, mas que a História, essa senhora de costumes sóbrios, foi respeitada. Deste modo, aquele Mozart caricato que vemos no filme de Forman é quase, quase, digamos assim, “histórico” (e histérico). Ou melhor: haverá autores (de ponderosos livros e artigos) capazes de jurar que o histérico é histórico. O espectador médio, que é uma coisa que não existe e ao mesmo tempo existe porque o mercado (esse inefável deus) jura que sim, acreditará tanto mais no filme quanto o julgar caucionado pela Madame História.
Foi tudo isto que Sofia Coppola pontapeou com imensa alegria e não pouco talento.
Porque (e aqui, precisamente aqui, é que Marie Antoinette se torna infinitamente mais interessante que o filme palerma sobre adolescentes-que-se-estão-nas-tintas-para-o-filme-histórico) Sofia Coppola leu, ouviu, ou disseram-lhe (tanto faz) que este problema de não sabermos como filmar a história não é mais do que parte de um drama mais geral: como mostrar a História? Em filme, em documentário. A especialistas. Ao povo. Ao espectador médio.
O filme de Coppola parte do seguinte e simplicíssimo princípio: não se pode. Mais: não se deve porque não se pode. E isto porquê? Porque, como qualquer historiador de hoje sabe, a história não tem nada para ver e, portanto, o “drama histórico”, falando estritamente, é uma aldrabice. No palco da história reina a penumbra e o nevoeiro, vagueiam fantasmas sem corpo e miragens de corpos que nunca existiram. Tacteia-se o caminho muito devagar, com muito cuidado, tropeçando em constantes enganos… e sabendo que é assim, que nunca será senão assim, que a verdade histórica fugirá sempre à nossa frente. Sabendo também que a nossa observação altera aquilo que observamos, que pontos de vista diferentes propõem narrações diferentes.
A história como “ciência” (isto até dá vontade de rir) foi inventada no século XIX pela filosofia burguesa. Foi também por essa altura – talvez um pouco antes – que se inventaram as imagens “históricas”, primeiro como fantasias, depois, à medida que se acreditava cada vez mais no conhecimento “positivo”, como imagens verosímeis. A imprensa e os museus do século XIX e do início do sec. XX estão cheios delas. O cinema também, desde Intolerance de Griffith, ou seja, desde o princípio.
A ideia de que pegando-se num sujeito, colocando-se-lhe a barba e o chapéu apropriados, enfiando-lhe à ilharga várias mulheres, algumas decapitadas, e pondo-o a dizer em inglês arcaico um texto histórico, temos Henrique VIII retornado à vida, parece uma ideia espírita mas é uma ideia de historiador positivista, encenador teatral, autor de imagens da cultura burguesa nascente. O “drama histórico” em cinema tem-na mantido mais ou menos viva.
Todavia, esse triste papel tem sobretudo sido entregue aos realizadores da maior parte dos documentários de história anglo-saxónicos que se fazem agora e aos patéticos historiadores que aceitam colaborar com eles: trata-se de “infotainment”. Antigamente, há 10 ou 20 anos, os documentários de história mostravam restos da história: pedras, papéis, obras de arte ou arquitectura. Alguém – em voz off ou ao vivo – tecia comentários. Agora não. Agora, aparentemente, o povo e os seus representantes “corporate” (as empresas patrocinadoras) e incorporais (as empresas de televisão) gostam de acção e estórias. E há cada vez mais “doc-drama”, mais figurantes, mais heróicos historiadores a desvendar segredos. O mesmo sucede aliás com os documentários sobre a vida selvagem, como escreveu Eduardo Cintra Torres no Público de 12 de Novembro último: os animais e as plantas já não interessam para nada, o que interessa é a acção e o “drama humano” (dos apresentadores e tratadores). A natureza e a história telenovelizam-se e o resultado, diga-se entre parêntesis, é a analfabetização geral do documentário que, em tempos, foi uma coisa para a elite culta.

Do ridículo disto – que toda a gente conhece menos o povo, ou seja, a esmagadora maioria das pessoas – podia Sofia Coppola ter tirado uma espécie de legitimação implícita para um filme de plano B+A, como muitos críticos pensam que ela fez. Ou seja: um filme que, tendo material histórico de primeira, Reis e Princesas “realmente existentes”, os tratasse como umas pessoas quaisquer (adolescentes, por exemplo), assinalando sempre uma espécie de distância crítica Brechtiana (“Atenção! Isto é um filme! Não é a História!”).

Mas Sofia Coppola não fez em Maria Antoinette um filme de plano A+B. Fez um filme de plano C.
A música, os All Star fugazmente aparecidos no meio dos sapatos de cetim (que são uma citação deliberada do mais conhecido “erro histórico” dos dramas históricos – o relógio de pulso que aparece nos Dez Mandamentos de Cecil B. De Mille e em muitos outros filmes), a sequência do baile filmada não em Versalhes mas no átrio da Ópera de Paris, um edifício construído cem anos depois de Versalhes, são dispositivos que estão no filme, não para criar distanciamento em relação à História, não para dizer que ali não se trata de História, mas para fazer a crítica ao género cinematográfico “drama histórico”, uma crítica, aliás, letal – ninguém poderá voltar a fazer “dramas históricos” inocentemente depois de Marie Antoinette.
É que há História no filme. Há, evocada indirectamente para quem quiser pressenti-la, através de pelo menos duas sequências: a primeira, que acaba com um dos mais belos planos que já vi no cinema, é quando Kirsten Dunst/Marie Antoinette se curva numa varanda do palácio e oferece o pescoço à multidão enfurecida. A segunda é a sequência quase final, o pôr do sol sobre o jardim de Versalhes (dispensava-se o último plano, acho eu).
A História que se evoca é indirecta. Tudo, no filme, é indirecto. Mesmo as coisas “de adolescente” parecem como que apenas semi-filmadas. Nada é conclusivo ou levado até ao fim. Os personagens parecem todos um pouco esquemáticos como se fossem mais funções que “pessoas”. A cena do baile na Ópera, durante o qual o comportamento burguês da rainha se adequa ao triunfo burguês da arquitectura, é tratada com um esquematismo que não procura rivalizar com Visconti ou outros mestres do baile “histórico” filmado.
No filme há mais esquemas, dispositivos e funções que personagens, composição e sequência. Quer dizer, o filme é, em alguma medida, um mecanismo teórico do tipo do mais inteligente e duro filme histórico alguma vez feito, A Tomada do poder de Luís XIV de Roberto Rossellini (1966), que é cinema político em estado puro, à maneira da década de 1960 (e não um “drama histórico”).
Sofia Copolla não dá ao povo aquilo que ele quer. Não serve o povo. Ninguém reconhecerá ali a Rainha e o Rei. Ninguém terá ali adolescentes aos saltinhos. É chato, mas é preciso pensar depois de ver e ouvir Marie Antoinette.
A História é território de morte, brumas, noite e pôr do sol, e Marie Antoinette utiliza-a como mais um método no seu complexo campo de articulação de som e imagens em movimento. Para Sofia Coppola, o “drama histórico” é um género condenado à televisão.

Ah, uma última coisa: o filme não é bom. É muito melhor que um bom filme. É um grande filme falhado.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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