Visível ou invisível

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Na segunda-feira fui até à galeria António Prates ver a exposição de Noronha da Costa, intitulada A Grande Janela de Kiev. Salas vazias, embora a hora fosse happy o suficiente e a exposição esteja patente só até dia 21 de Novembro. À saída reparei num painel de parede, com recortes de jornais sobre a exposição, género dossier de imprensa. Desde o JL aos jornais de referência, o destaque dado ao evento era mínimo. Não fosse a entrevista dada ao Sol pelo pintor, a 28 de Outubro, e o quadro estaria quase tão desabitado quanto a galeria. Nesse mesmo dia, aliás, publiquei uma crónica no DN sobre Amadeo Souza-Cardoso e o desprezo a que Portugal o condenou. Os tempos são outros, as reacções também – Noronha já teve uma retrospectiva no CCB – mas não deixa de haver uma obtusa persistência no erro.

Noronha da Costa foi arquitecto e, como afirma no Sol, foi abandonado pela arquitectura. Depois foi cineasta e, segundo diz nessa mesma entrevista, foi desconsiderado enquanto tal. Hoje é pintor, um pintor que trabalha intensamente. Conforme declara também nesse mesmo jornal: “As coisas vão muito mal se uma pessoa se põe com angústias em vez de, pura e simplesmente, fazer o que tem a fazer. Julgo que era Vieira da Silva que dizia – e eu estou de acordo – que um dos grandes males dos pintores portugueses era o de procurarem a sua inspiração no café em vez de a procurarem no ateliê”. Nem mais. Contudo, a obra de Noronha está longe de receber o reconhecimento que lhe é devido. Diz Nuno Faria, num texto publicado pela Gulbenkian, que “é um daqueles artistas cuja notoriedade e debate crítico em torno da sua obra contrastam com a ausência de um verdadeiro e produtivo conhecimento do trabalho e da importância do seu lugar no panorama da história da arte em Portugal”.

Adiante. Noronha é ecrã, é a imagem enquanto relação entre o indivíduo e o mundo. Eugénio Rosa de Oliveira (A pintura de Noronha da Costa) afiança que: “O que é deveras importante na obra de Noronha é a insistência com que ele nos remete para o lugar donde se olha que não é seguramente o lugar do enfoque renascentista, mas o lugar vacante onde o sujeito se experiência como ocorrência transitória de visão”. Defronte de um quadro de Noronha, a posição do espectador é sempre volúvel. As imagens não estão na tela. Parecem que projectadas, pertencentes a outro plano. Nesta colecção que agora se encontra em sala, vários quadros têm buracos nas telas. Diz Noronha que “havia um espaço real que entrava no espaço da pintura. Nesta série de trabalhos há uma espécie de mise-en-scène do conflito entre espaço e imagem”. O ecrã estabelece um espaço e um tempo inerentes à imagem. No catálogo da exposição podemos ler um texto de Gonçalo Salvado, em que se afirma que “o recorte sobre o nada decorre justamente da consideração de um visionamento do real em si, fantasmático, independente da experiência, entregue ao olhar oceânico de uma interrogação sem fim e aparentemente sem resposta”.

Vale a pena o passeio. E a entrada é gratuita.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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