Manda quem pode, obedece quem deve

Autor: Carlos Trincão

 

Sem grandes subterfúgios linguísticos nem considerações filosóficas, ou, sequer, citações de quem quer que seja, por absolutamente prescindíveis, deixo três notas actuais ilustrativas da máxima com que intitulo esta prosa. Por outras palavras, quando um problema afecta A, é B, que em nada fica por ele afectado, a zurzir naquele.


ABORTO

Com a Igreja à cabeça, os movimentos que se preparam para defender o “Não” no Referendo que se aproxima incorporam um estonteante número de personalidades masculinas.

Esforçando-me por manter esta nota na esfera eclesial, totalmente dominada pelo macho arreprodutor, pergunto-me se haverá ou não motivações menos piedosas para esta caminhada.

Pergunto-me, pois, se tal opção não tem a ver com uma actualização do “não separe o homem o que Deus uniu”, assim ao género de:

 “Não separe o homem o que Deus uniu nem desfaça a mulher o que o homem fez”, que é como quem diz: “se tu, mulher, desfizeres o que eu te fiz, como viverei eu, homem, despojado do resultado da minha virilidade?”

Ámen.


ARREDONDAMENTOS NOS EMPRÉSTIMOS BANCÁRIOSComeçou a pensar o pagode que desta é que ia ser: o Governo tinha legislado no sentido de os ditos arredondamentos para cima, acumulados vai para anos, poderem vir a ser repostos a favor dos lesados.

Vai-se a ver e, sim senhor, mas só se for através do Tribunal, que a reclamação por si só não é suficiente.

Pois. A partir de agora é que vão ser elas e os bancos já tremem de medo.

É como naquilo dos impostos que pagam a menos. Quer dizer: não cumprem a Lei, o Governo faz vista grossa e ficam todos ofendidos com o desmascarar da pouca-vergonhice. Depois vem um dito Presidente da Associação de Bancos, que já foi Ministro das Finanças e pactuou com o não pagamento dos impostos em pé de igualdade com os outros contribuintes, muito agastado e a bradar que as pessoas até desconfiariam de um banco que não desse lucros.

E eu, que não sou economista, pergunto assim: e para ter lucros é preciso ignorar as leis?

ORDENADO MÍNIMO

Esta é que é demais!

Mal se ouviu dizer que o salário mínimo ia aumentar para 400 euros, aí uma fortuna de aumento, eis que saíram à liça as confederações patronais a reclamar cuidados, que isso de aumentos, ainda por cima mínimos, iam dar cabo das já frágeis economias empresariais.

Eu não percebo mesmo as coisas!

Então…, se é assim tão pouco, será por causa de serem muitos a receber o ordenado mínimo que os pobres patrões já estão a tremer?

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QUARTA | Joana Amaral Dias
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