Um país à parte

Na mesma edição do “Público” que indignou o Ivan Nunes, vinha a noticiazinha anódina de que num país deste planeta, membro da comunidade das nações e com lugar na ONU, um membro do Governo propôs expulsar do território nacional uma parte da principal minoria étnica nele residente (e que corresponde a cerca de um quinto da sua população total), com o objectivo de torná-lo etnicamente “mais homogéneo” e explicando que entre maioria e minoria existia uma insanável “fricção” de povos e religiões. O chefe do Governo distanciou-se destas palavras, mas as declarações em causa não prejudicaram a permanência do seu autor nas funções ministeriais que continua a ocupar.

Em qualquer outra parte do mundo, esta proposta teria um nome: “limpeza étnica” – que é consensual constituir, na ordem jurídica internacional, um crime contra a humanidade. Aliás, por menos do que isto, foi Milosevic julgado – mas isto passa-se em Israel, um país que vive à margem do direito e que os seus amigos insistem sempre em recordar que é a única democracia do Médio Oriente. Eu gostaria igualmente de recordar que a África do Sul (branca) dos tempos do apartheid era provavelmente a única democracia de África, o que não a impedia de ser também aquilo que era.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

13 respostas a Um país à parte

  1. Ezequiel diz:

    Queres uma lista das diferenças entre a ASul e Israel??? Assim é fácil, mt fácil.

  2. ezer diz:

    Lá tinha que vir um elemento fundamentalista da religião monoteísta;quando não são católicos,são ou islamitas ou judeus…Puxa!!! Que fanatismo!

  3. Ezequiel diz:

    a persona em causa já se retirou da política…precisamente por causa das suas declarações inaceitáveis para a grande maioria!

    Milosevic assassinou dezenas de milhares de pessoas inocentes que nunca atacaram a Sérvia, directa ou indirectamente…nunca concedeu direitos de voto a membros do mesmo grupo com quem de degladiava..

    Pura demagogia!
    António…pelos vistos não se ensina nada sobre quantificação plausivel no europ institute!

  4. Parece que o senhor em causa, ao contrário de Milosevic,ainda não matou ninguém!
    Mas será que o pessoal do cinco dias quer fazer uma guerra preventiva?

  5. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,
    O que escrevi, escrevi com base na notícia do “Público” que citei; se o ministro em causa se demitiu ou foi demitido entretanto, confesso que desconheço e, se aconteceu, não posso deixar de aplaudir; em qualquer caso, acho o caso espantoso e emblemático: o que diria o Ezequiel se, por exemplo, em França – tão citada pelo ex-Primeiro-Ministro de Israel pelo anti-semitismo que nela grassava… – um qualquer ministro (mesmo que depois demitido) tivesse afirmado que os muçulmanos (com a nacionalidade francesa!) deviam ser expulsos por a sua presença ameaçar a “homogeneidade” étnica do país?! Seria isto aceitável em mais alguma parte do mundo?? Israel poderá ser uma democracia – como a África do Sul o era – para a sua etnia dominante; o estatuto da etnia não-dominante, no caso israelita, e o carácter inclusivo da sua democracia, temo que tenham ficado pateticamente à vista com este lamentável episódio.
    Cordialmente, António Figueira

  6. António Figueira diz:

    Caro Júlio Silva Cunha,
    Este membro do “5 Dias” não quer declarar guerra a ninguém – e como V. já deverá ter percebido, o “5 Dias” não toma posições colectivas e cada um dos seus membros fala por si; dito isto, e independentemente de eu não ter feito as contas necessárias para saber se o senhor em causa é responsável por mais ou menos mortes do que Milosevic, aquilo que ele disse é bastante para eu o classificar, moralmente, como um racista soez, e legalmente, como um apologista da limpeza étnica – ou isso oferece-lhe dúvidas?
    Cordialmente, António Figueira

  7. Ezequiel diz:

    Os Franceses já fizeram bem pior..e os direitos de cidadania que negaram,e ainda negam, a pessoas nascidas na França..revelam precisamente isto!

    A FN de Le Pen, defende precisamente isto (a expulsão dos Muçulmanos de França..qual foi a % na ultimas eleiçoes?? Mas não é isto que estamos a considerar.) Diria mais: esta é a opinião de muitos franceses, particularmente no Sul.

    A verdade é que tentaram usar Lieberman para facilitar o processo de descolonização. Lieberman representa uma minoria insignificante que, no entanto, movida pelo seu fanatismo, pode causar graves impecilhos ao processo de descolonização que é desejado pela maioria. Portanto, todo este drama é despropositado. O governo de Ehud Olmert está na miséria. A tentativa de usar Lieberman é um sintoma desta fragilidade.

    Qt á qtao A Sul -Israel. Em Israel, os árabes votam e são eleitos para o knesset. Na AS isto nunca aconteceu até ao colapso do apartheid. São discriminados, MAS, penso que deve ter em consideração o facto de Israel estar num estado de guerra com os confréres (os arabes israelitas tendem a apoiar a causa Palestiniana, como seria de esperar. Espero tb, que não tenha a má educação de me acusar de ser “racista” por os considerar confréres “CULTURAIS”. Seja como for, apesar de tudo isto…continuam a ser cidadãos israelitas…)

    Em AS os sul africanos viviam confinados em Bandustoes. Em Israel, os Arabes Israelitas vivem onde mt bem lhes apetece (dentro de Israel) Em Haifa, e em outras cidades do norte de Israel, arabes e judeus convivem de forma exemplar. Os casamentos entre arabes israelitas e judeus são cada vez mais frequentes, nesta parte do país.

    O critério supremo do regime apartheid era um critério racista. A constituição Israelita nunca contemplou tal aberração. Além disso, não se esqueça do seguinte: Israel está num estado permanente de guerra. Nos breves periodos de paz, a discriminação contra os arabes israelitas diminuiu drasticamente.

    Comparar Israel com a África do Sul é simplesmente nojento. Penso que poderias ter aprendido qq coisa sobre quantificação no lse. (its all that investmente banking and wanabeeish atittude i.e. oxon)

    http://www.caf.org.il/

    Já agora, se lhe apetecer, porque é que não elabora uma defesa, séria, desta sua tese absurda (que AS = Israel)?

  8. Ezequiel diz:

    Além disso, como deve saber, o termo hediondo “limpeza étnica” significa o acto do exterminio sistemático de um outro povo (á la Jugoslávia).

    Não tem nada que ver com o argumento lunático de Lieberman no qual ele afirma a necessidade imperativa de separar territorialmente dois povos. São coisas distintas, com consequencias radicalmente diferentes. Mas, pelos vistos, por aqui predomina uma inclinação insaciável para o melo drama e para o exagero.

  9. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,
    Vamos por partes:
    1) Os franceses já fizeram bem pior – os franceses e toda a gente: mas não estamos a falar do passado mais ou menos longínquo, e a capacidade desse passado justificar o presente tem limites, que acho que já foram largamente ultrapassados no caso de Israel;
    2) O Le Pen já teve 20% dos votos, mas o Le Pen nunca foi nem será ministro em França;
    3) Peço-lhe desculpa, mas o meu tempo não é infinito e não tenho pretensões a teorizar longamente sobre as afinidades e diferenças entre dois Estados de etnia dominante, como são Israel e África do Sul do tempo do apartheid; limitei-me aqui a citar um facto incontestável e incontestado; V. diz-me que ele resulta das confusões da política israelita – talvez sim, mas isso não o desmente nem lhe retira a importância e, repito, só porque Israel é um país à parte, é que um seu responsável pode afirmar uma enormidade destas sem temer consequências;
    4) Temo que V. confunda limpeza étnica com genocídio: o “extermínio sistemático de um outro povo” é genocídio, a deportação (pacífica ou violenta, mas em qualquer caso involuntária) de membros de um grupo étnico, com o objectivo de recompor etnicamente uma dada população, chama-se limpeza étnica: como é que V. designaria a proposta deste ministro israelita?
    Cordialmente, António Figueira

  10. Ezequiel diz:

    Apesar do sentido geral de limpeza etnica ser a deportação, a limpeza étnica á la Milosevic é genocidio, puro e simples. Por via da transposição subrepticia de metáforas o António gostaria que este sentido se aplicasse à política Israelita. Mas não se aplica, por mais que tente. Não sou eu que confundo limpeza étnica com genocidio. Historicamente os dois fenomenos são indissociaveis.

    Estados de etnia dominante: todos os estados do mundo árabe. Israel tem uma maioria Judaica, sem dúvida. Uma das diferenças elementares entre a ASul e Israel é que, em Israel, a maioria sempre foi representada democraticamente e em A Sul a maioria nunca foi representada até ao colapso do Apartheid. A “etnia dominante” domina democraticamente . Não é preciso teorizar muito para perceber isto. Mais uma vez refugia-se em vagas asserçoes sobre que X ou y é um “facto incontestável e incontestato”. Pois bem, se o é, então não deve ser mt dificil invocar razoes para demonstrar a sua incontestabilidade. Afirmar quye x é incontestável é uma asserção. Não é um argumento.

    Se por limpeza étnica entendemos a deslocação forçada de uma dada população para um outro território, então concordo com a critica a Lieberman. Se for mais do que isto, não.

    Já o disse e repito: Lieberman é politicamente insignificante. Qt ao Le Pen, veremos o que nos guarda a história…Le Pen é um lider que reflecte uma levée en masse (crescente)…não é um lunático isolado como Lieberman!

    http://www.haaretz.com/hasen/pages/ShArtVty.jhtml?sw=lieberman+minister&itemNo=786096

  11. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,
    Você atribui-me intenções que eu não tenho.
    Limitemo-nos aos factos:
    1) as afirmações em questão foram feitas por um membro do governo israelita: V. pode dizer que ele é um extremista insignificante, mas não pode desmentir aquilo que ele disse, e eu, de resto, permito-me pensar que se ele fosse assim tão insignificante, não seria ministro, e se é assim tão extremista, deveria ter à sua volta un cordon sanitaire (como por exemplo o Le Pen tem) e não ser nomeado “ministro das ameaças estratégicas” (que é todo um programa…);
    2) Uma limpeza étnica é… uma limpeza étnica; isto não é uma entorse da gramática nem um uso abusivo de metáforas: o ministro em causa propôs expulsar cerca de 500.000 cidadãos do Estado de Israel de etnia árabe para “recompor” a população do país e garantir o seu carácter judaico; ora isto corresponde, objectivamente, à descrição de uma limpeza étnica e de um crime contra a humanidade, ponto parágrafo.
    3) Quanto à situação dos árabes israelitas, se V. achar que o Edward Saïd é muito one-sided, leia simplesmente o que diz a Wikipedia (inglesa) na entrada “Arab citizens of Israel”; é elucidativo;
    4) Quanto, enfim, à analogia com a África do Sul, ambos levantam um problema muitas vezes negligenciado pela teoria democrática e que é o chamado “inclusion problem” – ou seja, o dos limites e composição da polity, que está na fronteira entre os problemas de legitimidade do sistema político e da legitimidade da própria polity. Tivera eu mais tempo e teria muito gosto em prolongar este debate – mas infelizmente não tenho, e peço a sua compreensão para isso.
    Cordialmente, António Figueira

  12. Ezequiel diz:

    1) Seria absurdo tentar desmentir aquilo que ele, Lieberman, disse. Ele não é insignificante para a minoria fanática que o apoia. A sua importância temporária tem a ver, paradoxalmente, com a politica de descolonização (ver haaretz: lieberman no search engine, e leia os artigos). Ou seja, ele não tem importancia eleitoral real. Ou, por outras palavras, aquilo que ele disse não tem qq ressonância na cultura política israelita (ver reações no haaretz). Portanto, a extrapolação (das declarações de um ministro para a caracterização da natureza de um sistema político é implausivel, insustentável)

    Espero que isto seja claro: eu não estou a defender o Lieberman. Ele que vá para o raio que lhe parta!

    Bem, estamos num circulo. Eu nunca afirmei que não existe discriminação contra os Arabes Israelitas. Tendo em conta a experiencia historica de outras guerras, não é surpreendente que tais injustiças aconteçam, infelizmente. O que afirmo é que, apesar do contexto de guerra, os mecanismos institucionais e socio politicos de contestação EXISTEM e tudo indica que estão de boa saúde. O António fala de “vivencias” e eu falo de estruturas institucionais e de praticas de contestação..que permitem mudar a natureza das vivencias. Estamos a ver as coisas a partir de prismas distintos, mas complementares, penso eu.

    O prob que levanta sobre a inclusão é mt interessante, sem dúvida. Qd tiver mais tempo escreva um post sobre este tema. Será, certamente, um prazer discutir este assunto consigo.

    Obrigado pela atenção.
    Melhores cumprimentos,
    Ezequiel

  13. Ezequiel diz:

    Qt ao significado de “limpeza étnica” as memórias do que se passou na Jugoslávia (genocidios), no Sudão (genocidio)… inscreveram, no meu “conceptual indexical”, a associação genocidio-limpeza etnica. Mas prontos…

Os comentários estão fechados.