Jorge Palinhos: …e a retórica também

Em 1860 morria o filósofo Arthur Schopenhauer. Quatro anos depois publicava-se um texto inédito seu, cinicamente chamado A Arte de Ter Sempre Razão. Ao contrário dos nossos compatriotas, cuja arte de ter sempre razão é calarem-se antes e vociferarem “Eu já sabia! Eu já sabia!” depois, Schopenhauer achava que durante as discussões era fácil ter sempre razão, independentemente da validade dos argumentos ou da constatação dos factos. Bastava usar alguns dos 38 estratagemas que enunciava no seu livro.
Não sei bem porquê, lendo os argumentos que muitos dos blogs liberais e de direita empregam para tentar dissociar a derrota do Partido Republicano da Guerra no Iraque, não pude deixar de interrogar-me se esses argumentos não seriam, em parte, fruto da aprendizagem dos estratagemas de Schopenhauer. Afinal, os próprios derrotados assumiram essa ligação e o estratega da guerra, Donald Rumsfeld, foi demitido em consequência das eleições.
Para verificar tal possibilidade, resolvi confrontar alguns posts de João Miranda, o mais conhecido e reputado blogger liberal, com as 38 estratégias de Schopenhauer. Sem nenhuma ordem em especial:

Os gregos cercaram Tróia para resgatar Helena.
A explosão do USS Maine causou a guerra Hispano-Americana.
A 1ª Guerra Mundial foi travada por causa do assassinado do Arquiduque da Áustria.
(…)Os EUA invadiram o Iraque por causa das Armas de Destruíção em Massa.Estratagema n.º 2, Ex homonymia – Associar à premissa do adversário outras permissas superficialmente similares para depois, ao refutar estas, parecer que se está também a refutar a do adversário.

Consequências da vitória do Partido Democrata

1. O terrorismo no Iraque desaparecerá e as tropas americanas retirarão em paz.

2. Os EUA adoptarão o Protocolo de Quioto.

3. Guantanamo fechará em menos de 6 meses e os presos voltarão para as suas terras.

4. Os Taliban serão finalmente derrotados.
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5. Os Patriot Act e similares serão revogados.

6. Fidel Castro e Hugo Chavez reconhecerão a grandeza dos EUA.

7. Francisco Louçã emigrará para os EUA.

8. Bin Laden será finalmente capturado, será julgado num tribunal americano e ilibado por causa de uma “technicality”.

9. Miguel Sousa Tavares escreverá um artigo sobre a felicidade que é ter a América de volta ao seio das nações civilizadas.

10. O Congresso atribuirá direito de voto nas eleições americanas a todos os cidadãos do mundo.

11. O planeta começará a arrefecer. Aliás, já se nota. Hoje já está mais frio que ontem.

12. O McDonalds começará a servir alta cozinha francesa.

13. O Irão desistirá de fazer uma bomba nuclear e pedirá a adesão à União Europeia.

14. O líder da Coreia do Norte abdicará de toda a sua tecnologia nuclear e entregará o poder a um governo de transição composto por Sul-Coreanos cuja missão será preparar a reunificação da Coreia. Os Norte-Coreanos crescerão 20 cm passando a ter, em média, a estatura normal de um coreano bem alimentado.

15. Uma investigação do Congresso revelará novas provas sobre a conspiração para destruir o World Trade Center e iniciar guerras no estrangeiro. O Bush será julgado por um tribunal internacional, que o condenará a prestar serviço cívico por crimes contra a humanidade.

16. Saddam Hussein será perdoado e reabilitado iniciando uma nova carreira como conferencista de nível internacional.

17. Os bible belters converter-se-ão ao ateísmo militante e os red necks passarão a frequentar a ópera de Nova Iorque e a participar nas campanhas da GreenPeace.

18. Fidel Castro terá permissão para anexar a Florida.

Grandes esperanças. Grandes esperanças.
1. O terrorismo no Iraque desaparecerá e as tropas americanas retirarão em paz.
2. Os EUA adoptarão o Protocolo de Quioto.
(…)Grandes esperanças. Grandes esperanças. Estratagema n.º1, A generalização – Levar a proposta do adversário até aos limites do absurdo.

 Voltou a Boa América 
A esquerda que vê a política internacional como uma espécie de jogo de futebol está eufórica com a vitória da boa América sobre a má. Soma-se à vitória do bom Brasil sobre o mau Brasil, da boa Venezuela sobre a má Venezuela, da boa Bolívia sobre a má Bolívia e à boa prestação da selecção do Scolari no último mundial. Como se diz no futebol, o clube deles só lhes dá alegrias… Estratagema n.º 29, A paródia – Quando estamos vencidos começamos a falar de coisas só vagamente relacionadas, de modo a obter algum tipo de humor.

Estratagema n.º 3, A reinterpretação – Interpretar uma posição relativa numa aplicação geral e absoluta.
Há duas atitudes perante os resultados das eleições americanas. Uma passa por confirmar preconceitos com outros preconceitos. Do género “eu acredito que a guerra do Iraque é má, logo, os eleitores americanos decidiram punir o Bush por causa da guerra no Iraque”. Outra atitude passa por usar a informação disponível de forma objectiva para tirar conclusões.


Estratagema n.º30, Argumentum ad verecundiam – À falta de argumentação lógica, recorre-se a uma suposta autoridade.
Agora é que ninguém pára a paz universal
GOP officials: Rumsfeld stepping down

Estratagema n.º 3, A reinterpretação – Interpretar uma posição relativa numa aplicação geral e absoluta.
Afinal a Boa América perdeu 
Lincoln Chafee, pro-choice, pelo casamento entre homossexuais, contra a exploração das reservas de petróleo no Alaska, contra a pena de morte, contra a guerra do Iraque, pelo financiamento federal da investigação em células estaminais, pela discriminação positiva e pelo controlo da posse de armas. É Republicano. Perdeu.

Estratagema n.º 25, Exemplum in contrarium – Encontrar um único exemplo do contrário do que o adversário defende.
Então, a Pelosi já sabe como é que se vai resolver aquilo do Iraque?
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Estratagema n.º 38, Argumentum ad personam – Quando se perde a possibilidade de ter razão, ataca-se por todos os meios o adversário.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

3 respostas a Jorge Palinhos: …e a retórica também

  1. Seven Van diz:

    Excelente.

  2. É de mim ou este argumento:

    Estratagema n.º 38, Argumentum ad personam – Quando se perde a possibilidade de ter razão, ataca-se por todos os meios o adversário.

    Também se pode aplicar a este post?

  3. José Marcelino diz:

    A escrever continuas imbatível! Na tv, ainda hesitante…

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