A vida dá muitas voltas

[do Público de 11 novembro 2006]

Os nomes nesta farsa são sempre os mesmos — Bush, Bush, Cheney, e uma corte de intelectuais tão prestimosos quanto caducos — sempre com a mesma mistura de cinismo, manipulação e hipocrisia. De resto, esta gente gosta imenso de falar de valores.

Os homens da semana: Saddam Hussein e Donald Rumsfeld. Saddam Hussein foi condenado à morte pelo massacre de mais de uma centena de xíitas na cidade de Dujail. Corria o ano de 1982 e não consta que Donald Rumsfeld, ex-Secretário de Estado da Defesa do presidente Gerald Ford, tenha tido grande reacção. Pelo contrário: no ano seguinte, já como enviado especial do Presidente Reagan ao Médio Oriente, Donald Rumsfeld visitou Saddam em Bagdad e de entre as amenidades trocadas na ocasião ficou a ideia de que Saddam Hussein era um aliado na luta contra (tente adivinhar) o terrorismo islâmico. O massacre de Dujail foi visto com uma retaliação a um atentado contra Saddam por parte do Partido do Chamamento Islâmico (Partido Dawa), que os EUA consideravam como sendo um grupo terrorista, aliado do Irão e logo depois grande apoiante do Hezbollah. O Partido Dawa defendia um estado islâmico, com a lei baseada na sharia e cujas decisões políticas não pudessem contradizer o Corão. E ainda defende. Mas a vida dá muitas voltas: o actual primeiro-ministro do Iraque, apoiado pelos EUA, é do Partido Dawa, tal como o anterior já foi.

Saddam foi condenado à morte a poucos dias de umas eleições intercalares nos EUA dominadas pela guerra do Iraque, entretanto conduzida a partir do Pentágono pela sua antiga visita nos palácios de Bagdad, que voltou a ser nomeado Secretário de Estado da Defesa por George Bush (não, não se trata do Vice-Presidente americano à época do massacre de Dujail, mas do seu filho George W. Bush, cujo vice-presidente, Dick Cheney, é o antigo Secretário de Estado da Defesa do pai). Nem toda a gente ficou contente com esta condenação à morte, por razões de princípio, de método ou de oportunidade. Mas uma das razões menos lembrada é que Saddam Hussein será executado logo que esta decisão passe pelo recurso, interrompendo e esvaziando de sentido os outros 14 processos contra ele. Poderemos nunca ver julgados até ao fim os piores crimes de Saddam Hussein, nomeadamente o genocídio dos curdos na campanha de Anfal, durante a qual morreram talvez cem mil pessoas. Será triste para a humanidade que não chegue a julgamento este crime. E seria fascinante ouvir o que Saddam Hussein tivesse para dizer sobre estes anos de 1987 a 1989 em que a campanha de Anfal decorria e George Bush pai subia de Vice-Presidente a Presidente dos EUA. Mais uma vez, sem grandes protestos contra o ditador iraquiano, — e assim continuou até ao dia em que Saddam Hussein, habituado à trela solta, decidiu invadir o Kuwait.

Sim, Saddam Hussein massacrava o seu próprio povo, como costuma dizer George Bush, filho. Sim, Saddam Hussein teve armas de destruição em massa, e até as usou sob os olhos semicerrados do Ocidente, na guerra contra o Irão. Sim, gostaríamos de saber tudo o que há para saber sobre estes assuntos, de preferência num tribunal internacional.

Nesta mesma semana, os americanos puniram este Partido Republicano e a sua política iraquiana numas eleições intercalares para o Congresso dos EUA onde, supostamente, a política externa não desempenharia qualquer papel. Ora, o Partido Republicano é o partido do Iraque. Não foi Carter que usou Saddam Hussein para atacar o Irão, apesar da crise dos reféns da embaixada americana em Teerão. E depois dos anos de Reagan e Bush pai, Clinton recebeu o Iraque já como facto consumado, com Saddam agora finalmente insuflado no seu papel de “monstro de Bagdad”. Tampouco foi um membro do Partido Democrático que, logo depois de um 11 de Setembro planeado no Afeganistão e perpretado por sauditas, insistia que se atacasse imediatamente o Iraque pela singela razão de que lá é que estavam “os bons alvos”. Foi antes o nosso velho conhecido Donald Rumsfeld. Aliás, os nomes nesta farsa são sempre os mesmos — Bush, Bush, Cheney, e uma corte de intelectuais tão prestimosos quanto caducos — sempre com a mesma mistura de cinismo, manipulação e hipocrisia. De resto, esta gente gosta imenso de falar de valores. Os valores são óptimos. Para os outros.

O que espanta é a moleza com que tudo isto ainda vai sendo recebido pela opinião instalada nos media ocidentais. Os mesmos comentadores que nos garantiram que o Iraque não teria qualquer peso nas escolhas dos americanos foram desmentidos pelo próprio George W. Bush, que poucas horas depois da derrota demitiu o arquitecto da guerra, Donald Rumsfeld, e declarou que estava aberto a qualquer ideia nova sobre o Iraque — demonstrando que ele, pessoalmente, não faz a mínima sobre como lidar com os seus próprios disparates.

Falido um modelo explicativo, passa-se com desenvoltura para a segunda hipótese da moda: afinal o resultado das eleições americanas é a demonstração da moderação do eleitorado e uma vitória dos centristas. Mas, que diabo, não foram estes mesmos comentadores que nos garantiram que os americanos nunca votariam na nova presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, porque esta era uma esquerdista de San Francisco, anti-guerra e apoiante do casamento dos homossexuais? E não pertence esta vitória também a Howard Dean, um dos líderes do Partido Democrático, diabolizado desde 2003 como um lunático pacifista? Ah, as virtudes da moderação. Vejam como as palavras de George W. Bush na sua mais recente conferência de imprensa foram descritas por John Murtha, porta-voz democrático para o Iraque: “lixo retórico”.

O mesmo se poderia dizer sobre as justificações de muitos outros apoiantes da guerra, nomeadamente daqueles que agora nos dizem que os seus adversários não têm nenhum plano para sair do Iraque. Pois é: só a retaliação das tropas americanas contra Falluja provocou mais mortos que os de Dujail e uma onda de terrorismo que não cessa de aumentar. Que surpresa: o nosso plano para sair do Iraque teria sido, simplesmente, não lá ter entrado. Dissemo-lo, aos milhões, nos meses que antecederam a guerra. Saddam deveria ter sido combatido com as armas do direito internacional, com um apoio consistente à oposição democrática, com paciência e superioridade moral. Mas há mais: talvez o melhor fosse mesmo não o ter visitado nem lhe ter dado apoio entre 1983 e 1989.

A vida dá muitas voltas, e a última delas é apenas o princípio do fim para esta amoral aliança entre a arrogância neo-conservadora e o egoísmo neo-liberal, que guardava os votos do fundamentalismo evangélico no bolso e chantageava a opinião pública com o pânico do terrorismo e o fervor patriótico. Donald Rumsfeld terá agora tempo e sossego para reflectir em tudo isto.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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3 respostas a A vida dá muitas voltas

  1. Pedro diz:

    Donald Rumsfeld terá agora o merecido descanso depois de uma intensa actividade em muito ligada a um dos temas mais quentes da política externa norte-americana.
    A minha única questão é saber o que é que a esquerda moderna e europeia faria caso governasse os EUA?

  2. Visit Venus diz:

    Excelente. Que grande texto!
    PS: John Murtha, porta-voz democrático para o Iraque. Não será antes porta-voz democrata?

  3. Sérgio diz:

    Mais um texto que se impunha. É em tempos de memória curta e selectiva que se deve recordar coisas simples a certas pessoas de discurso fácil e fluente numa presumida identificação com o bem absoluto contra o mal absoluto. Sinceramente, começa a ser aviltante ouvir certas pessoas a instrumentalizar os direitos humanos como pretexto para um conjunto de opções que culminam na banalização da morte e na inviabilização de um país.

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