A esquerda moderna

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Depois de ouvir a verve sedutora, cheia de pulsão revolucionária, de Jaime Gama, José Lello e Jorge Coelho, no congresso do PS, consegui antever as maravilhas da esquerda moderna. Ficou-me apenas uma dúvida: por que razão a palavra mais repetida, no encontro do partido do governo, foi “esquerda”. Acham mesmo que a palavra tem poderes mágicos e que o seu uso como mantra pode iludir a realidade? Na fantástica série do Yes prime minister, um assessor avisado explicava ao primeiro-ministro que se ele tinha uma medida revolucionária, convinha anunciá-la na televisão usando um cenário clássico e vestir-se de fato e gravata. No caso de não fazer nada, devia usar um pulôver desportivo e um quadro vanguardista como fundo. Estamos pois no domínio da arte moderna. Viram à direita, enquanto berram “esquerda”, a plenos pulmões. Para completar a ilusão, nada melhor que umas imagens do 25 de Abril, uma musiquinha da altura e as palavras da Maria de Medeiros. Estamos em pleno reinado da esquerda soft, vendida como som ambiental de hotéis e elevadores. Já há móveis do IKEA com esse conceito?
Neste congresso assiste-se a uma blairização do PS. Nos próximos dez anos, os socialistas vão executar o programa da direita, esvaziar o PSD dos seus apoios políticos e empresariais e perpetuar-se, por ausência de alternativa política e eleitoral. A única possibilidade que impede este passeio neoliberal é a ténue hipótese de reconstrução de um pólo alternativo de esquerda que possa fazer convergir socialistas de esquerda (esse lugar mítico), PCP e Bloco. Daí a importância que o governo dá às reformas do sistema eleitoral, o PS vai apoiar qualquer iniciativa para reduzir administrativamente os partidos à sua esquerda, para impedir a existência de um pólo de protesto. O sectarismo da esquerda fará outro tanto, e estaremos, no final dos governos Sócrates, com uma sociedade mais pobre e desigual. Mas muito mais moderna (termo a que se dá a sociedades com normas laborais à chinesa e que só não convergem para o salário mínimo do Ruanda, porque no Ruanda não há salário mínimo).

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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4 respostas a A esquerda moderna

  1. Harpad diz:

    Vivemos numa época de ideais “light”. O socialismo “europeu” é leve, fresco, de fácil consumo e rápida digestão. Os dois grandes partidos portugueses podem ser conotados com os sociais-democratas e democratas-cristãos europeus. A tendência continental é eliminar os restantes partidos e criar um bloco central que se alterna no governo que será, então, gerido sem quaisquer atritos perante a inevitabilidade de uma maioria absoluta. Há muito que o socialismo europeu foi engavetado e substituído pela ausência de ideais disfarçada por palavras de ordem inconsequentes e fatos de fino corte. Numa época em que ter ideais é ser-se desactualizado e a democracia perde interesse junto dos eleitores ocidentais e só à força “entra” no resto do mundo, estas novas forças políticas yuppies encontram o seu perfeito paraíso.

  2. charles diz:

    se eu falasse como Harpad, Nuno Ramos, explicava-lhe o que não entendeu (abaixo), e tivesse lido este post já nem teria escrito o que escrevi, indeciso entre quem é que não entende o quê, porque me parece agora, para melhor, diferente

    sabe, aos poucos dei em aborrecer gente sectária, política ou religiosa, esta por sua inconsciência e fraqueza de espírito, àquela pela manha oportunista, atracção evidente do poder, sem culto notório de ideais, respeitando, embora, a liberdade, o carácter ou falta dele, como a natural esperteza individual

    a minha irritação surge quando, denodado, alguém do PSD, do PS, se põe a esgrimir superioridade, teorias, contra as esquerdas obsoletas e direitas antiquadas, fantasmas de um passado utópico neste mundo pletórico de real

    e não sendo comunista nem militante em mais agremiação ou seita, incomoda-me o despudor ante ideais que, tendo feito o seu tempo, persistem na bondade sensível de muita gente que ainda se devota a alguma causa, de coração, entusiasta e sem paga palpável à vista, cumprindo a sorte de um lugar às minorias, de diferença de ver e pensar a sociedade à margem do maior cinzento, indiferente e oportunista… voilà

  3. Ezequiel diz:

    Plastico, plastico…sem dúvida!

  4. ezer diz:

    Nuno,tem de explicar ao Rui Tavares,que afinal o PS não é de esquerda pois,ele,no sábado a comentar(o jogo) o congresso (coreano) do PS na RTP dizia, a páginas tantas, o contrário .O PS é um partido de Esquerda,eheheh.Só se for da esquerda da direita.E,com essa da Lei Eleitoral,safa!!

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