O regresso do espectro

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Há uma anedota, que se contava no tempo da União Soviética, que relata a visita da mãe de Brejnev à residência oficial do filho Leónidas. O dirigente soviético mostra à mãe a gigantesca casa, as pratas, as loiças preciosas, a fabulosa colecção de carros. No fim da visita, a mãe olha Brejnev com bastante orgulho, misturado de algum receio, e sussurra-lhe: “meu filho, tudo isto é maravilhoso, mas se vêm os comunistas, tiram-te tudo”.
A história aplica-se como uma luva a determinados participantes da reunião de partidos comunistas que se realiza em Lisboa, a convite do PCP. Partidos como o dos “comunistas” chineses têm de facto uma relação especial com o proletariado: passaram da defesa da sua libertação à sua exploração e aquilo que mais temem é que algum dia os operários se levantem e se libertem deles. Neste mundo global, os capitalistas estão em todo o lado e os seus polícias em Washington; grande parte da classe operária vive na China, sem sindicatos e sem liberdade, com um governo que usurpa a sua ideologia e o nome de “comunista”. Estranhamente, o partido dos resistentes anti-fascistas, o partido de tantos operários portugueses, vira a cara para o lado e nega a sua solidariedade aos trabalhadores chineses.
Este texto de Marshall Berman, autor de um dos livros mais brilhantes sobre o modernismo, cujo título é uma frase do Manifesto Comunista (“Tudo o que é Sólido Dissolve-se no Ar”), fala-nos no texto que reproduzo das condições do renascimento do marxismo na China. Naturalmente, refere-se a um marxismo longe da ideologia do Estado/partido opressor, e próximo da liberdade dos operários. Leiamos então, sobre a criatura mitológica que renasce das cinzas da opressão.

A FÉNIX VERMELHA
Por MARSHALL BERMAN

As grandes manifestações na Praça Tiananmen, em Pequim, em 1989, foram discussões poderosas com um governo que saudara a queda do autoritarismo maoísta, mas nunca chegou a reconhecer o seu povo como pessoas ou cidadãos livres. O governo de hoje parece ser tão resoluto quanto o de ontem quando se trata de conservar fechadas as portas à democracia e aos direitos humanos. Mas o governo de hoje está a ter um êxito brilhante na abertura da economia nacional e na capacitação da China para participar da vida económica global. As fábricas do sul da China, hoje, são as maiores produtoras mundiais não apenas de bens relativamente simples, como roupas e calçados, mas também de máquinas cada vez mais sofisticadas: computadores pessoais, aparelhos de DVD, fotocopiadoras e máquinas fotográficas digitais. A China não só dominou as técnicas de produção em massa como demonstrou uma queda impressionante pelas altas finanças. Enquanto isso, desenvolveu uma cultura cinematográfica brilhante – um cinema que lembra o neo-realismo italiano e que mostra ao mundo uma visão tanto do espaço maravilhoso das ruas quanto das pressões internas que movem as vidas chinesas. O aumento vertiginoso do poder da China e o seu desenvolvimento acelerado formam uma das histórias mais intrigantes do final do século XX. O governo fala num discurso triunfalista, que, na realidade, é um eco notável da linguagem da Inglaterra do século XIX, na época áurea daquilo que, mais tarde, os historiadores aprenderam a chamar de “Revolução Industrial”. A Inglaterra, na época, desfrutava de um crescimento industrial tremendo e, a cada ano que passava, dominava uma parte maior do mundo. Os seus meios de comunicação de massa estavam unidos numa orgia de autocelebração. No entanto, o seu nível de sofrimento humano também era assustadoramente alto. A Inglaterra vitoriana era líder mundial em termos de poder produtivo, mas também de miséria humana. Muitas pessoas tinham consciência dessa miséria, mas, quando pensavam criticamente, criticavam a vida moderna como um todo: desejavam “livrar-se das artes modernas para livrar-se dos conflitos modernos”. Marx era mais complexo – queria afirmar e celebrar o progresso humano, mas também combater os seus custos humanos ultrajantes.

Discurso da contradição
O seu pensamento pode ser descrito como um discurso da contradição. “Nos nossos tempos, tudo parece conter em si o seu contrário. Vemos as máquinas, dotadas do poder de diminuir e frutificar a mão-de-obra humana, impelindo essa mão-de-obra à fome e sobrecarregando-a de trabalho. As fontes modernas de riqueza transformam-se em fontes de carência, como sob o efeito de um feitiço estranho. As vitórias da arte parecem ser compradas pela perda do carácter. “Existem bons motivos para dizer que, na China de hoje, “tudo parece conter em si o seu contrário”. É irónico que, durante décadas, uma paródia de marxismo tenha sido imposta a uma China atrasada e camponesa, que não podia de maneira nenhuma digeri-la. É apenas agora, quando a China passa por um processo de desenvolvimento dramático e explosivo, que o discurso da contradição de Marx pode ser uma poderosa visão crítica da sua vida real. Quando apresento esse argumento, falo na condição de alguém formado pela nova esquerda americana e europeia. O nosso movimento, pós-estalinista e anti-estalinista, nasceu em 1956, quando eu era jovem. Hoje, meio século depois, talvez pudéssemos ser descritos como a esquerda usada. É possível que não restem muitos de nós; é provável que nunca tenhamos sido muitos. Mas temos algo proveitoso a dizer. Para nós, a visão de subjectividade moderna de Marx é o seu tema central. Marx compartilha a ideia de Hegel de que “o princípio do mundo moderno é a liberdade da subjectividade”. Argumentamos que Marx parte dessa ideia e a aprofunda. A liberdade da subjectividade é o cerne vital da crítica que Marx faz ao capitalismo moderno. Marx pressupõe o Iluminismo e as suas ideias centrais, os direitos humanos universais e a democracia política. Pressupõe as revoluções inglesa, americana, francesa; vê o comunismo como uma maneira dessas revoluções cumprirem as suas promessas rompidas de cidadania democrática e direitos humanos. Entre as gerações que fizeram as revoluções russa e chinesa, houve milhões de homens e mulheres que imaginaram o triunfo dessas revoluções, em 1917 e 1949, como uma oportunidade de cumprir essas promessas durante as suas próprias vidas. Mas as elites de Estado e partido que assumiram o controle da União Soviética e da República Popular da China eram, na melhor das hipóteses, indiferentes a essas liberdades e, com frequência, agressivamente hostis a elas. As massas soviéticas e chinesas ansiavam pelo cumprimento das promessas da vida moderna. Mas as novas elites negaram que tais promessas alguma vez tivessem sido feitas. Os modelos políticos que mais significado tinham eram os das comunas camponesas, dos mosteiros religiosos e dos impérios militares, todos colectividades avassaladoras que esmagavam o eu individual. O comunismo dos dirigentes foi formulado com mais clareza e simplicidade tosca no “Livrinho Vermelho” de Mao, nos anos 1960: “O eu não é nada; o colectivo é tudo”. O que Marx queria dizer com comunismo não pode nem sequer ser imaginado até que o estalinismo e o maoísmo fossem derrubados. Só então é que sujeitos modernos podem emergir e agir.

Visão irónica
A visão de Marx da vida moderna é saturada de ironia. A primeira grande ironia de Marx é trágica: o capitalismo moderno promete a liberdade subjectiva, mas aliena as pessoas delas mesmas. As pressões da sociedade de mercado distorcem o indivíduo, convertendo-o em máquina de dinheiro (algumas dessas máquinas geram bem mais dinheiro do que outras). Mas descobrimos que os trabalhadores têm o poder de superar a sua alienação, graças à segunda grande ironia de Marx, que é cómica. No “Manifesto”, escreve: “A burguesia não pode existir sem constantemente revolucionar os instrumentos de produção e, com isso, as relações de produção, e, com elas, todas as relações da sociedade. […] O revolucionar constante da produção, a perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, a incerteza e a agitação duradouras distinguem a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações fixas e congeladas […] são varridas e todas as recém-formadas se tornam antiquadas antes de conseguirem ossificar-se. Tudo o que é sólido desmancha-se no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é forçado a enfrentar […] as suas verdadeiras condições de vida e as suas relações com os outros homens”. O capitalismo é o único sistema social que oprime as pessoas de uma maneira que realmente as torna mais fortes e mais inteligentes. Crescendo e tentando viver em meio à perturbação ininterrupta, à incerteza e agitação constantes, com tudo a desfazer-se no ar, todos os trabalhadores ganham uma educação gratuita e obrigatória naquilo que a velha gíria americana chamava de “a escola dos golpes duros”. Que os trabalhadores se organizem, que criem sindicatos radicais não é apenas uma vitória política mas uma vitória da subjectividade.

Nostalgia iluminista
Parece existir, entre os intelectuais chineses de hoje, uma grande melancolia e nostalgia do demasiado breve “Iluminismo” chinês, desde a queda do Bando dos Quatro [grupo de líderes do Partido Comunista Chinês preso após a morte de Mao e apontado como responsável pela violência durante a Revolução Cultural] até às grandes manifestações da Praça Tiananmen e um sentimento de amargura sem esperança em relação à repressão ao pensamento ocorrida após o massacre de Tiananmen. O que tudo isso tem a ver com Karl Marx? O “Manifesto Comunista” inclui duas sentenças incisivas que nos ajudam a perceber a relação. “A burguesia”, diz Marx, “destituiu do seu halo todas as ocupações anteriormente honradas e vistas com respeito reverente. Converteu o médico, o advogado, o sacerdote, o poeta, o homem de ciência nos seus assalariados pagos”. Segundo essa visão, os intelectuais continuam presentes, mas foram rebaixados, incapacitados, destituídos das suas habilidades, afundados no proletariado, onde sobrevivem vendendo os seus cérebros para finalidades puramente técnicas. Para Marx, porém, reconhecer-se como proletário, como membro da “moderna classe trabalhadora”, é apenas o primeiro capítulo numa história dialéctica. Na sua narrativa, assim como nalgumas das maiores obras da literatura mundial (“Édipo Rei”, de Sófocles, “O Rei Lear”, de Shakespeare), o herói é atirado do topo da sociedade para o seu patamar mais baixo – e então reergue-se. O homem que é “destituído do seu halo”, do seu poder sobre as velhas ideias, desenvolve o poder de gerar novas ideias. Ser “proletarizado” é um destino terrível. Mas o capitalismo possui o poder irónico de oprimir as pessoas de uma maneira que as torna inteligentes e fortes. Assim, o intelectual que é expulso da sua classe pode aprender uma nova maneira de enxergar a sociedade como um todo, de estabelecer conexões entre seres humanos que possuem um horizonte mais amplo e mobilizam emoções mais profundas do que os banqueiros e burocratas são capazes de conceber. Quando ele “reforma a sua cabeça”, alimentando a sua subjectividade ferida, pode aprender uma nova solidariedade com outros sujeitos tão feridos quanto ele. Eles podem imaginar um mundo em que “o livre desenvolvimento de cada um é a base do livre desenvolvimento de todos”. Será que eles podem realmente criar um tal mundo? Será que alguém pode? Não sei. Mas o poder de pelo menos imaginar um mundo em que as pessoas sejam sujeitos livres juntos, em lugar de máquinas de gerar dinheiro, é capaz de alimentar e enriquecer o mundo em que vivemos hoje. No momento em que a China se recobre de máquinas de fazer dinheiro, a história de Karl Marx na China pode estar apenas a começar.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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17 respostas a O regresso do espectro

  1. charles diz:

    o Nuno Ramos parte de uma anedota, gratuita, necessariamente, para considerações de um grande assentimento global sobre os ‘comunismos’, passando pelo maior, chinês, por assentar o exemplo “como uma luva” no português, pequenino e pior de todos, na sua visão socialista que nos leva a crer

    e estava dito, não fosse a questão do que pode levar o adepto/militante de um partido grande, ganhador, mais que o espírito sabujo, oportunista, a exprimir tal dor

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Charles,
    Não consigo perceber o que escreveu. Tente escrever em Português e liberte-se da necessidade de rimar. De outra maneira é impossível responder-lhe.

  3. António diz:

    Caro Nuno ainda um dia gostava que os seus companheiros de Bloco, antigos maoistas/estalinistas, explicassem o que se passou na China nestes últimos anos, o que provocou estas mudanças, o que aconteceu no PC Chinês de quem eram amicissimos.
    Ou basta esquecer todo o passado e sempre que o antigo amigo passa na rua olhar para o outro lado com ar de nojo como se nada tivessemos a ver com aquela pessoa.
    Há tanta falta de carácter e de coerencia no meio disso tudo.

  4. reza palevi diz:

    O problema para muitos comentadores é a possiblidade do comunismo ser a única teoria e prática a ter sucesso contra o Capital!Daí,o seu rancor.Compreende-se, que os vassalos fiquem histéricos e,sem trambelho…

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro António,
    É para o lado que eu durmo melhor. Eu não escrevo em nome do Bloco e nunca fui pró-chinês. Pertenci, com orgulho, a um partido que, na minha opinião e nas teses de alguns congressos, se enganou em relação à União Soviética e ao caracter “globalmente positivo” da sua política. A revolução de Outubro foi um grande acontecimento histórico, mas foi de facto traida e adulterada pelo estalinismo e aqueles que se seguiram. Mas, talvez, a questão principal não é quem apoiou o quê, mas como é possível apoiar hoje o comportamento dos dirigentes chineses e norte-coreanos.
    Caro Reza Pelevi (lindo nome),
    Estou de acordo consigo acerca do comunismo, agora, não tenho duvidas que os tipos da nomenklatura norte-coreana e chinesa não são comunistas.

  6. daalmada.blogspot.com diz:

    Mas quem é que em Portugal apoia o comportamento dos dirigentes chineses e Norte-coreanos?

  7. daalmada.blogspot.com diz:

    Pelo seu comentário inicial percebe-se que se estava a referir ao PCP, o que é falso, o PCP não apoia o comportamento dos dirigentes chineses e norte-coreanos e julgo que você o sabe bem. O PCP tem relações com o PC Chinês, com o PT da Coreia do Norte, assim como tem com dezenas de partidos comunistas e operários, seja ele o PC Francês, a Refundação Comunista, o PT Brasileiro, diferentes organizações Comunistas do mesmo país, que têm diferentes opiniões sobre o mesmo problema (Bascos e Espanhóis), e com isto tudo não tem nem de facto concorda com todas as suas opiniões nem actuações.

    É engraçado vê-lo escrever que “é para o lado que eu durmo melhor”, quando fala dos seus amigos ex-maoistas/estalinistas como se nada tivesse a ver com as suas atitudes, embora faça parte do mesmo partido e ao mesmo tempo quer responsabilizar o PCP pelo comportamento dos comunistas chineses. Vê-se logo que é uma questão de coerência intelectual.
    A relação do PCP com o PC Chinês tem a ver com o facto de que aquele partido, para o melhor e para o pior ser o resultado da situação dos comunistas naquele país.

    É claro que a existência da União Soviética foi GLOBALMENTE POSITIVA; o fim do colonialismo (bastou acabar a URSS para voltar-mos a ter manifestações de neocolonialismo), os direitos dos trabalhadores (bastou acabar a URSS para nos dizerem que é impossível mantê-los), um mundo mais pacifico (estamos a caminhar para um mundo mais violento). E mais há para dizer.

    É claro que para si não há experiências positivas, você faz parte daqueles que não se comprometem, podem ficar mal nas fotografias dos massa média do capital. Diga-me um exemplo digno de referência; Venezuela, Bolívia, Cuba, Brasil, Suécia, Finlândia (do Sócrates). Há alguma experiência que mereça referência positiva, ou ficamo-nos pela teoria, porque essa não queima.

    Por fim só recordar o seu camarada (?) de partido Fernando Rosas, antigo maoista/estalinista do MRPP, que teve a lata de na semana passada acusar Álvaro Cunhal de Estalinismo depois de andar anos a chamar-lhe revisionista e Social-fachista. Realmente há pessoas em que entre elas a coerência e a verticalidade pouca coisa existe em comum.

    Mas é claro que estas coisas “são para o lado em que você dorme melhor”.

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Meu caro,
    Eu comprometo-me muitas vezes. Não tenho é a sua opinião de ser positivo ter relações com a ditadura chinesa e norte-coreana. O seu silêncio cumplice sobre estes regimes deve ser, esse sim, para não se comprometer e afrontar os seus camaradas do PCP. Mais lhe digo, não aceito a sua justificação da molhada: “O PCP tem relações com o PC Chinês, com o PT da Coreia do Norte, assim como tem com dezenas de partidos comunistas e operários”, como se isso respondesse a aquilo que lhe disse: esses partidos não têm nada de comunista, apenas oprimem os seus povos.
    Engels dizia uma frase que Jerónimo de Sousa gosta de citar: “a prova do pudim está em comê-lo”. Se um partido explora os seus operários, instaura o capitalismo, tem uma nomenklatura rica, são proibidos os sindicatos, não existe liberdade, porque raio de razão se pode chamar “comunista” a esse partido? Só se você for anti-comunista. Se sabe a ditadura capitalista, se se comporta como uma ditadura capitalista, se parece uma ditadura capitalista: é de certeza uma ditadura capitalista. E o PCP só fica mal na fotografia com tal gente.
    Finalmente, a diferença do ex-maiostas do Bloco e os actuais dirigentes do PCP é que os últimos não aprenderam nada. Quase noventa anos depois da Revolução de Outubro, não perceberam que o Estalinismo foi um crime e um erro. Mais, pioraram: no tempo que Álvaro Cunhal estava na direcção do partido, de certeza que elogios ao papel de Estaline não apareciam nas páginas do Avante, como agora.

  9. daalmada.blogspot.com diz:

    O que você não esclarece, nem os seus amigos ex-UDP e EX-MRPP ainda não fizeram, foi explicar o que é que aconteceu aos comunistas chineses.
    Então até uma determinada altura havia comunistas na China, eram um exemplo para o mundo, campo de virtudes, exemplo a espalhar pelo mundo e, no dia seguinte, sem mais nem menos, desaparecem sem deixar rasto e aqueles que tanto os defendiam ficam calados que nem verdadeiros ratos e assobiam para o lado como se nada fosse com eles. Não lhe parece um bocado estranho. É que é muito fácil resumir as coisas ao “aprender”, mas não se explicar o que se aprendeu, nem o que estava mal. Afinal eles (você) sempre estiveram enganados e tudo aquilo em que acreditavam era mentira e não eram mais que uns ingénuos, ou irresponsáveis que andaram a defender monstruosidades.
    Não há seriedade nessa vossa atitude, é que qualquer dia com tanta aprendizagem ainda vão parar à “esquerda moderna”.
    Quanto à análise que faz da situação actual na China, não passa de uma caricatura tão banal e comum aos liberais de direita que por ai andam.
    Quanto ao meu “silêncio cúmplice sobre estes regimes deve ser, esse sim, para não se comprometer e afrontar os seus camaradas do PCP.”. Francamente esperava de si um nível de argumentação um pouco mais elevada, então o facto de eu estar para aqui a discutir consigo a relação entre o PCP e o PC Chinês, é silenciar a questão… um bocadinho mais de seriedade não seria mau.
    Por fim só me resta voltar a afirmar uma coisa; é falso que o PCP apoie a acção dos Governos Chineses e Norte-coreano. Indique um documento onde isso se prova.

  10. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Meu caro,
    O PCP apoia os norte-coreanos e chineses ao convida-los para as suas iniciativas (encontros, congresso e Festa do Avante) e ao escrever nas teses do seu congresso que esses paises constroiem o socialismo. Você acha que constroiem o socialismo? Diz você com muita garra, que aquilo que eu escrevo sobre a China é uma caricatura. Eu respondo-lhe a defesa que a direcção do PCChinês quer o socialismo é que é uma caricatura grosseira e insultuosa para gerações de comunistas portugueses que se bateram pela liberdade. Finalmente, aqueles que apoiaram a China enganaram-se, mas era mais aceitável enganarem-se nos anos 60 do que agora. Ainda está por explicar essa necessidade umbilical de alguns membros do PCP de terem um farol na terra, e de terem substituido a grande velocidade a URSS pela China: é falta da Crimeia para as férias dos funcionários?

  11. daalmada.blogspot.com diz:

    Já agora podia explicar qual é a sua posição em relação à guerra não declarada que os EUA levam a cabo contra a Coreia do Norte, tentando isolar económicamente aquele país, levando a cabo constantes provocações e exercicios militares. Tentando alterar pelo garrote da ecónomia e da pressão militar e internacional um regime que eles colocaram no eixo do mal (com o seu acordo suponho) e não respeitando nenhum dos acordos conseguidos no ambito do grupo dos seis, o último a 19 deSetembro de 2005 que os EUA romperam a pretexto de uma alegada e nunca provada, fabricação de dolares falsos por parte da Coreia do Norte.

    Quem é responsável pelos milhares de mortos no Iraque não são só os militares Americanos e Ingleses que para lá foram, mas também os inúmeros jornalistas que no mundo inteiro sustentaram as teses Americanas da existência das armas de destruição massissa.

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Embora não tenha respondido a nenhuma das minhas questões, respondo-lhe às suas:
    1. Sou contra qualquer acção de guerra do EUA contra o Irão e a Coreia do Norte. Sou a favor ao desarmamento nuclear e à não proliferação de armas de destruição maciças. As armas nas mãos de gente pouco séria não me dão nenhuma confiança: chamem-se Bush ou Kim Jong- Il
    2. Fui co-organizador das manifestação global contra a guerra de 15 de Fevereiro e outras. Pela parte que me cabe, nunca acreditei nas armas de destruição maciça.
    Continuo a notar que você se recusa a discutir as caracteristerísticas dos regimes norte-coreanos e chinês e as suas ligações ao PCP. O texto deste post , escrito por Marshall Berman, é bastante mais interessante, na defesa que faz de que é preciso um regresso a Marx na China, pelas mãos da classe operária.

  13. daalmada.blogspot.com diz:

    A minha opinião sobre a China, é a de que é um país com dois sistemas; há estruturas próprias de uma economia socialista com outras de carácter capitalista, no entanto parece claro que as estruturas fundamentais da economia continuam nas mãos do estado. Esta situação é justificada com a necessidade de fazer evoluir o país para níveis de um estado moderno. O que na verdade tem acontecido, embora há custa do crescimento das desigualdades.
    Confesso que acho estranho e que sinto alguma apreensão misturada com curiosidade por esta situação, embora também ache estranho que os seus amigos “renovadores”, tão prestes a procurar novos caminhos e soluções para o Socialismo, não achem, no mínimo digna de estudo a actualidade chinesa (já sei que você não fala por eles).
    Na politica internacional, acho que sem dúvida a China tem tido um papel positivo, contribuindo para contrariar a politica imperial americana.
    Em relação à Coreia do Norte, não concordo com a prática do culto da personalidade, nem daquele estranho culto da filosofia de “junche” misturada com marxismo. No entanto penso que a RPDC tem todo o direito a defender-se da guerra que os EUA levam a cabo contra eles. Se alguém tem que mudar o regime, que sejam os próprios Norte-Coreanos.
    E sou profundamente contra a campanha de mentiras que os massa média levam a cabo contra aquele país, distorcendo a realidade, mentindo sobre a realidade existente no país, reduzindo a situação a uma caricatura, veja-se o caso da quebra dos acordos, em que reiteradamente acusam a RPDC de ter quebrado os acordos, quando é claro que foi Bush quem em 2002, deitou às urtigas todo o trabalho desenvolvido pela administração Clinton. Ou nas continuas noticias que aproveitando anos de grave crise económica, correspondendo ao fim da URSS, continuam a afirmar a existência de fome no país.
    Naquele país existem partidos, que podendo hoje de comunistas apenas ter o nome, tem um passado revolucionário e continuam a manter como objectivo a construção do socialismo, julgo que são razões que justificam a troca de opiniões e de experiências, sem que com isso se esteja a caucionar a politica daqueles partidos.
    É esta postura séria e responsável que os ex-maoistas, misturados com “renovadores”, não conseguem ter. A sua atitude profundamente anti-marxista é a de riscarem completamente o seu passado de relacionamento com o movimento comunista internacional, alinhando com as posições políticas revisionistas de social-democratas a neo-conservadores.
    No fundo vocês continuam a ser aquilo que Álvaro Cunhal designou como “radicais pequeno-burgueses de fachada socialista”.

  14. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caríssimo,
    O facto de um grupo de bandidos afirmar que está a tentar construir o socialismo, não torna isso verdade. Um partido comunista a sério não pode transigir com tamanha impostura. Não vejo onde está a postura revisionista, social-democrata ou neo-conservadora em não pactuar com gente sem ideiais.
    Quem se reclama do marxismo e do leninismo não pode fechar os olhos e abandonar as categoriais de análise marxistas quando se fala de paises com partidos “comunistas” no poder. Antes ter fidelidade aos principios que às nomenklaturas.
    Para além de uma questão de moral, estamos perante a uma questão prática: os silêncios cumplices com os desvios burocráticos e a complacência com as repressões estalinistas (disfarçadas de um mera denuncia de um “culto da personalidade: como se o gulag fosse fruto de uma direcção colectiva seria aceitável) levaram à implosão do socialismo. Quem quer o mesmo resultado que defenda as mesmas práticas que levaram a aquele desfecho.
    Você devia reler o livro de Cunhal que cita. Se bem me lembro, ele insurgia-se com gente de fraseologia maoista e estalinista que defendia na prática e objectivamente os interesses da burguesia. Um retrato muito apróximado da direcção de um partido que elogia Estaline e os chineses, servindo assim aqueles que combatem o socialismo.

  15. leonor simões diz:

    Nuno Ramos de Almeida tem todo o direito de divergir quanto quiser do PCP. Mas do que não há dúvida é que a sua posição fica mais fragilizada quando é apanhado a mentir ou a falsificar.

    É o que acontece quando afirma em resposta a um comentário que « o PCP apoia os norte-coreanos e chineses (…) ao escrever nas teses do seu congresso que esses paises constroiem o socialismo.»

    Ora, aqui lanço o desafio para que NRA publique aqui as citações atinentes das Resoluções Políticas de qualquer Congresso do PCP posterior a 1990 que mostrem que é o PCP a afirmar que tais ou tais países «constroem» o socialismo».

    Como NRA falou nas «teses do seu (PCP) Congresso), infere-se que possa estar a lar do último, o VII, realizado em Novembro de 2004. Ora, na Resolução Política desse Congresso, a respeito desta temática, o que se afirma é o seguinte (em versão integral por vausa dos truques das amputações) :

    « Embora com graus e aspectos diferenciados, deve ser valorizado na resistência à nova ordem imperialista, o papel dos países que definem como orientação e objectivo a construção de uma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos, R. D. P. da Coreia. Para além de apresentarem profundas diferenças entre si, estes países constituem importantes realidades da vida internacional, cujas experiências é necessário acompanhar, conhecer e avaliar, independentemente das diferenças que existem em relação à nossa concepção programática de sociedade socialista a que aspiramos para Portugal, e de inquietações e discordâncias, por vezes profundas e de princípio, que nos suscitam. »

    Repararam bem : é «países que definem» (eles) e não o PCP que vem definir ou qualificar o que eles estão a fazer.

    Sobre isto, e não sobre matérias conexas e laterais, aguarda-se agora ansiosamente as palavras de NRA, de preferência reconhecendo que, sem querer, «trafulhou» um bocadinho.

  16. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Cara Leonor Simões,
    Tem razão sobre a passagem que cita, mas, na minha opinião, não sobre o fundo da questão. Para mim, o critério de citar como experiências em ter em apreço aqueles partidos e a falta de análise explicita sobre os países em questão não me alivia: o Partido Nacional Socialista do malogrado Adolfo, também se proclamava socialista e não passaria pelo PCP da altura convida-lo para festas e congressos.
    Tenho de facto divergências com o PCP, se não teria ficado lá. Agora não confundo isso, com o valor de muitas dezenas de milhar de comunistas em Portugal. Lamento que o PCP não tenham sobre os aspectos da liberdade e da democracia uma posição mais clara, que honre os muitos comunistas que se bateram em Portugal pela queda do fascismo.
    Acho que fica bem ao Sócrates convidar o Partido Comunista Chinês para o congresso do PS: são negócios. Fica mal aos ideais comunistas, o PCP convidar o Partido Comunistas Chinês como se fossem comunistas…
    Eu sou dos poucos que acha que para haver uma mudança no quadro partidário português, é preciso uma reorganização da esquerda que envolva a esquerda do PS (essa utopia), o PCP, o Bloco e sectores sociais radicais e ambientalistas. Como vê sou pouco anti-PCP. Até porque, muito das poucas coisas positivas que sou, devo a pessoas desse partido.
    Desculpe uma última nota, por que razão se dirige a mim no plural majestático? Leonor é um pseudónimo colectivo?

    Com toda a consideração,
    Nuno

  17. leonor simões diz:

    Depois do honesto reconhecimento de que uma (importante) afirmação que tinha feito não tem, de facto, fundamento, e da sua deambulação pelos temas que já tinha discutido com outros visitantes do seu «post», a terminar, Nuno Ramos de Almeida atribui-me um suspeito uso do plural majestático.

    Já reli o meu comentário cinco vezes e não encontro nele qualquer plural majestático que seja da minha responsabilidade e acho que «aqui lanço o desafio» ainda é a primeira pessoa do singular.

    É claro que, no conjunto do meu texto, há alguns plurais majestáticos mas estão, como aliás se compreenderá, nas oito linhas da citação da Resolução Política do XVII Congresso do PCP.

    Portanto, qual pseudónimo colectivo qual carapuça !

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