Mitologias

Autor: Carlos Trincão

À hora a que chega, não há, ainda, vivalma. A manhã mal se libertou da madrugada e não concluiu o sísifo ritual do espreguiçamento matinal. Talvez não o tenha iniciado sequer, a julgar pelas meias dúzias de nuvens soltas que toldam, aqui e ali, o olhar celeste de Hélio e obstam a que o encurvado vinco do horizonte marque definitivamente o encontro do céu com o mar.

Não há vivalma, ainda. Quando muito, que se registe a presença de alguns pardalitos que saltitam entre a ondulação do areal – por sinal, de coloração idêntica à plumagem das pequenas aves – debicando as migalhas de pão e biscoito que a aragem da noite não fez rolar para as águas.

À hora a que chega, portanto, é este o único palpitar de vida que, num afã resguardado em – por agora – dispensável mimetismo, aqui se encontra.
Há também um ruído de fundo que parece desintegrar-se ao ritmo certo e sempre ressuscitado da ondulação que escolheu este local para largar os últimos suspiros. E cada rebentação traduz-se numa exaltação de espuma que logo esmorece, se dissipa e reflui. E renasce(rá), incessante e incansavelmente enquanto os dias tiverem horas para gastar.

Este é o cenário à sua chegada. Dir-se-ia, até, que se trata mais de uma pintura que de um enquadramento cénico, tal a harmonia a que todos os elementos obedecem, incluindo esta presença, à primeira impressão perturbadora do equilíbrio natural do momento.

Mas não! É mesmo fundamental que surja e se instale esta nova figura, ou notar-se-ia uma absoluta falta de luz e cor naquele pedaço de tela. E tudo o resto para ali resvalaria, como se de um buraco negro se tratasse!

O sítio que escolhe para ficar é a terra-de-ninguém fresca e húmida que separa o areal seco (e previsivelmente escaldante), das repetidas espumas que aqui chegam, uma pacífica fímbria de areia saturada de água, muito lisa e imperceptivelmente inclinada. E quaisquer marcas que o seu corpo ali tivesse deixado à chegada, foram já lambidas pelo teimoso sobe-e-desce líquido em que estas eternas espumas se transformam quando o mar acaba.
O tronco, nascendo do chão molhado, sobe a direito, ligeiramente flectido para trás, apoiado nas mãos que, apontando também os dedos no mesmo sentido, se mantêm rigorosamente à superfície. De resto, o mesmo sucede com os pés que rematam as pernas caídas, a par, para bombordo, angulando com suavidade pelos joelhos. E o fenómeno repete-se com qualquer ponto do corpo, seja ele qual for, como se não existisse peso nem pressão.
Mais do que sentado, o corpo assim flutua. Enigmaticamente.

Um olhar mais atento, porém, permite dar conta de um rasto brilhante – ou, pelo menos, refulgente à custa da luz da manhã que vai aumentando de intensidade –, parecendo unir esta solitária presença às águas que fixamente contempla. Uma fértil imaginação proporia, romanticamente, que um peixe, mais curioso a princípio, possivelmente deslumbrado em seguida, saíra das ondas, serpenteara pela areia acima até poder saudar convenientemente aquela intrigante personagem. E feito o cumprimento, regressara aos seus domínios, deixando atrás de si um elegante e faiscante trilho de escamas.

Nada perturba a serena contemplação de tão solitário ser: nem a espuma, as ondas, ou a imensidão do oceano; tão-pouco o fio do horizonte; ainda menos – estranhamente, diga-se em abono da Verdade – o crescimento da manhã, o apogeu do meio-dia ou a escoada lassidão da tarde. Dir-se-ia que o que da refrescante humidade emerge é a imobilidade mais perfeita, delicada e estática jamais tentada, incluída mesmo qualquer obra que Mestre Fídias alguma vez tenha concebido, esculpido ou, sequer!, imaginado.

Nada perturba a perfeição! Nem a brisa logra adejar os cabelos. Nem o calor é suficiente para gerar a menor gotícula de suor. Nem os humanos, que entretanto se apossaram do Tempo e do Lugar, dão por ela, ou ela deles. É como se ali não estivesse!
Só quando o crepúsculo se deita sobre as águas e se estende pela terra dentro, só então, um ténue frémito lhe acossa o tronco e a cabeça resvala para o peito. E é nesse momento que duas lágrimas lhe nascem no parapeito dos olhos-cor-de-infinito, escorrem-lhe pela face, acariciam-lhe a delicadeza dos seios, orlam-lhe a subtileza do tronco e, finalmente, caem na areia.

Daí em diante, parece ter o Olimpo descido à terra, tantas são as maravilhas que à Humanidade estão vedadas:

Quando caem as lágrimas, agita-se o trilho de escamas, sopradas, talvez, por algum bafo divino. E enquanto as lágrimas rolam areal abaixo, como que respondendo a uma inapelável chamada do Monte Sagrado, as escamas, já agitadas, formam minúsculas legiões de refulgentes armaduras, marchando à ordem de Ares, areal acima, em busca da escultura viva que parece aguardá-las.

No seu rolar, ganham as lágrimas uma esférica consistência, crescentemente compacta. E vestem-se de um opaco nacarado, branco-leite, semi-brilhante, semi-baço. Um branco definitivo numas esferas perfeitas, duras e delicadas, que tocam as espumas no preciso instante em que duas ostras emergem – como se de atalaia estivessem! – e se abrem para acolher e resguardar, cada uma, sua pérola.

As escamas que escalavam o declive areento vão agora ocupando tão ordeiramente os seus lugares naquele corpo inacessível ao olhar de qualquer mortal. E ocupam-no tão sincronadamente que é no preciso instante em que as ostras se fecham definitivamente que a última escama se aconchega no alvéolo que Alguém lhe destinou.

Vem, então, uma onda cautelosa, especial e certeira a abraçar esta nova e sublime criação do Oceano. E é então que ela, fundindo-se no mar, desaparece numa sensual torção de corpo, mergulhando primeiro a cabeça ornada de cabelos e algas. Adivinha-se ainda a alvura dos ombros. E, por fim, resta apenas o reflexo da Lua numa cauda serena que se despede com uma derradeira e prateada chapada na superfície das águas.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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Uma resposta a Mitologias

  1. l.rodrigues diz:

    é do meu browser, é de propósito, ou a formatação deste texto está a lixar o blog?

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