Um comediante à solta

A notícia caiu como uma bomba. O pequeno post, algo elíptico, de Pedro Arroja (who else?) publicado no “Blasfémias”, rezava simplesmente: “O liberalismo é um produto do catolicismo” – mas foi bastante para fazer luz por esse mundo fora e obrigar a rever à pressa os manuais de história da humanidade inteira: John Locke, “The Glorious Revolution”, os “Founding Fathers”? – tudo católico; foi a católica Holanda que ergueu o estandarte da liberdade de consciência contra o calvinista Duque de Alba, enquanto ao lado o herege Luís XIV tentava (sem conseguir) cortar as raízes do catolicismo e da tolerância em França, revogando o Édito de Nantes; graças a Arroja, ficou a saber-se que o liberalismo saiu da cabeça dos Papas e mesmo que os Bórgias, esses incompreendidos, foram os precursores da liberalização dos costumes no Velho Continente; aliás, os Estados Papais eram conhecidos em toda a parte como o refúgio dos liberais, a Inquisição era um instrumento da liberdade de pensamento e o ultramontanismo um plano liberal para a governação da Europa; a Santa Aliança promovia a liberdade dos povos e Metternich apreciava sobremaneira os princípios do governo representativo; e até no pequeno Portugal as coisas não eram afinal o que pareciam, e quem mais fez pela causa da liberdade política no século XX, sabe-se agora, foi D. Manuel Gonçalves Cerejeira – só comparável nesse particular a outro filho espiritual da Santa Madre Igreja, o Professor António de Oliveira Salazar, esse liberalão. Deus lhe dê longa vida, Prof. Arroja, para continuar a fazer-nos rir a todos.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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9 respostas a Um comediante à solta

  1. Ezequiel diz:

    Mr Aroja needs help…psychiatric help, that is!

  2. Sérgio diz:

    Apesar de o Prof. Arroja ser, de facto, uma figura que se enquadra no quadro humorístico que traçou, há uma imprecisão numa premissa axial do seu comentário: No post de 28 de Outubro, o nosso incansável hayekiano não disse «catolicismo» mas «cristianismo». Como tal, afirmar-se que o liberalismo é fruto do cristianismo é bem mais razoável (ainda que numa linha filosófica tradicionalmente conservadora e de direita) do que do catolicismo o que seria, isso sim, uma enormidade à Arroja.

    A minha citação é exacta – Arroja diz expressamente “catolicismo”. É certo que faz mais considerações sobre o tema, escrevendo também posts sobre a filiação do liberalismo no cristianismo, o que, como bem diz, é até certo ponto defensável (papel da reforma, da ética protestante, etc.); mas produz um em 29.10 – que não surge imediatamente quando se faz o link, mas aparece se “descermos” na página e tem por título “O pai” – onde escreve, palavra por palavra, a frase que eu cito.

    António Figueira

  3. Ezequiel diz:

    Se pensarmos no Cristianismo como uma meta-arquitectura conceptual, a minha avó também é fruto do Cristianismo, assim como o anarquismo, o comunismo, e, o Benfica..

    Será que me pode explicar como é que ” afirmar-se que o liberalismo é fruto do Cristianismo é bem mais razoável…” Apresente um ou dois nexos conceptuais, por favor!

    Meu caro, isto é uma enormidade, uma bizaria digna de contemplação zoologica, de qq uma das formas. O prob é que estes neo liberais de inspiração hayekiana, friedmaniana, tendem a NÃO conhecer a tradição liberal clássica, de Mill, Locke, Kant (?) etc. Este é que é o grande problema. Quando os economista enveredam pela filosofia política…dá nisto! Os neo liberais que hoje cantarolam por aí pouco ou nada tem que ver com o liberalismo. Como liberal, sinto-me ofendido com estas confusões. BOLAS!!! 🙁

  4. Sérgio diz:

    Ao cuidado de António Figueira:
    Sendo assim, retiro o fundamento da minha observação. Agradeço-lhe que tenha dispensado tempo a corrigir a minha imprecisão.
    Ao cuidado de Ezequiel:
    O facto de dizer que é mais razoável não quer dizer que concorde. Mas, como saberá, é de «escola» afirmar-se que existem determinadas orientações (mais intelectualistas do que de experiência histórica, de facto) como uma certa autonomia do homem no mundo criado (interpretação abundante numa certa linha da hermenêutica da secularização), o reconhecimento de uma certa dignidade natural e inerente ao homem, da qual se destacaria a sua liberdade. Mas, com efeito, estas concepções não podem escapar à crítica empírica. E descanse: concordo consigo quando nos lembra uma certa navegação à vista dos neo, sem grandes referências ideológicas do liberalismo clássico, a não ser aquelas que lhes permite papaguear a liberdade a cada instante, ainda que o façam co a coerência que se sabe (basta ver a posição de Hayek sobre as ditaduras em Portugal e no Chile, por exemplo).
    Atenciosamente.

  5. Ezequiel diz:

    Caro Sérgio

    Porventura terei sobrevalorizado o “razoável” na minha interpretação do texto que escreveu, que mt apreciei (desta feita). Se o fiz, peço desculpa (por este e outros comments…sou decididamente mal educado mas raramente o sou por malícia…estas coisas enervam-me…sorry! )

    Todavia, o facto de dizer que é mais razoável é quase o mesmo que dizer que esta tese pode, mesmo que hipoteticamente, desfrutar de alguma legitimidade histórica. A concepção de liberdade do(s) liberalismo(s) (clássicos) parece-me resolutamente secular e, acima de tudo, não transcendental (o que não acontece com o Cristianismo que instituí um dominio transcendental da verdade ética). É verdade que a teologia Cristã absorveu influências liberais, como não poderia deixar de ser. Uma coisa é dizer que o liberalismo é, em termos filosoficos, distinto do cristianismo e outra, bem diferente, é afirmar que o liberalismo não surge no contexto do Cristianismo. O facto de surgir no contexto do Cristianismo não demonstra que a sua natureza é intrinsecamente Cristã. Caso contrário, teriamos “categorias supremas”, um determinismo conceptual asfixiante. As tradições raramente são homogeneas ou univocais (a julgar pela qualidade do seu último texto, imagino que reconheça a plausibilidade deste conceito) Seria muito interessante investigar, genealogicamente, as afluentes que conjuntamente “explicam” a constituição do liberalismo. Se procurarmos atenciosamente encontraremos, certamente, muitos conceitos Cristãos. Até no Marxismo (por exemplo, o conceito da revolução emancipatória pode ser interpretado como uma transfiguração do conceito da vinda do Messias)

    Mais uma vez as minhas desculpas pela má educação. Por favor continue a escrever. Mt interessante!!
    Melhores cumprimentos,
    🙂

  6. Ezequiel diz:

    oops…Bem, no Marxismo a revolução-como-a-vinda-do-Messias seria uma influencia eminentemente Judaica

  7. António Figueira diz:

    Caro Ezequiel,

    Perdoe a minha intromissão na sua interessante discussão com o Sérgio Vieira, mas julgo que, se procuramos numa relação genética e causal entre a religião e o liberalismo, podemos circunscrever essa busca à reivindicação de poder crer de modo diferente, ou até não crer – ou seja, devemos procurar os nexos entre a tolerância religiosa e a liberdade política (excluindo, obviamente, que a doutrina que a defende possa ter sido segregada em primeiro lugar pela religião instalada).

    Cordialmente, António Figueira

  8. Sérgio diz:

    Caro Ezequiel,
    Entendo perfeitamente os termos do seu raciocínio e, em boa verdade, identifico-me com eles. Não tem de pensar que fiquei melindrado. Afinal todos usamos de alguma irreverência. De resto, ao ler esta sugestão de António Figueira, ocorre-me um conjunto de textos sobre a tolerância religiosa que marcaram positivamente os séculos XVII e XVIII.
    Aceito o seu repto e, sempre que julgar poder dizer algo, cá estarei. Tal como Ezequiel, decrto. Até ao próximo comentário,
    Sérgio.

  9. Luís diz:

    Bem eu só entenderia essa frase se lhe tivessem colocado mais umas palavras e tivessem dito que o liberalismo era um produto do actos errados que o catolicismo ( em bom rigor, a Igreja Católica) fez durante anos. Assim ainda era capaz de aceitar, de outra maneira parece-me mais uma divagação pelo mundo dos sonhos.

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