Portugal e a Mongólia

Em princípio, os modos de produção sucedem-se na história e só no capitalismo desenvolvido estão reunidas as condições objectivas que permitem uma transformação socialista da sociedade. Em princípio, apenas – porque quando a República Popular da Mongólia foi fundada nos anos 20, o país vivia ainda num regime semi-feudal, do qual transitou directamente para o socialismo. Foi então necessário teorizar esse “grande salto em frente” que permitia passar do feudalismo para o socialismo sem passar pelas agruras (ou as delícias, depende do ponto de vista) do capitalismo – uma utilíssima inovação teórica, com grande aplicação no terceiro-mundo nos anos 70 e 80, até que o desaparecimento da URSS e do bloco socialista ditou igualmente o fim da maior parte dos “socialismos” africanos e asiáticos criados anteriormente à sua sombra.

Os mais sofisticados dentre os defensores do “não” no próximo referendo sobre o aborto (que não são obviamente a Dr.ª Tété, o extravagante Dr. Mário Pinto ou a inenarrável Zita Seabra), defendem a aplicação da “tese mongol” a Portugal. Eles sabem perfeitamente (porque não são parvos e são ilustrados) que nós temos vivido até agora com uma legislação intolerante, que impõe à generalidade da população as concepções metafísicas de apenas uma minoria sobre o momento em que nasce aquilo a que chamam “a vida” e se constitui a pessoa humana, e que essa legislação é ao mesmo tempo causa e consequência do nosso carácter periférico e do nosso atraso em relação ao resto da Europa; mas querem fazer crer aos outros que desponta no horizonte uma “nova consciência” sobre a vida, que já não seria intolerante e atrasada, mas sim verde e “new age”, e que Portugal, votando contra a despenalização do aborto, daria o seu “grande salto em frente”, da retaguarda dos pré-modernos para a vanguarda dos pós-modernos.

A todos eles, eu agradeço as boas intenções, mas esclareço que prefiro ser europeu a ser mongol.

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SEXTA | António Figueira
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