Jorge Palinhos: Mercedes versus Daewoo

A história é paradigmática. Tão paradigmática que nem se acredita. Uma jovem de liceu, de família abastada e, depreende-se, inesgotavelmente mimada, enraivece-se com uma colega que se recusa a fazer sexo com ela e como vingança promete matar-se. Envia repetidos SMS à colega para a assustar, o último dos quais com uma contagem decrescente. Depois, enfia-se num dos Mercedes Benz da família – um daqueles carros de luxo gigantescos, com 300 airbags, quilómetros de superfícies deformáveis e a última gritaria em kits de segurança rodoviária – (pormenor anedótico: a jovem não se esquece de pôr o cinto de segurança) e sai da garagem para se ir atirar… por uma ribanceira abaixo? Para diante de um comboio? Para debaixo das rodas de um colossal camião de carga? Nada disso. A jovem condutora intrépida, para executar o seu premeditado suicídio próprio, não tem melhor que lançar o seu avantajado e pesadíssimo Mercedes contra um minúsculo Daewoo, daqueles com solidez de casca de noz, leveza de pena e equipamento de segurança mínimo, conduzido por uma senhora de proveniência mexicana, mãe de três crianças menores, uma das quais seguia com ela no carro.

O resultado, até o mais acérrimo ignorante das leis da física o pode prever: a jovem de hormonas em ebulição, no meio de muitos apitos, avisos luminosos e airbags insuflados, fica com algumas nódoas negras, a mãe de família morre e a sua filha de seis anos é brutalmente ferida, provavelmente com sequelas para o resto da vida.

E agora? Se o caso é bizarro, as consequências são rotineiras: a família rica da adolescente contratou um bom advogado para impedir que a filha acabe na cadeia e esta terá apanhado uma reprimenda e uma proibição de sair à noite durante as próximas semanas; a família mexicana vê-se a braços com a perda de um dos progenitores e a perspectiva de contas médicas infindáveis com a filha incapacitada para o resto da vida, possibilidade atenuada com a esmola que a família rica certamente não lhe deixará de dar, nem que seja para calar a própria consciência.

Como eu disse, a história é tão paradigmática que milhentas conclusões se podem tirar. Mas uma única vou mencionar aqui: a de que atenuar as desigualdades económicas é também uma forma de proteger os inocentes da imbecilidade alheia.

Fontes:
http://www.msnbc.msn.com/id/15349057/
http://beautyandthebeltway.blogspot.com/search/label/Ranting
http://crimeblog.us/?p=175

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.