A grelha queimada

Em vez do cepticismo melancólico dos “Vencidos da Vida” agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos “convencidos da vida”.

A «Geração Rasca» está mais velha e o mesmo jornal que celebrizou o termo — este mesmo onde escrevo — trazia há dias uma notícia curiosa. Segundo o Público, o número de artigos assinados por portugueses nas revistas-padrão do mundo científico, a Nature e a Science, ultrapassou as quatro dezenas no último ano. Ou seja, a Nature e a Science publicaram mais artigos de portugueses no último ano do que em toda a história de ambas as revistas. Os números não estão pormenorizados por idade dos cientistas, mas como a quase totalidade dos nomes de portugueses não aparece (ainda) como primeiro autor dos textos, a conclusão natural é a de que se tratam de investigadores “junior”, ou seja, em torno dos 30 anos. Aposto que se fôssemos a olhar mais de perto descobriríamos que grande parte destes cientistas fez os seus estudos durante os anos 80 e 90, precisamente aqueles que a opinião dominante considera terem sido de “terra queimada” na educação. Estão de parabéns os autores dos artigos e muito em particular um cientista que, tanto quanto me lembro, nunca acreditou na tese da “geração rasca”, José Mariano Gago.

Por que não foi esta notícia mais comentada pelos colunistas que costumam escrevem sobre educação básica, ensino superior e investigação? A resposta pode estar naquilo a que a ciência cognitiva chama de “enquadramento” (framing), mas que é já de há muito conhecido sob outras versões, como a de “grelha de leitura”. Ora acontece que quando temos uma grelha de leitura muito vincada sobre um tema ela tende a anular os factos que a contradizem, mesmo que eles estejam debaixo do nosso nariz. É isso que se passa com o debate sobre a educação em Portugal, de tal forma dominado ideologicamente que não há facto contraditório que sobreviva ao rolo compressor da “terra queimada”. Talvez por isso uma notícia destas não mereça comentário: se a geração rasca é assim tão rasca, como é que publicam nas revistas de referência internacionais como nenhuma geração de portugueses antes dela o fez? O cérebro baralha-se e recusa-se a acreditar.

E é por isso também que eu insisto em dar destaque a esta notícia e outras como ela, porque os factos que contradizem a grelha de leitura dominante precisam de poder cumprir o seu papel de antídotos. Antídotos, reparem: a minha ideia jamais seria dizer que tudo é maravilhoso na educação portuguesa dos últimos anos — o que além de falso seria pernicioso —, mas que há coisas boas que demoram tempo a acontecer, investimentos que já estão a dar certo e uma progressão que se arrisca a ficar pelo meio do caminho se a grelha da “terra queimada” não tiver contraditório. Aquilo que eu quero, no fundo, é que a próxima geração possa ser também tão rasca, mas tão rasca, que publique mais ainda na Nature e na Science do que esta.

Seria interessante perceber de onde vem esta ideologia da “terra queimada”. Desde logo, é importante notar que ela não tem nada de original: desde a Antiguidade Clássica que falar da decadência dos saberes e dos valores é um lugar-comum, uma versão intelectual da “queda do paraíso” bíblica. No Ocidente esta tendência é reforçada pela trajectória hoje crescentemente conservadora das gerações dos anos 60 e 70. E o que é ser conservador senão considerar que o futuro é, com toda a probabilidade, pior do que o passado? (Este é o momento em que os extremos se tocam e os conservadores estão de acordo com Rousseau, mas suspeito que esta evidência tampouco possa penetrar em certas grelhas de leitura). Por razões históricas que seria complicado resumir, Portugal tem aspectos reforçados das duas tendências: a decadentista que teve o seu auge no século XIX, e a reviravolta conservadora da geração do 25 de Abril, que se nota não só nos que navegaram até à direita mas até nos que ficaram à esquerda. O problema é que em vez do cepticismo melancólico dos “Vencidos da Vida” agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos “convencidos da vida”.

Os efeitos destas tendências não se fazem apenas sentir nos debates sobre educação. Um exemplo especialmente evidente está na relação entre colunistas da imprensa e blogosfera (a distinção entre ambas é de base tecnológica, mas o debate também se faz sob um pano de fundo geracional). Vejamos alguns casos recentes, começando pela acusação de plágio (quanto a mim, e parece que à maioria das pessoas, perfeitamente infundada) que um blogue anónimo fez a Miguel Sousa Tavares. Esta acusação foi entendida como sintoma de uma espécie de doença crónica da blogosfera. Num editorial do Público, José Manuel Fernandes sugeriu que a blogosfera teria de fazer um esforço colectivo para se limpar destes maus exemplos. A intenção, por boa que fosse, parte de uma incompreensão de base do que é a blogosfera, um meio descentralizado e avesso a hierarquias, onde o máximo que cada blogue pode fazer para corrigir os outros é o que já faz: escrever sobre o assunto. Tudo o mais seria como pedir ao “Jornal de Letras” que se responsabilizasse pelo que escreve “O Crime”, ou à “Nova Cidadania” que tomasse conta daquilo que sai na “Sexus”.

Em casos como estes, não há blogosfera nem imprensa, há blogues e pessoas bem-intencionadas e credíveis e outras que não o são. E Miguel Sousa Tavares tampouco deu um bom exemplo ao responder com acusações genéricas a “um bloguista bloquista” ou a um “escritor frustrado obcecado com plágios” — acusações que não quis concretizar e que lançam suspeitas sobre pessoas individuais. O que vem provar que também na imprensa há quem não saiba cumprir com as regras básicas de enunciação e confirmação de factos. O mesmo se pode dizer da recente incursão de Eduardo Prado Coelho em território blogosférico, acusando de anonimato um blogue assinado por Luís Pedro Coelho [http://blog.luispedro.org] ou descrevendo como “aparvalhado” o estilo de um dos mais sérios bloggers nacionais, Luís Aguiar-Conraria [http://aguiarconraria.blogsome.com/]. Na resposta de Aguiar-Conraria, Eduardo Prado Coelho deve ter descoberto aquilo que Vital Moreira, Vasco Pulido Valente, Constança Cunha e Sá e até José Pacheco Pereira já descobriram: que a blogosfera dá luta e, de caminho, nos prova que afinal Portugal tem mais gente, mais bem informada e mais empenhada do que aquilo que se pensava.

Numa velha canção dos anos 60, Georges Brassens satirizava este tipo de debates explicando que “le temps ne fait rien à l’affaire, quando on est con, on est con”. Traduzindo e adaptando, quer dizer que esta não é uma questão de tempo, de geração ou sequer de tecnologia — quando se é aparvalhado, é-se aparvalhado. Há gente que precisa de voltar a ouvir esta música antes de lançar os seus anátemas — e, curiosamente, os que mais parecem precisar são os que a conheceram logo na altura em que ela saiu.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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18 respostas a A grelha queimada

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Excelente artigo!

  2. Santiago diz:

    A blogosfera dá luta? É verdade… aqui vai disto:

    Essa de dizer “como a quase totalidade dos nomes de portugueses não aparece (ainda) como primeiro autor dos textos, a conclusão natural é a de que se tratam de investigadores “junior”, ou seja, em torno dos 30 anos” revela alguma confusão sobre quais são as práticas habituais. A verdade é que os “primeiros autores” são geralmente os “júniores” (estudantes e post-docs) e não há essa epécie de “graduação” com a idade… se alguma coisa dessas houver, será até em sentido contrário: Os líderes de grupo (“mais séniores”) tendem a aparecer na última ou penúltima posição.

    Em suma, o seu argumento acerca da “geração rasca” não tem sustentação…

    E não percebo a que propósito vêm esses parabéns ao Mariano Gago, que não meteu prego nem estopa neste assunto. Se quiser dar parabéns a alguém (para além dos cientistas, claro) devia dá-los ao Cavaco Silva, que foi quem convenceu a UE a permitir usar os fundos estruturais no desenvolvimento do Sistema Científico. Percebo que seja mais fácil dar graxa ao Ministro, mas convém saber algo da história recente e não acreditar em tudo o que se lê nos jornais…

  3. Renato C. diz:

    (Não faço minhas as palavras do comentador anterior, todavia, com a devida licença, subscrevo a publicação.)

    Seja como for, as gerações que conceberam, educaram e sufocaram a pretensa “geração rasca”, puxando-lhe depois oportunamente o tapete e renegando-a com recurso a esse epíteto — como quem diz, “nós nada temos a ver com isso, não fomos nós que fizemos…” —, são uma bitola muito baixa para a relação de causalidade que pretende estabelecer no artigo.

    Há, na verdade, uma “geração rasca”, não a do efeito, mas sim a da causa. Ou não fosse uma geração produto daqueloutras que a precedem. A geração, sobretudo, que agora gravita sensivelmente entre os 45 e os 60s, que viveu conscientemente o tempo do pós-revolução, das oportunidades, do tudo-é-possível, da reconstrução e da reivenção, e aproveitou o ensejo para mergulhar o País no oceano profundo da política dos 3 Cs (Corrupção, Cunhas e Compadrio), num cenário de insciência, estupidez e ignorância, anticivismo e tiros no pé, absoluto e insano caos social, económico, cultural, urbanístico, etc. & tal, é sem dúvida uma geração rasca.

    A outra, a que mostrou o rabo ao Mundo para caracterizar o estado da Nação, a que entravou simbolicamente o sistema com cadeados e hoje tem trintas e já leva os filhos ao infantário e já investiga nos laboratórios, essa é, simplesmente, uma ‘geração à rasca’. Aliás, de cada vez que me detenho a revisitar as fotografias do célebre episódio, não consigo deixar de pensar que — não obstante a “cegueira” apregoada pela vox populi — aqueles cus foram visionários. Estava ali a imagem do nosso futuro.

    E como, ademais, se dá o infeliz acaso de termos sido e sermos ainda governados por essa geração rasca, the one and only, num ápice de trinta-e-poucos anos passámos rapidamente do “orgulhosamente sós” ao novel ‘vergonhosamente sós’ na Europa do Quarteirão.

    É verdade que coisas boas nos caíram entretanto no colo. E que, no domínio da investigação, desde há uns anos a Fundação e uma mão-cheia de outras fundações e institutos conseguem criar condições para fixar mais, e melhores, jovens cientistas cá dentro. Mas a substância ainda é inconsistente. A emigração subsiste como o caminho mais certeiro. E profícuo.

    Do seu artigo sobressai uma ideia que valoro e que me anima quanto ao futuro. É verdade que a geração que a geração rasca acusou de ser “rasca” é uma geração com muito valor. E se há nela, como em todas, ou talvez nesta mais um pouco dada a qualidade da progénie, cepas tortas, também são muitos aquelas e aqueles capazes de ajudar a endireitar a vinha, a arrancar a ignomínia do eucaliptal com que nos desfiguraram os políticos e a reapostar na identidade do sobreiro, do pinheiro e da oliveira.

    Este País poderá ser melhor, não duvido, assim a divina providência consiga escorar o buraco do ozono. Enquanto não chega esse dia, a geração à rasca vai sustentando os velhos empreiteiros do País, os rascas. Paga-lhes a factura e limpa-lhes a culpa.

  4. Este texto tem muito que se lhe diga (nomeadamente essa questão do número de artigos) e eu tenciono responder-lhe no meu blogue. Mas agora respondo só ao Santiago.
    Santiago, quem é que era o presidente da JNICT no governo do Cavaco Silva antes de ser demitido pelo Sucena Paiva? Já te perguntei isto noutra altura. Concordo contigo: convém saber algo da história recente (por isso, se a sabes, peço que respondas). E a história recente diz-nos que a contribuição do Cavaco para a ciência é resumida na famosa frase de que “a precaridade do emprego científico é importante para estimular a produtividade”.
    Não há comparação entre os investimentos na ciência nos governos do PS (por muito que ainda haja a fazer) e da direita, que cada vez que chega ao poder deixa a ciência nas lonas.

  5. Santiago diz:

    Caro Filipe (e peço desculpa por abusar deste blog para dialogar assim… mudo-me já para o Avesso assim que lá escreveres… se pudesses transcrever o dito artigo eu agradecia…):

    Se não respondi à tua pergunta na altura foi por mera distracção. O Presidente da JNICT nesse tempo era o Mariano Gago (que, correctamente, continuou o meritória obra do Mendes Mourão). Mas se o importante é saber quem foi o Pres da JNICT, então sugiro que demos os parabéns ao Ramoa Ribeiro, pois foi ele que presidiu a este “espectacular” recorde de publicações na Nature e na Science.
    Vem a propósito dizer que este último senhor tem sido injustamente julgado pela “verdade oficial” (que no fim de contas é sempre a que vem nos jornais…).

    Já quanto ao problema dos dinheiros para Ciência é que me recordo distintamente de ter respondido. Os maiores aumentos no financiamento público ao Sistema Científico Nacional (após o 25 de Abril), medidos em Taxa Média de Crescimento Anual, ocorreram durante os governos de Cavaco Silva. Ver aqui, por exemplo. O dinheiro que houve para distribuir a partir de 1995 foi negociado no tempo desse 1° Ministro, e quando ele se foi embora não deixou a “torneira dos fundos” fechada…

    Deixa-me só repetir uma coisa que escrevi no post que “linkei”: “[A discussão sobre o Sistema Científico Nacional] não deve ser inquinada, à partida, por mitos e preconceitos (pseudo-)ideológicos sobre a dicotomia esquerda/direita. Sou, muito sinceramente, da opinião que, neste caso particular, todos merecem iguais elogios“…

  6. santiago, não está a abusar! pelo contrário, parece que há mais gente a querer comentar aqui. eu só poderei responder mais tarde, mas virei.

  7. João Miguel Almeida diz:

    Li o artigo do Rui mais como contra-ataque a uma corrente de opinião do que como crítica à política do Governo A ou B, embora não tenha dúvidas de que o Rui seja tão crítico do cavaquismo como do PS de Sócrates.
    Acho a expressão «convencidos da vida» bem apanhada e uma boa réplica à «geração rasca». E convencidos de quê, se tiveram oportunidades que muitas outras gerações de portugueses não tiveram e as gerações mais novas não vão ter?
    Durante a minha adolescência era um crítico da minha geração, não por a considerar «rasca», mas «yuppie». Os meus colegas de colégio só se preocupavam em arranjar um emprego que desse dinheiro. Nos primeiros anos da Faculdade lembro-me de discutir com colegas como a geração anterior possuia a «superioridade moral» de ter lutado pela democracia, por grandes causas, deixando para nós apenas causas que nos pareciam medíocres.
    Agora, ao falar com pessoas de gerações mais novas, descubro que a minha geração ainda era utópica, pois acreditava que conseguia arranjar emprego e ter uma boa vida. Ser um jovem cínico agora já não é ser «yuppie», mas acreditar que, faça-se o que se fizer, nunca se arranjará um emprego que valha a pena nem se terá direito a reforma.
    Há muita gente nova de valor que não é reconhecida e muito velho instalado e arrogante que, no fundo, deve o que é apenas à «lotaria geracional».
    O Borges tem uma frase, que não sei de cor, a abrir um conto, em que afirma que determinada personagem nasceu em tempos difíceis, como todos os homens. Eis o ponto. Não há gerações com «superioridade moral», mas há gerações vencidas e convencidas.

  8. jpt diz:

    Discordo do post/artigo em vários pontos.

    1) duvido que o recente aumento das publicações científicas se deva a jovens, pertencentes ou não à geração “rasca”. As carreiras universitarias, quer na docência que na investigação, estão há muito saturadas e não têm entrado muitos docentes/investigadores nas universidades ou noutros centros de investigação. Eu lembro que, para que o autor dessas publicações seja “considerado português”, tem que apresentar um endereço profissional em Portugal. Alunos de doutoramento no estrangeiro, por exemplo, não contam.

    2) O que se tem passado no ensino universitário português nos últimos anos é uma gradual perda de qualidade dos alunos à entrada. A democratização do ensino resultou, não apenas numa igualdade de oportunidades para todos à entrada, o que é desejável, mas principalmente na entrada de grandes quantidades de alunos com qualificações medriocres. Isto é massificação a qualquer preço, e não democratização. Sou prof. universtario, e todos os dias me aparecem alunos que não sabem sequer estudar (nunca precisaram, nunca lhes foi exigido), que nunca compraram ou leram um livro (de estudo). Um nem sabia que os livros tinham índice, onde se pode procurar um assunto. Os “Rouseaulianos” do costume vão dizer que a culpa é de todos menos dos alunos. Talvez, mas o corpo docente é practicamente o mesmo desde há muito (não saiu ninguém e não morreram muitos) e as estruturas universitárias melhoraram muito.

    3) Tudo vai piorar com o Acordo de Bolonha. Com as universidade transformadas em politecnicos, ou liceus avançados (é no liceu que se deve ensinar os alunos a estudar ou a procurar materias num livro), com um ensino secundário facilitista e incompetente (já não se ensinam demonstrações de equações matemáticas, por exemplo, nos livros aparece a enigmática frase “pode ser demonstrado”; rejeita-se a memorização como sendo atrasada – um professor criticava recentemente um exame, na televisão, porque implicava o conhecimento duma fórmula e – horror! – apelava à memorização), os melhores alunos procurarão as melhores universidades no estrangeiro para fazer os mestrados (segundo ciclo). Dizem os cínicos que é este o verdadeiro objectivo de Bolonha.

    4) Sou de esquerda. Mas isso não implica que não ache que a universidade, ou pelo menos algumas universidades, não possam ser lugares de excelência. É por isso que se chama a esse ensino “Superior”. Só assim, com quadros mais qualificados, conseguiremos competir. A universidade não pode ser, como sugeriu Daniel Oliveira num “Eixo do Mal”, apenas um lugar de promoção social, onde o “canudo” levará a que “os filhos desses licenciados tenham mais oportunidades no futuro” (citado de cor).

    5) Como escreveu recentemente um amigo meu:

    “Se quiseres uma analogia com o atletismo, a democratização está nos blocos de partida, a meritocracia na linha de chegada. A diferença pode parecer subtil, mas é fundamental:

    Os disparates acontecem quando as ortodoxias entram em jogo: o conservadorismo de esquerda põe a democratização (equalização) na linha de chegada para justificar a de partida; o conservadorismo de direita põe a meritocracia (diferenciação) na linha de partida para justificar a de chegada.

    No primeiro caso favoreces os medíocres; no segundo prejudicas os competentes. São erros semelhantes.”

    JPTelo

  9. Sérgio diz:

    O texto é, uma vez mais, muito bem conseguido. Fiquei, apenas, com uma dúvida: Não seria mais seguro ver onde é que os novos investigadores frequentaram o ensino secundário? É que se corre o risco de vir o Espada mais a Mónica e o resto da procissão a garantir que foi nos colégios onde põem os filhos ou, então, nos próprios «States», terra de gente livre…
    De resto, achei sublime a ideia dos «convencidos da vida».

  10. Muito bom o comentário do JPTelo.
    Já agora, falando no Daniel Oliveira (e porque isso é referido no artigo): Rui, o Miguel Sousa Tavares lança para o ar sem qualquer fundamento uma insinuação sobre um “bloguista bloquista” que tinha o hábito de escrever coisas anónimas. É evidente que ele NÃO se refere ao Daniel Oliveira, que nunca escreveu coisas anónimas.
    Mais para o fim da semana pode ser que falemos.

  11. rr diz:

    Mas o texto é menos sobre o ensino cientifico e mais sobre a agenda mediática e comentarista.Quanto a mim o texto é sobre a invisibilidade do mérito e a exposição da mediocridade com vista a servir interesses mesquinhos das vedetas mediáticas, ou não será?…

  12. Bang Bang diz:

    Brilhante. Definitivamente Rui Tavares é o melhor colonista português.

  13. Rui Tavares, confesso desde já que o termo geração rasca do VJS sempre me pareceu muito limitado. Na altura escrevi até um texto em que dizia que essa classificação me parecia mais de uma geração à rasca (jogo que um dos primeiros comentaristas, renato c. recupera). O teu texto, que tem para mim o mérito de um conceito “os convencidos da vida” que tem alguma produtividade retórica, bem como ao sublinhar de uma crescente valorização científica, e ainda ao facto de abordares esta forma enviesada como, por causa do tal “enquadramento”, depreciamos aquilo que não pode ser integrado numa determinada corrente de produção de sentido, tem para mim uns quantos engulhos que diminuem o seu valor ( e és um dos colunistas que mais aprecio):

    – O primeiro deles é o de te deixares aprisionar à grelha de leitura do enquadramento geracional e não dares o devido relevo ao facto de estarmos diante de um determinado contexto de mudança que ultrapassa de longe esse tipo de contextualização (geracional): parece-me que Portugal mudou substancialmente desde o pós vinte e cinco de Abril e que por mais fragmentação discursiva que se possa fazer, em torno dos vários tecidos geracionais implicados nestes últimos trinta anos da nossa história comum, essa mudança tem uma caracterização da natureza politica (a consolidação da democracia politica e a participação numa Europa em extensão), cultural (muitos e vários movimentos de natureza cultural que assolaram a pedagogia, as artes, a produção cultural), científica ( a adopção de parâmetros comuns entre Instituições de Ensino do Quadro Europeu, facilitando o intercâmbio e a circulação de capital científico) e económica ( a adopção de principios e orientações comuns no Espaço Europeu) que só pode ser entendida como um todo; ou seja, é possivel, como em tudo, a análise geracional mas não creio que ela seja tão produtiva (e já agora tão generosa) como a de uma implicação geracional alargada. Numa mudança tão profunda que pode ser vista não só do plano cientifico e educacional mas também no plano artístico ( e aí se calhar é mais visivel este verdadeiro caldo multigeracional), o do económico e até do politico (temos um presidente da Comissão Europeia, um Alto comissário para os refugiados, etc), a grelha geracional é muito pobre (e mal agradecida), quanto a mim.

    – O segundo é a questão da blogosfera. Não é totalmente descabida mas é de tal modo forçada que a discussão sobre a blogosfera, cujos pressupostos tu lanças de forma desafiante como um meio que dá luta -e embora me reveja nas tuas ideias – nem serve o texto, nem o contexto e muito menos o pretexto. Espero que voltes a discutir este assunto autonomamente. Como te disse quando te falei do Metablogue, hoje defunto, sou um apaixonado pela relação que criamos na blogosfera.

    – sobre a magna questão da educação (e não a ver com o que referiste, mais com alguns comentários): eu creio que por vezes somos muito levianos na forma como aspiramos a que a tarefa educativa corresponda com eficácia a uma determinada missão. quem assim o faz vacila entre o seu desejo que a educação seja uma reverberação nostálgica de uma produtividade perdida e a aceitação de que ela cumpra um determinado dispositivo ideológico (re)produtor de sentido que provavelmente já não faz muito sentido. E digo isto, porque como li nos comentários, e todos reconhecemos neles muitos dos termos do debate que ocorre, vejo muito menos empenhamento em discutir qual deve ser a missão concreta que queremos pedir à tarefa educativa e muito mais solicitude em atirar para o ar um conjunto de competências que julgamos serem condições de sempre da actividade educactiva. E talvez não sejam. Ou talvez não sejam dessa forma ou com essa grelha de valor. A competência da leitura e da escrita por exemplo não são autónomas da correlação com os dispositivos tecnológicos que as pessoas utilizam para ler e escrever. A competência da pesquisa e da investigação não são as mesmas do que eram antes do dispositivo tecnológico impor formas próprias de conhecimento e reconhecimento; a interactividade é uma competência nova. Eu não quero com isto dizer que a educação deve ser isto ou aquilo. Apenas chamar a atenção de que ela é um espaço de reprodução cultural de uma determinada comunidade e sociedade e que vivemos numa sociedade onde o ajuste daquilo que queremos ou não ver transmitido, reproduzido, se faz no próprio momento da ensinança. Ou seja, a educação morreu. Há algo de novo que nasce e esse algo de novo não só não sabemos o que é como temos fundados receios de que os utensílios e os dispositivos científicos e culturais de que dispomos para os conhecer, estão desactualizados. Face a este drama podemos fazer várias coisas: assumi-lo ou continuar a negá-lo.

  14. Nao basta escrever bem, e’ preciso saber do que se fala. Como o Santiago refere, a premissa na qual assenta o artigo e o projecta esta’ completamente errada. espero que na proxima o Rui se lembre de falar com um amigo cientista antes de dizer tal disparate de novo.

    abraco
    ba

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  16. Nuno diz:

    Em primeiro lugar parabéns ao Rui. Este é um excelente artigo. Em segundo, considero que a premissa deste artigo (os autores dos artigos ciêntificos estão na casa dos 30) não só é credível como é mesmo muito muito provável.

    Eu de certa forma divirto-me com os argumentos que são usados para refutar o artigo. O meu comentario preferido é este (ver acima):

    “Eu lembro que, para que o autor dessas publicações seja “considerado português”, tem que apresentar um endereço profissional em Portugal. Alunos de doutoramento no estrangeiro, por exemplo, não contam. ”

    Pronto o Cristiano Ronaldo, o Figo e até o (ilegítimo português) Deco não são portugueses. Pois o primeiro vive em Manchester, o segundo em Milão e o terceiro em Barcelona. Jogam na selecção porque só porque nos convem. Felizmente, há quem pense (de forma inteligente) que com eles a selecção é mais forte.

    Eu estou quase a acabar um doutoramento em Inglaterra (amanhã é o dia da minha defesa) que é financiado pela FCT e sou português. Mas há alguém neste mundo que me considere inglês ou de outra nacionalidade qualquer? Não sou português? Então sou o quê?

  17. Rui,

    Está algo formal (“Tavares” para aqui, “Tavares” para ali) porque não te conhecem no Conta Natura e repito alguns dos comentários, mas aqui fica:

    Os erros de Tavares

    O mundo da crónica lusitana pode ser visto como um ecossistema, em que os cronistas são espécies que competem entre si por esse recurso limitado que é a actualidade. O paralelo com a natureza acaba aqui. O mundo da crónica nacional rege-se por um darwinismo soft em que o arreganhar de dentes poucas vezes vai além do combate ritualizado. Nenhum cronista é seriamente penalizado – isto é, despedido – por aquilo que escreve, a menos que pratique um plágio ou infracção de calibre semelhante. A própria natureza da crónica, que segundo os grandes especialistas é um exercício onde se deve sacrificar o rigor em favor da fruição, protege o autor. Conquistado o nicho, um cronista rapidamente se sedentariza e fica anos a fio praticando o mesmo exercício. A isto alguns chamam consistência de estilo.
    É pois entre os cronistas mais novos e em formação que melhor nos apercebemos das suaves pressões deste meio. Rui Tavares, por exemplo, tem sido um caso curioso. O Tavares do Barnabé foi provavelmente o blogger que mais me impressionou nos anos quentes da blogosfera. Prosador feliz, acutilante, culto e com ouvido para a expressão bem burilada, fazia parte da dúzia que merecia ter passado aos jornais. O que com ele aconteceu.
    Tavares precisou então de encontrar o seu nicho. Escrever textos de esquerda pura, à Daniel Oliveira, não era solução porque já existia Daniel Oliveira a escrever textos à Daniel Oliveira. Mas a epifania chegou cedo a Tavares. Refiro-me à paixão não correspondida de António Guterres, à eterna fonte de discórdia, de agitação social e – chegamos ao que interessa – ao substrato de eleição para a prática de um decadentismo lusitano em sinergia com o pessimismo antropológico. A Educação, pois claro. Se Pereira Coutinho, Pacheco Pereira, António Barreto, Graça Moura, Filomena Mónica e Pulido Valente cascam no ensino e se horrorizam com a degenerescência cultural das novas gerações, a Tavares só lhe restava estender-lhes a mão. O nosso homem migrou então para fora de um nicho ecológico saturado, conquistando um espaço único na imprensa: o do optimismo metódico de tipo temático.
    Ao contrário de um optimista metódico de raiz sazonal, como Luís Delgado, e de um catastrofista metódico de tipo temático, como César das Neves, o optimismo de Tavares é à partida mais credível e o simples facto de fazer o contraponto ao zurzir de tantos outros enriquece o debate. Sucede que “…quando temos uma grelha de leitura muito vincada sobre um tema ela tende a anular os factos que a contradizem, mesmo que eles estejam debaixo do nosso nariz.” Tavares não discordará deste enunciado, visto que foi exactamente assim que o escreveu.
    A tese de Tavares é a de que a tal geração rasca (gente hoje nos trinta e poucos) singrou e que tal facto tem sido sonegado pois não está de acordo com a ideia de um ensino decadente. A prova que Tavares apresenta é o elevado número de artigos na Science e Nature que são assinados por portugueses, compatriotas e que, pelas suas contas, estão em torno dos 30 anos.

    Nesta simples e curta tese, Tavares consegue acumular 4 erros. O primeiro é um erro de leitura dos dados. Escreve Tavares : “a quase totalidade dos nomes de portugueses não aparece (ainda) como primeiro autor dos textos, a conclusão natural é a de que se tratam de investigadores “júnior”, ou seja, em torno dos 30 anos.” Como qualquer cientista sabe, o que em regra sucede é o contrário. O primeiro autor do artigo tende a ser mais novo do que o último. Se Tavares extrapolou a faixa etária com base neste erro, podemos estar a falar de outra geração que não a geração rasca. Admitamos que ele ainda não perdeu a razão. Segundo erro: artigos na Science e Nature em que os portugueses não assinam como primeiro ou último autor, com o devido respeito, são pouco relevantes. Salvo raras excepções (e excluindo a Física experimental), a força motriz – intelectual, braçal, política e de outros tipos – é determinada pela dupla primeiro-último autor. Dito isto, aceite-se que o número de portugueses jovens com primeiras autorias na Science e Nature tem vindo a aumentar, o que não me surpreenderia. O que nos diz isso sobre a qualidade do ensino? Muito pouco (chegamos ao terceiro erro de Tavares).
    Dei com o artigo de Tavares a ler Paulo C. Rangel, no Público de hoje. Rangel limita-se a recordar uma ideia de base em todas as discussões: o ensino não se avalia pela excelência das suas elites mas sim pela qualidade média da população de estudantes que forma. As elites fazem-se sempre, por muito mau que seja o ensino. Persistir num deslumbramento provinciano com os feitos de um punhado de lusitanos para efeitos de originalidade argumentativa não me parece uma boa solução.
    Perdoem insistir no mesmo, mas a massificação do ensino – que é de salutar – criou graves assimetrias. Um dos desafios é tornar o sucesso escolar menos dependente do agregado familiar. Só um exemplo: a minha turma do programa de doutoramento em Portugal era maioritariamente das classes média, média-alta. Será que devemos aceitar isto com uma inevitabilidade? Será que perante os feitos das elites, o melhor é esquecer os resultados menos que modestos dos adolescentes portugueses em testes de literacia, matemática e ciência* (comparados não com um Portugal passado e mítico mas com outros países da OCDE, que é o clube dos países ricos)? Podia continuar com outros exemplos, uns mais a montante, outros mais a jusante.
    No caso concreto que Tavares cita, pergunto—me ainda se o papel de Portugal esteve mais na formação gradual dos seus estudantes ou no financiamento da ida destes para fora, em muitos casos dando-lhes à cabeça total liberdade de escolha e uma bolsa, assim facilitando a sua entrada nos grandes laboratórios, desejosos de ter mão-de-obra gratuita. Para que se entenda, concordo com esta política, beneficiei dela e globalmente os resultados estão à vista, mas falamos de uma correcção em fim de percurso que cria uma ilusão.
    Há um último erro no texto de Tavares, o pai de todos eles. Posso acusar um efeito de paralaxe, mas creio que nunca antes foi dada tanta atenção aos portugueses que publicam na Science e Nature. Basta acompanhar as secções de ciência dos jornais ou ir ao site da TSF e contar o número de colegas com entrevistas disponíveis online. Tudo isto é muito positivo. Divulgar estas histórias de sucesso é a melhor maneira de atrair novos talentos e de despertar o interesse pela ciência. Se Tavares ainda assim descobre uma conspiração para ocultar os feitos da geração rasca, pelo simples facto de Pulido Valente nessa semana ter escolhido, sei lá, atacar os funcionários públicos e Barreto, sei lá, cascar em Guterres, e Coutinho, sei lá, desprezar-nos com Waugh, e Filomena Mónica, sei lá, divulgar as cores das cuecas de fulano, enfim, talvez não fosse má ideia se Tavares começasse a escrever menos para eles e mais para o público. Já se percebeu que quer marcar o seu território, mas não vale a pena escavá-lo… Bem, é verdade que sobram duas explicações: ou vivemos em realidades paralelas ou a grelha vincada de Tavares é diferente da minha.

    Vasco

  18. Parabéns pelo texto. Há expressões assassinas que se colam à pele de uma geração como se esta tivesse lepra.

    O que foi um achado de largo sucesso converteu-se numa calúnia de longa duração.

    O desmentido formal está no post.

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