João Paulo Cotrim: Cidades entrevadas

Lisboa está de cama e o Porto teve um acidente: está de coma. Rui Rio, o que gosta de carros, mudou as placas com os nomes das ruas da Invicta. Foi o seu maior gesto, encher as esquinas com placas verdes: Rua da Alegria anuncia-se a cada cem metros desde cá de baixo até lá ao alto. De vistas largas, Rio pouco mais precisou de fazer. Pode até tentar vender um pulmão, que às vezes a cultura respira-se. O Rivoli é só mais um acidente que faz a cidade coxear. A cultura, esse «desporto das classes médias», é praticado pelos privados desde que seja negócio, essa ginástica interclassista. Erro: não é já a cultura que interessa, sendo disciplina cansativa. É de lazer que o povo precisa: uma imensa sardinha, o pimba de abertura fácil, anedotas da treta e por aí fora. Sem isso, garantem fontes seguríssimas e muito próximas, o Rivoli não será viável nem visível. Rio devia montar empresa, quem sabe municipal, para encher de placas todas as ruas do país. Todas, mesmo as que estão por vir. Na mais visionária das atitudes podia repetir «todos os nomes»: Rua Firmeza seria popular no lugar de Teimosia ou Cegueira. Substituiria com propriedade as Ruas do Imaginário que poluem outros sítios. Em Lisboa, a confusão é outra. Carmona, o que gosta de motas, olhou para trás e virou estátua de sal. O sangue deixou de bombear: não se compram livros para as bibliotecas há anos, que deixaram de ser centros de cultura para se tornarem cemitérios, o São Jorge é visto como futuro centro de congressos, os orçamentos desapareceram, exposições anunciadas desaparecem do mapa, morrem festivais, fogem funcionários, não se ouve uma palavra acerca de orientações globais, uma explicação, só se fala de cinema… mas em inglês, que é melhor para a imagem. Cinema? É um teatro triste gorduroso a vida política de uma coligação partida, inerte, desesperada. A oposição não opõe grande coisa, não faz as perguntas certas, não aponta o nepotismo, a corrupção. A Baixa agacha-se, os interesses imobiliários aguardam o momento certo: agora mesmo. Estava na altura de uma outra cidade surgir, por exemplo à noite, uma cidade de costas voltadas para o seu (des)governo. Não haverá algures espontaneidade ou uma ideia que nos livre deste pesado nevoeiro?

JOÃO PAULO COTRIM

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a João Paulo Cotrim: Cidades entrevadas

  1. Roteia diz:

    Quando penso na vacuidade – para alguns lucrativa, diga-se -que se abateu sobre as duas grandes cidades do país, penso simultâneamente que tal situação advém da generalizada ausência de valores claros, incluindo necessáriamente o valor cultural e o valor civilizacional, na sociedade portuguesa. E interrogo-me sobre as responsabilidades que produziram esta desgraça numa era em que a mediatização pode quase tudo.
    O texto de João Paulo Cotrim centra-se naturalmente nas figuras dos presidentes de câmara. Mas o que eu lhe pergunto, visto que os ditos têm a legitimidade democrática, é se não deveríamos ir mais longe, ir além da caricatura que Rio e Carmona representam? Se não deveríamos enquanto país e supostamente enquanto elites questionar o que está por detrás disto tudo?

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