Filipe Moura:Lula de novo com a força do povo

A vitória esmagadora de Lula na segunda volta das presidenciais brasileiras é verdadeiramente notável. Conseguiu a proeza de “roubar” votos ao seu adversário directo, que teve menos votos na segunda volta do que na primeira! Se na primeira volta foi penalizado pela atitude sobranceira de fugir aos debates, a partir de então finalmente entrou em campanha e não deu a mínima hipótese ao cinzento e beato Alckmin. É inegável o mérito do presidente-operário, mérito tanto mais notável se considerarmos as condições em que decorreu a campanha e a posição da comunicação social.

Com efeito, desde que surgiram os primeiros sinais do “mensalão” começou uma campanha inédita contra um presidente que, digam o que disserem, nunca foi directamente implicado nos escândalos que foram aparecendo. O escândalo mais recente, o dossiê contra José Serra, é um bom exemplo: Lula não tinha nada a beneficiar com ele. O seu partido, sim, numa eleição estadual. Os membros da cúpula do PT não conseguiram distinguir-se dos restantes políticos corruptos brasileiros que, infelizmente, estão em todos os partidos. É o modo como o Brasil funciona: como afirmaram Wagner Tiso e Paulo Betti, para fazer política a sério tem de se jogar sujo, mesmo se com as melhores intenções. Se houve domínio em que o Brasil não melhorou com Lula foi nos índices de corrupção. Mas já era assim, e continuaria a ser, com os adversários de Lula. E com Lula aumentou substancialmente o combate à corrupção. E o país melhorou em muitos outros domínios, tornando-se menos desigual e mais justo.

Não foi o “mensalão” que deu origem à campanha contra Lula na comunicação social. Apenas a ampliou, mas esta já era bem patente na “Veja” ou na “Folha de São Paulo”. E também na comunicação social estrangeira. Recordo-me do episódio que tanto deu que falar da acusação do “The New York Times” de que Lula bebia demais (sob que parâmetros?), e a repercussão que isso teve em Portugal. Refiro-me a quando Francisco José Viegas, nos intervalos entre as receitas triviais e a crítica (ironicamente) a cervejas, a maior parte das vezes de que só ele ouvira falar, nos presenteou nas páginas da então “Grande Reportagem” com uma recolha nada selectiva de charges dedicadas a Lula e aos seu suposto consumo alcoólico. Só que o que no Brasil é um saudável exercício de crítica, quando publicado noutro país pode ser uma ofensa a um Chefe de Estado. Uma coisa seria publicar uma charge a título de exemplo; a outra foi ter publicado uma recolha exaustiva dessas charges. Uma outra coisa ainda seria ter publicado essas charges num blogue pessoal como a Origem das Espécies; outra completamente diferente foi publicá-las nas páginas da “Grande Reportagem” como ilustração de uma notícia sobre a polémica com o “The New York Times”. Mas para dizer mal de Lula, como se vê, vale tudo: confundir boato ou zombaria com notícia, confundir notícia com opinião…Conforme afirmou Chico Buarque numa entrevista à “Folha de São Paulo”, « o preconceito de classe contra o Lula continua existindo –e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: “Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?”. Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! –até assassino eu já ouvi. (…) Como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. “Agora sai já daí, vagabundo!”. É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. “Agora volta pra senzala!”.»
O notável é que Lula sobrevive a isso tudo. Resiste a todos os ataques. Se não foi eleito à primeira volta, foi por erros próprios e do seu partido, e não propriamente por causa dos muitos ataques sofridos. O mais curioso é que a certa altura parecia que os ataques eram contraproducentes, pois só o fortaleciam: quanto mais Lula era atacado, mais subia nas sondagens e na taxa de aprovação. O povo via que se tratava de uma campanha, e identificava-se com Lula: era um dos seus na Presidência. O carisma e a genuinidade de Lula garantiam o resto. Há outros exemplos de políticos assim, que parecem mais fortes que os fazedores de opinião. Invencíveis eles não serão, mas será que poderão ser vencidos através da tradicional influência dos comentadores políticos? Pessoalmente agrada-me ver que é possível um político ganhar eleições livres contra a corrente mediática, tendo a maioria da comunicação social vista como “mais influente” contra si. Lula deu esse exemplo e mostrou que Diogo Mainardi ou Arnaldo Jabor não mandam no Brasil. A sua reeleição, como bem diz o seu slogan, demonstra a força do povo.

FILIPE MOURA

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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4 respostas a Filipe Moura:Lula de novo com a força do povo

  1. Daniel Marques diz:

    Ora aqui está um post reciclável. É trocar Lula por Valentim, Isaltino e Fátima e poderá ser utilizado na próxima campanha das locais. Pelos próprios.

  2. “O povo via que se tratava de uma campanha, e identificava-se com Lula: era um dos seus na Presidência.”

    Parece que o ‘preconceito de classe’ dá para os dois lados.
    A substância do argumento é que esse preconceito quando parte dos ‘fazedores de opinião’, é malévolo; se emana do ‘povo’, será puro.

    Já não via opinar assim há muitas leituras atrás.

  3. Olá Daniel. Desde o BdE que não te via.
    Não troquemos as coisas: há um preconceito de classe contra o Lula. E o que eu pergunto é: desde quando há um preconceito de classe contra a Fátima Felgueiras ou o Isaltino ou o Valentim? Desde quando eles são ofendidos pessoalmente nas páginas da “Veja” ou da “Grande Reportagem”?

  4. Valentim mereceu em 1999 peça de agravo completa na revista do Expresso. Entre outros mimos, foi acusado de gastar nas meninas o dinheiro que a sua futura mulher lhe enviava para Lisboa.

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