Brevíssima meditação sobre a escatologia do poder e dos media

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A secção mais esclarecedora da imprensa portuguesa encontra-se na Pública. Chama-se “O Lixo dos Famosos” e consiste em mostrar , para deleite dos leitores, o conteúdo do lixo de uma pessoa “conhecida”. Embora quase toda a imprensa se tenha transformado num revelador de intimidades e excreções, é natural que tenha sido o diário de Belmiro o primeiro a destapar a tampa e a ir directamente ao lixo, em si. O hábito faz o público, e os leitores desse diário já estão habituados a esse tipo de eflúvios: lêem a sua secção editorial e têm acesso ao telúrico universo mental do director. Enquanto a imprensa sensacionalista oficial se concentra na roupa interior e no luxo dos ricos, o “jornal de referência” inova e com um toque de José Manuel Fernandes transforma, num passe de mágica, o “luxo” em “lixo” e coloca a populaça ignara a prestar vassalagem aos despojos dos poderosos. Estamos perante o último degrau do domínio ideológico. Os cientistas sociais criaram o conceito de empowerment para falar de práticas que concedem mais poder a determinados grupos e populações, podemos dizer que a acção do Público tem o efeito contrário: é um completo ‘enlixerment’ (num inglês do Casaquistão) dos leitores: a ideia que os compradores de um jornal devem adorar os excrementos dos ricos, para além de determinadas taras sexuais entre adultos consentâneos, transforma-os literalmente em gente abaixo da merda dos ditos.
Um dos aspectos mais geniais neste processo é que o sistema tornou rentável esta abjecção: as revistas e os jornais que vendem a vida maravilhosa dos muito ricos, do casamento até ao caixote de lixo, têm imensos pobres a comprar. Estamos perante uma submissão muito lucrativa. Não só exploram, não só criam um sistema económico que atira 80% da população do mundo para a miséria, como ainda lhes vendem a vida fantástica dos ricos, em fascículos.
O lugar dos jornalistas neste processo é um dos maiores achados: antigamente, pedia-se aos profissionais da comunicação social que noticiassem aquilo que de importante aconteceu no mundo; hoje pede-se que escrevam, gravem, filmem aquilo que vai “vender” e que o público quer, supostamente, conhecer. Num dos grupos de media em que trabalhei, o proprietário explicou-me que ‘a maioria das pessoas tem vidas horríveis e que não querem ver a sua situação retratada ou denunciada, o que as pessoas querem é sonhar’. Para isso devemos mostrar-lhes os ricos e famosos. Por um passe de mágica entramos no eugenismo jornalístico, em grande parte das revistas portuguesas, ditas de informação, está proibido, pelas direcções editoriais, aparecerem “pobres, velhos, negros e feios”. Toda a gente sabe que não vendem. Há, obviamente, excepções: uma negra voluptuosa e famosa pode ter fotografia e um multimilionário parecido com uma abóbora tem de ser publicado. Mas são excepções que confirmam o espírito da regra.
Nem o mais horrível dos totalitarismos conseguiu fazer isso às suas vítimas, por muito que tentasse, duvido que Hitler conseguisse impingir aos judeus que iam para os campos de concentração as crónicas sentimentais dos chefes das SS.
Digamos que para quem vê, chegámos a um momento profundamente esclarecedor: no fundo, tanto do ponto de vista do conteúdo, como do ponto de vista da propriedade a maioria da nossa comunicação social não passa de “lixo dos ricos”.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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