Praça de Londres

Autor: Carlos Trincão

É um princípio da tarde com o mesmo tom de muitos outros. Todos caminham com as suas pressas. Só com as suas pressas.
As atenções, todavia, andam a velocidade diferente, o que faz com que, mesmo com pressa, todos os olhos captem o frenesim que, ao fundo, parece gerar-se. Passo a passo, a pressa arrefece: um grupo de ciganos é multado por venda ambulante ilícita, a julgar pelos enormes fardos de roupa espalhados pelo chão e pelo vaivém frenético de quem não quer ser apanhado com a boca na botija.
São as mulheres que tentam dar a volta aos guardas, muito embora a convicção seja mínima e as notas comecem a aparecer, não vão as autoridades pensar que os infractores se recusam a pagar e as consequências alterem aquele insignificante bocadinho que separa a prisão da liberdade.

            Os homens optam por atitudes mais passivas, afastando-se prudentemente, deixando os protestos para as companheiras, passeando em redor com a mais aparente das calmas, esfumaçando, olhando de soslaio, pensando imprecações, parecendo assobiar de mãos nos bolsos. Quem sabe se preparando navalhas…

Os passantes deixam de passar com tanta pressa, efectivamente: olham, atrasam o passo, abrem o ouvido, rodam a cabeça. Se não parecesse mal, plantavam-se ao chão.

Vislumbram-se olhares mais brilhantes de gozo. Cigano é proscrito, incómodo. As autoridades, desta vez, gozam da preferência do povo.
Os privilegiados da fila para a caixa multibanco ali próxima assistem a tudo, resguardados pelo acaso de uma presença, assim pré-desculpados pela curiosidade plenamente satisfeita, ávidos de desenvolvimentos menos cordatos, ensaiando também assobios de mãos nos bolsos como se não dessem por nada.
Dois casais de nómadas exibem, orgulhosa, mas ainda que recatadamente, os rebentos ainda frescos do seu amor: dois meses, três… não mais. À cautela, não se exaltem os ânimos mais do que o devido em ocasiões como estas ou menos do que o suficiente para que o orgulho não fique ferido, um pai baboso traz o cestinho para mais perto da fila; o outro segue-lhe o exemplo.

Duas damas não resistem à inocência e fragilidade daquelas vidas. Arriscam uma inclinação do tronco para verem melhor. Redistribuem o corpo pelos saltos altos garantindo o equilíbrio que ameaçara falhar, evitando assim escândalos desnecessários perante seres inferiores. Nem se lembram de consertar o cabelo; tão-pouco dão pelas carteiras que se lhes descaem.

Sorriem-se. Um passo em frente. Trocam olhares.

            – Então diga lá se este não é o mais bonito! – sussurra o pai, num misto de interrogação, orgulho, certeza e provocação. – Venha cá ver! – e estende os braços.

            As damas miram-se, surpreendidas com o descaramento. Mas vão. E quebra-se o gelo e mexem, e fazem festas, e rendem-se, e enrugam o nariz, e misturam recordações e dizem bilú-bilú-bilú…

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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