Evitável

O artigo publicado hoje na revista The Lancet, Sexual and reproductive health: a matter of life and death, é de leitura obrigatória. Traduzi o sumário – está no final do post -, mas todos os que se interessarem por este assunto podem ir ao site da publicação e ter acesso ao artigo na íntegra e gratuitamente. Basta registarem-se.
Este estudo põe o dedo na ferida: tem havido uma interferência altamente lesiva da política e da religião na saúde pública, sobretudo na área da saúde sexual e reprodutiva. Recomendações contra o uso do preservativo vindas do Vaticano e que influenciam sobretudo os países mais pobres, ou políticas conservadoras que bloqueiam os serviços de saúde sexual e reprodutiva têm consequências dramáticas para as mulheres de todos o mundo.
Sobre o aborto, o estudo publicado na Lancet indica que, nos países onde o acesso à interrupção voluntária da gravidez é restrito, o aborto “de vão de escada” é responsável por 30% das mortes maternas. Leis que matam 68 000 mulheres por ano.

A estimativa do número de abortos clandestinos e perigosos feitos anualmente está representada na imagem seguinte – vermelho, laranja e rosa são as zonas de maior incidência.

aborto.gifE a Lancet afirma, peremptoriamente, que esses obstáculos legais forçam as mulheres a recorrer ao aborto sem condições de segurança para a sua saúde física e psíquica. Para além de que há evidência empírica, relativamente às adolescentes, quanto à relação da gravidez adolescente e aborto inseguro com a violência e coacção sexuais.
Por fim, de todas as mortes relacionadas com a saúde sexual e reprodutiva, as que resultam de interrupção voluntária da gravidez são as que, mais provavelmente, não apenas são subestimadas como são, declara a Lancet, as que mais podem ser evitadas.

Tradução – pobrezinha – do sumário:

Apesar do apelo ao acesso universal à saúde reprodutiva na 4ª Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento no Cairo, em 1994, a saúde sexual e reprodutiva foi omitida dos Objectivos do Milénio e continua a ser negligenciada. O sexo desprotegido continua a ser o segundo maior factor de risco para a incapacidade e morte nos países mais pobres do mundo e o nono maior factor nos países desenvolvidos.

Intervenções eficientes e de baixo-custo estão disponíveis para prevenir gravidezes indesejadas, disponibilizar sexo seguro, apoiar as mulheres durante a gravidez e no parto, e prevenir e tratar infecções sexualmente transmissíveis. Contudo, todos os anos, mais de 120 milhões de casais não têm resposta às suas necessidades de contracepção, 80 milhões de mulheres têm gravidezes indesejadas (45 milhões das quais terminam em aborto), mais de meio milhão de mulheres morrem de complicações associadas à gravidez, ao parto e ao período pós parto, e 340 milhões de pessoas adoecem com gonorreia, sífilis, clamidíase e tricomoníase.

As doenças sexualmente transmissíveis afectam sobretudo mulheres e adolescentes. As mulheres estão destituídas de poder e influência em grande parte do mundo desenvolvido e as adolescentes, provavelmente, estão destituídas de poder e influência em todo o mundo. Os serviços de saúde sexual e reprodutiva são inexistentes ou de baixa qualidade e são sub-utilizados em muitos países, já que a discussão em torno de temas como as relações sexuais e a sexualidade deixa as pessoas desconfortáveis. A crescente influência das forças políticas conservadoras, religiosas e culturais em todo o mundo ameaça minar os progressos realizados desde 1994, e talvez seja o melhor exemplo da intrusão prejudicial da política na saúde pública.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , . Bookmark the permalink.