A arrogância é má conselheira

Vida sentimental à parte, eu tenho a profunda convicção de que o Eng.º Sócrates é absolutamente desprovido de toda e qualquer convicção, excepção feita à de que o poder exercido por si é melhor do que o poder exercido por outrem, pelo facto de o poder exercido por outrem ser exercido por outrem e o poder exercido por si ser exercido por si. Normalmente, em democracia, quem não tem convicções próprias adopta convicções alheias; não faz aquilo que lhe parece ser melhor, faz aquilo que lhe parece que parece aos outros ser melhor; procura, pois, e acima de tudo, agradar, gerindo, como agora se diz, o “ciclo eleitoral”, de modo a agradar mais ou menos o tempo todo, mas a agradar sobretudo quando o país vai a votos. A falta de convicções do Eng.º Sócrates deve por isso ser compensada por uma abundância de técnicas de sedução destinadas a manter viva a chama do amor que o país lhe dedica e a possibilitar que essa pequena chama, le moment venu, incendeie de novo os corações dos eleitores e reconduza o Eng.º Sócrates no poder por mais quatro anos. Ora eu lamento verificar que o Eng.º Sócrates alia à sua falta de convicções um uso infeliz das técnicas em que deveria revelar excelência. O país geme no marasmo económico, sofre o aumento da carga fiscal, assiste à redução e ao encarecimento dos serviços sociais, a moral das famílias está de rastos, as expectativas dos agentes económicos são sombrias, a luz mal se vê ao fundo do túnel, e o PM o que é que faz? Demonstra compaixão, compreensão pelo sofrimento do próximo, solidariedade com os mais desfavorecidos? Nada disso. Já nos tinha habituado ao espectáculo das suas férias de novo rico em cenários exóticos (safaris no Quénia, esqui na Suiça) em tempos de aperto e de contenção, agora deu-nos a contemplar, a propósito das recentes manifestações de descontentamento promovidas pelos sindicatos, o espectáculo da insensibilidade e mesmo da sobranceria (quando é apanhado pela camera de televisão a rir-se para o lado, ao ouvir o secretário-geral do PCP interpelá-lo no parlamento). A oratória do Sr. Jerónimo de Sousa não é de facto um monumento de sofisticação; sucede porém que parece ser entendida pela maior parte dos portugueses, que mais facilmente se revêem nela do que na pose arrogante exibida pelo Eng.º Sócrates no episódio. A arrogância nunca é sinal de força, é prenúncio de cegueira; no contexto político nacional, faz-me sempre lembrar (acho que é o melhor exemplo nos nossos 30 anos de democracia) uns cartazes do PS em 85, logo após o Bloco Central e políticas semelhantes às actuais, que continham a imagem do Dr. Almeida Santos e um dizer parecido com este: “43% para a maioria absoluta” – e que antecederam uma hecatombe eleitoral dos socialistas (com pouco mais de 20% dos votos), o fenómeno PRD (com 17%) e a primeira maioria de Cavaco Silva numas legislativas… Ao contrário do que terá dito, há pouco tempo, o deputado Bernardino Soares, do PCP, as recentes manifestações, grandes que tenham sido (e foram) não “desmentiram” as sondagens que indicam uma continuada popularidade do PM e do seu partido, porque manifestações e sondagens não se desmentem umas às outras: influenciam-se mutuamente e influenciam ambas o processo social e político (em sentido amplo, e no qual se inscrevem os momentos eleitorais). Agora, para mal do Eng.º Sócrates, influenciando-se mutuamente, é muito mais o protesto de rua a influenciar as sondagens do que o contrário a acontecer…

Nota: Este texto foi escrito antes da última sexta-feira e da publicação do último Barómetro político mensal da Marktest no DN desse dia.

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SEXTA | António Figueira
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