Jorge Palinhos: Histórias mesmo curtas

Um dia, Hemingway escreveu uma história em seis palavras: “Vende-se: sapatos de bebé. Nunca usados”, e chamou-lhe a sua melhor história. Isto inspirou a revista Wired a pedir a vários escritores famosos (por razões do público-alvo da revista, maioritariamente ligados à ficção científica) a escreverem contos igualmente curtos, e inspirou-me a mim a traduzir alguns dos que gostei mais, com as únicas restrições de ser fiel ao espírito da história e fazê-lo também em 6 palavras. Razão para isso? Nenhuma além do gosto pessoal. Ou para os mais pensantes entre nós, porque a concisão é o elemento mais desejado da comunicação hoje, e eu estava curioso para ver como funcionaria exemplo tão extremo.
Aqui estão elas:

Computador, nós trouxemos pilhas? Computador? Computador?
– Eileen Gunn

Camisa tirada à pressa. Cabeça não.
– Joss Whedon

do tempo. Inesperadamente, inventara uma máquina
– Alan Moore

Eu desejei-o. Eu tive-o. Que merda.
– Margaret Atwood

O pénis dele rasgou-se; ele engravidou!
– Rudy Rucker

A Internet acordou? Estupi… Unknown error.
– Charles Stross

Com as mãos sangrentas, digo adeus.
– Frank Miller

Dia perdido. Vida perdida. A sobremesa.
– Steven Meretzky

Demasiado caro continuar a ser humano.
– Bruce Sterling

Atrás de ti! Corre antes que
– Rockne S. O’Bannon

Morri. E tive saudades tuas. Beijas-me?
– Neil Gaiman

O Kirby nunca tinha comido unhas.
– Kevin Smith

Para salvar a humanidade, morreu outra vez.
– Ben Bova

“Não acreditava que disparara sobre mim.”
– Howard Chaykin

Coração partido, 45, desejo conhecer mutilado.
– Mark Millar

Tic tac, tic tac, tic tic.
– Neal Stephenson

Epitáfio: Não o devia ter alimentado.
– Brian Herbert

Pensei que tinha razão. Não tinha.
– Graeme Gibson

Por favor, é tudo. Eu juro.
– Orson Scott Card

Isto serve? – perguntou o escritor preguiçoso.
– Ken MacLeod

No começo a Palavra já existia
– Gregory Maguire

Escândalo sexual mediático. Molusco gigante suspeito.
– Margaret Atwood

Leia: “É teu filho.” Luke: “Ups…”
– Steven Meretzky

Estas histórias no original, e outras, estão aqui: http://wired.com/wired/archive/14.11/sixwords.html

Que conclusão tirar? Não serão muitas, mas nota-se que a concisão em extremo tem a necessidade de partir do que o leitor já conhece, e não ir mais além. Isto porque a brevidade, tanto na ficção como no comentário ou na notícia, pressupõe retirar do texto todas as nuances e elementos estranhos que necessitem de explicação adicional. E sem corpos estranhos, o texto torna-se mais do mesmo, a confirmação do que já se conhece. Por isso, quem defende mais brevidade na comunicação, tem de considerar se não está a defender uma informação mais conformista e obediente ao mundo que temos.

P.S. – Quem se interessar por histórias curtas (talvez não tão curtas), tem uma boa fonte aqui: http://www.minguante.com

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares and tagged , , , . Bookmark the permalink.

8 respostas a Jorge Palinhos: Histórias mesmo curtas

  1. Julia diz:

    “I can’t listen to that much Wagner. I start getting the urge to conquer Poland. ”

    woody allen

  2. Jorge diz:

    Não sei se, como tradutor, tenho direito de voto. Mas votaria em Alan Moore (pela inventividade sintáctica), Neal Stephenson (pelo minimalismo) e Ken MacLeod (pelo pós-modernismo).

  3. hmbf diz:

    Voto em Neal Stephenson. Obrigado pela referência à Minguante.

  4. p_a diz:

    eu gosto do conto do Bruce Sterling e do Ken MacLeod!

  5. Julia diz:

    ou

    “A man’s got to know his limitations!”

    Clint Eastwood

  6. Julia diz:

    ou (estou a chorar de rir) 🙂

    “difficulty sympathizing with the absolute.”

    William James (no sumario do livro A Pluralistic Universe)

  7. Muito interessante, amigo, gostei muito. Abração!

  8. sem dúvida, poucas palavras que dizem muitas coisas. fico pensando como pode nos fazer deduzir um mundo de popssibilidades.

Os comentários estão fechados.