Negócios da China

Em 2005, a EDP apresentou o lucro recorde de 2.481 milhões de euros, em 2006, o de 2.997 milhões de euros e os lucros não param de subir. Prevê-se que no próximo ano, mesmo sem aumento de tarifas, atinjam mais de 2.997 milhões de euros. Onde está o propagado défice tarifário? Onde está a responsabilidade do consumidor na, alegada, situação escabrosa da empresa? Os impostos públicos pagaram a rede eléctrica, nós pagamos todos a eletricidade, as barragens, as linhas de alta tensão e tudo o resto. Belo negócio esta privatização em que os aumentos de tarifas e todos os investimentos são pagos pelo erário público e pelos consumidores e que para os privados só ficam os lucros milionários.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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19 respostas a Negócios da China

  1. Julia diz:

    2.481 milhões

    Só?

    A EDP está ser mal gerida.

  2. ezer diz:

    Nacionalize-se,já!

    Chulos

  3. Fernando Subtil diz:

    Vi o programa “prós e contras” sobre esse assunto da EDP.
    Algumas questões ficaram esclarecidas sobre os lucros da empresa, alegando eles que os negócios da EDP não se resumem à energia eléctrica.
    Quanto a isso estamos falados, mas o que não consigo entender é que o povo seja sempre o bombo da festa. Quando há crise (e parece-me que a crise se tornou uma doença crónica) o povo tem de apertar o cinto. Mas todos sabemos que é nos momentos de crise que muitas empresas fazem verdadeiras fortunas.
    Sabemos bem que às empresas também devia caber um papel de solidariedade social para com o povo em geral e que quando há grandes ganhos deveriam, pelo menos, reduzir as suas margens de lucro, ajudando dessa forma o desgraçado povo.
    Mas dizer isto é ser um pouco ingénuo, ou mesmo infantil, pois na verdade os empresários são sempre indivíduos obsessivos, com apetência desmesurada pelo lucro.
    É exactamente isso que acontece, numa outra linha de conduta, com o jogador de casino.
    A psicanálise sabe bem que eles são indivíduos obsessivo-compulsivos.

  4. ABC diz:

    Acho que há aí um erro, o lucro de 2005 foi menos de metade do que o valor indicado.

  5. ABC diz:

    O lucro em 2005 foi de 1.071 milhões de €, tendo contribuido para este bom resultado a perfomance no Brasil e a venda da participação da GALP que a EDP detinha.

    O lucro de 2006 … bem, o ano ainda nem sequer acabou … o que se sabe são os lucros do 1º semestre: 387 milhões de euros

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro ABC,
    Os lucros de 2006 é uma projecção a partir do primeiro trimestre; e os lucros de 2007 uma previsão feita tendo em conta a evolução dos resultados da empresa. Os dados que tenho de 2005 são esses, e não o valor de 1071 milhões. Mas vou ver e amanhã digo-lhe qualquer coisa.

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Meu caro ABC,
    Verifiquei. A EBITDA (Lucro bruto menos as despesas operacionais) de 2005 da EDP foi de 2481, 5 milhões de euros.

    Ebitda é a sigla em inglês para Earnings before interest rates, taxes, depreciation and amortization, que traduzido literalmente para o português significa: “Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização”.

    Os seus 1071 são os resultados líquidos.

  8. ABC diz:

    Ok Nuno, foi você que falou em lucros e não na EBITDA. Esses valores assim não querem dizer nada, não incluem por exemplo a amortização de investimentos, que na EDP são brutais.

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro ABC,
    A EBITDA são lucros, como aliás a sua definição literal afirma. Não são é resultados líquidos. E permitem ver claramente que não há um défice de exploração: o que nega o paleio da necessidade de aumento de preços devido ao défice tarifário. Para além disso, descontando os lucros com as amortizações e impostos, ainda assim a EDP teve, em 2005, mais 1071 milhões de euros de resultados líquidos.
    O problema de fundo é se uma empresa que foi criada com os dinheiros de todos, feita para prestar um serviço social deve ser privatizada. E se sendo, privatizada possa não ter um caderno de encargos social, devido à importância social do bem concreto em que trabalha. Finalmente, se pode tentar aumentar os preços, de modo a ganhar dinheiro “para compensar” os anos em que teve um preço social. Sabendo que nesses anos, eram os impostos de todos nós que pagavam eventuais défices e faziam investimentos vultuosos que nenhum privado quereria fazer.

  10. Julia diz:

    “O problema de fundo é se uma empresa que foi criada com os dinheiros de todos, feita para prestar um serviço social deve ser privatizada.”

    Caro Nuno,
    Concordo com este teu ponto. Todavia, a edp compete no mundo global das commts. As empresar publicas tem tido performances ambiguas neste dominio. A BT e a FT, por exemplo, não estão propriamente a liderar o mercado. (não estou a torcer por um lado ou pelo outro) A grande questão estratégica é, a meu ver, a seguinte: O dinamismo tecnologico não gosta de estar submetido à lógica burocrática ou deliberativa. São temporalidades distintas (technology versus democratic-bureaucratic deliberation or submission to concepts of public interest, that are, in one way or another subject to institutional “processing.”…os cibernautas portugueses que me perdoem a heresia de escrever isto em ingles mas não sabia como escrever isto em portugues). Esta condição estrutural do desenvolvimento tecnologica favorece, evdtmt, a descentralização, ou seja, a privatização (algo que já acontece nos EUA há muito tempo)

    O que aconteceu nos eua foi o seguinte: as empresas das novas tecnologias incorporam um ethos de justiça social nas suas praticas (por exemplo, na apple os trabalhadores desfrutam de excelentes condiçoes, não tem que trabalhar 40 horas por semana, a formação é continua e excelente etc etc) O mesmo acontece na google, na sun micro systems e todas as outras “grandes.” De facto, um esquerdista europeu não teria qq dificuldade em se identificar com os conceitos de justiça vigentes nestas companhias. Poderás dizer: ” não concordo com a privatização de conceitos de justiça que devem ser intrinsecamente sociais-universais etc”. Ok, concordo contigo. Mas esta é, quer se queira quer não, a realidade emergente e tudo indica que, gradualmente, o ethos das novas tecnologias está a se disseminar. É uma problemática mt interessante.
    beijins, julia

  11. Julia diz:

    Ou seja, tudo depende da forma como as normas (conceitos de justiça, p ex.) são universalizadas. (os grass root mvmts tb são mt interessantes)

  12. Luís Lavoura diz:

    Portanto, o Nuno acha que, se o preço do petróleo aumenta, a EDP deve ser obrigada a absorver esse aumento, a diminuir os seus lucros, por forma que os consumidores possam continuar a viver num mundo guterresco no qual o petróleo tem preço constante e no qual não é necessário poupar energia.

    Isto é uma visão absolutamente soviética. Os consumidores vivem arredados do preço real daquilo que consomem, e nada fazem para alterar a sua estrutura de consumos.

    Se o Nuno quer lutar por uma boa causa, lute para que as enormes tarifas da potência instalada sejam diminuídas. Aí é que a EDP come os consumidores à grande e à francesa: as pessoas pagam balúrdios, mês após mês, para terem instalada uma potência que na prática utilizam em apenas poucas horas por ano.

    Agora, diminuir no preço da eletricidade, do kilowatt.hora, isso não. As pessoas têm que aprender a poupar.

  13. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Luís Lavora,
    Os números revelam que a EDP é altamente lucrativa apesar dos aumentos do preço do pretóleo. Repare que o EBITDA já incorpora esse factor de produção: o preço do petróleo não é imposto nem amortização de capital.
    O meu ponto de vista “soviético” só diz que a energia tem implicações económicas e sociais que devem exceder o critério do lucro.
    Por isso, sou contra a privatização da água e da electricidade.

  14. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Cara Júlia,
    É muito interesante a questão que levanta. Eu penso que é possível ter iniciativas económicas muito dinâmicas sem que seja necessário colocar-se sobre a dinâmica do lucro puro e simples. Vejamos o sector mais dinâmico das novas econominas (informática e novas tecnologias): o desenvolvimento da comunidade do software livre e o aparecimento do Linux provaram que é possível construir de uma forma comunitária instrumentos tecnológicos complexos e muito concorrênciais. E também provaram que conseguem ser mais eficientes nesse papel do que, por exemplo a Microsoft.
    Mas obviamente não tenho nada contra à existência de impresas privadas nesse área, desde que não sejam criadas legislações de patentes completamente esdrúxulas que prejudiquem a investigação e que sejam a privatização de património comum (veja-se as tentativas de se pantentear conceitos, o gene humano, plantas medicinais, etc..).
    A minha diferença, em relação à sua opinião, é que eu penso que determinados produtos estratégicos devem estar sobre a alçada do Estado, para garantir o bem público. Estou firmemente convicto, que a água e a electricidade são fundamentais à vida e não podem ser matéria de especulação.

  15. Julia diz:

    Caro Nuno,

    Antes de mais, obrigada pela sua resposta. Concordo, no essencial, com os eu argumento. Sem dúvida, recursos estratégicos devem estar sob a alçada do estado. Mas repare. Existem muitos países onde a distribuição e venda de água e de electricidade (mas não as normas que regem a qualidade da água) são privadas. O interesse publico nestas areas, até hoje, tem sido defendido pelo estado. Penso que um estudo feito recentemente demonstra que a qualidade da água em portugal não é recomendável. Todavia, o “caso” inglês (privatizações dos caminhos de ferro e da distribuição da electricidade) deixa-nos indicações contraditórias: num caso funcionou (o da electricidade) e no outro caso não (critério de “funcionar”: Preços mais acessiveis a um maior numero de pessoas por um produto com mais qualidade). No caso dos caminhos de ferro, foi um perfeito desastre. Caro Nuno, esta coisa do lucro puro e simples é, infelizmente, algo que nos ainda atormenta (não estou a critica-lo mas meramente a constatar a persistencia de uma sensibilidade politico-cultural) pelas seguintes razões: as novas industrias a que me referi (nao posso falar de outras pq nao as conheço) não se regem pelo ideal do lucro puro e simples. São knowledge&creative based value creators (desculpas mais uma vez pelo meu portugues azor-calafónico) E esta é uma das razões para a disseminação real de conceitos igualitários na vida das (hoje) grandes corporaçoes, como a apple, a sun, etc .Estas companhias nasceram e cresceram não com o profit for profits sake motif, mas como processos criativos. Como é que se pode hierarquizar a criatividade? Não se pode. Eles (apple etc) perceberem mt cedo que a deshierarquização era uma condição necessária, mas não suficiente, para a criatividade. Estas, caro Rui, é que são as industrias estratégicas no mundo de hoje. Concordo com o que diz acerca do Linux. Mas, não se esqueça que o linux é um sistema operativo eficiente que nasce num determinado sistema, já constituido!!! Penso que existe espaço para todos. É a grande virtude deste sector: a criatividade como processo infinito permite a expansão continua de possibilidades para “todos.” Qt às patentes, não se preocupe. Não há petente que resista à inovação. eh ehe he eh e h 🙂

    PS: O bem publico pode ser garantido de várias formas. Presumir que o bem publico só pode ser defendido ou preservado pelo estado, apesar de pensar que o estado deve estar sempre presente (de outras formas, NÃO sou uma destas neoliberais vulgarotes, movida por um fervor quase religioso no poder milagroso do mercado). Dou-lhe um exemplo. Durante anos vivi perto de uma grande praia nos EUA. Todos os domingos, a praia era cuidadosamente limpa por estudantes, pescadores, etc. Ajudei-os muitas vezes. A praia era, no sentido mais amplo do termo, NOSSA (ou seja, da comunidade que lá vivia). O nadador salvador era, e é, do estado. eh eh ehe he he he he he 🙂

    There are many ways in the world…

    Beijins, julia

  16. Julia diz:

    Desculpas Nuno. Enganei-me com o seu nome e chamei-lhe Rui. Devia estar a pensar no meu querido primo Rui.

  17. Julia diz:

    Se me permite, atrevo-me a deixar aqui algo que me parece interessante….(porventura alguns pensarão: “Oh não!! Este pragmatismo americanoide, destituido de essencias metafisicas (sociais) etc etc…eh eh eh e…

    http://www.amazon.com/Pragmatism-Philosophical-Classics-William-James/dp/0486282708/sr=1-2/qid=1162231345/ref=sr_1_2/002-9117231-3856818?ie=UTF8&s=books

  18. Julia diz:

    correcção:

    Presumir que o bem publico só pode ser defendido ou preservado pelo estado, apesar de pensar que o estado deve estar sempre presente…É UM ERRO.
    kisses&hugs, julia

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