Falsários, Welles e subversão

“F de Falsário”, de Orson Welles, é um programa político. Welles fala-nos de enganos e promete-nos toda a verdade durante “uma hora” . Não nos esqueçamos que o autor de “Citizan Kane”, um especialista do engano, começou a sua carreira levando milhões de norte-americanos a fugir devido à transmissão da sua versão radiofónica da “Guerra dos Mundos”. Pelo ecrã, vão desfilar as histórias de um falsário húngaro, Elmyr de Hory, do seu biógrafo, Clifford Irving, e de Howard Hughes. O pintor é a prova viva do falhanço do sistema. Encheu os museus de “legítimos” Matisses, Modiglianis e Picassos. O seu sucesso é a afirmação do insucesso dos especialistas. Há uma ordem de pés de barro que sobrevive porque é, supostamente, capaz de dizer aquilo que é bom e que é mau. Pelo caminho, passeia-se a belíssima actriz e co-argumentista do filme, a croata Oja Kodar, seguida por todos os olhares masculinos. Ela é a neta do falsário. Foi amante de Picasso, que lhe ofereceu 22 quadros. Anos depois do tórrido romance, Kodar organiza uma exposição com as obras trocadas por noites de sexo. Picasso vai à mostra e sai furioso: nenhum dos quadros é dele. Faz uma cena à antiga amante que lhe confessa que o avô está a morrer, e que as obras que estão à vista do público são dele. Para chatear ainda mais o célebre pintor, a crítica especializada garante serem estas obras as mais geniais criadas pelo mestre.
Ficamos atónitos com esta história, como é possível não termos sabido? Durante este momento de dúvida, aparece Orson Welles que nos relembra ter prometido “toda a verdade durante uma hora”, olha para o relógio e diz: ‘passou uma hora e quinze minutos, estes quinze minutos são meus’ .
Grande parte da dominação baseia-se na legitimidade que lhes é outorgada por especialistas e aceite pelos dominados. O “hoax” tem a pretensão de estilhaçar, pelo ridículo, a capa intelectual da dominação.
A palavra inglesa “hoax” significa ‘o truque que se faz a alguém fazendo passar uma coisa falsa por verdadeira’. Segundo André Gatolin, num artigo da revista “Multitudes”, nº25, a origem etimológica da palavra é incerta; derivaria da expressão “hocus pocus”, fórmula utilizada pelo ilusionista no momento crucial do truque. O antropólogo Lévi-Strauss estudava processos similares nas sociedades tradicionais, nas quais, através de rituais e simulacros, determinados elementos conseguiam provocar a subversão e a inversão de papeis sociais.
O “hoax” é pois uma forma de enganar os poderes com as suas próprias regras e taras mediáticas.
Jornalistas, como o Gunter Wallraff – que se disfarçou de trabalhador turco para denunciar, no livro “Cabeça de Turco”, as condições de vida dos imigrantes na Alemanha e passou por militante da extrema direita alemã para entrar nos meandros da conspiração dos bombistas do ELP e do, então, general Spínola, no Verão quente da revolução portuguesa – , ou activistas, como os Yes Man, Luther Blisset e Serpica Naro, que armadilharam os poderosos no seu próprio terreno, são exemplos de utilização do “hoax”.
Muitos destes novos militantes reivindicam-se de escritos críticos de Félix Guattari e Cornélius Castoriadis e da afirmação de um “imaginário social radical”.
É óbvio que numa sociedade mediatizada como a nossa, o “hoax” encaixa bem nas buscas mediáticas do sensacional e diferente, mas também é verdade que pode ser, caso não passe de forma, facilmente recuperado pelas regras do espectáculo e converter-se em mais uma animação para telespectadores.
No entanto, a força do “hoax” está na sua capacidade de ridicularizar, aos olhos do mundo, aquilo que até àquele momento parecia invencível.
A velha história do rei vai nu é o mais antigo “hoax” que se conhece. Estamos perante uma partida que põe literalmente a nu a fraqueza do poder. Os aldrabões convencem o rei e os nobres que toda a gente superiormente inteligente vê a roupa luxuosa por eles confeccionada. Nenhum dos figurões quer dar parte fraca, e vão em pelo para a rua, perante uma plateia que finge ser inteligente e, naturalmente, ver a roupa luxuosa que os cobre, até que uma criança berra: “o rei vai nu!”.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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