Coisa subjectiva

capa acapa b

The truest and wisest words ever written about reviewing were spoken by Sarah Vowell in her book Take the Cannoli. Asked by a magazine to review a Tom Waits album, she concludes that she “quite likes the ballads”, and writes that down; now all she needs is another eight-hundred-odd words restating this one blinding aperçu. [p.143]

Isto hoje começa com um duplo pedido de desculpas: primeiro porque venho tarde, segundo porque abro com uma citaçao em inglês, e eu bem sei como entre os leitores do 5 dias há os que fazem questao de odiar citaçoes em inglês. Suspeito que sao o tipo de leitor que também faz questao de odiar qualquer texto com o meu nome, com inglês ou sem ele, de modo que, aviso já, este texto terá várias passagens em inglês, pois se querem odiar podem recostar-se na cadeira porque o prato está mais ou menos garantido.
Outro dia comprei um livro sem que fizesse tençoes de o comprar. Nao, isto nao é assim – porque 95% das vezes compro livros sem que tivesse a menor intençao de os comprar. O que se passou é que comprei um livro que, antes de o ver na montra da livraria, nem sequer sabia que existia. E mais: tinha acabado de chegar, e o único exemplar que havia era o da montra.
Na verdade comprei este livro pela segunda vez. Ano e meio atrás já o tinha comprado, numa versao mais curta: é um livro de crónicas e o primeiro tinha menos crónicas. E nao é a primeira vez que me acontece isto com este mesmo autor, que edita um livro e um ano depois edita o mesmo livro, mas aumentado.

As crónicas de Nick Hornby na revista Believer partem da seguinte ideia: de um lado da página, assentar os livros que se comprou no mês; do outro lado, os livros que se leu. A ideia é partir da experiência subjectiva de ler; é partir desta coisa ainda mais simples, contraditória, complexa, que é a lista do que se comprou e a lista do que se leu, que condensa imensos significados e imensos impulsos contraditórios. Por que se comprou o que se comprou? Como se escolhe o que se lê? Como se lida com os livros “obrigatórios”? Como se vivem os dias em que se pega num livro e se larga, se pega noutro e se larga, se chega ao fim do mês e se tem um monte de livros comprados, menos atraentes agora do que na livraria? Menos atraentes porquê? Será que a nossa paixao era genuína? Por que razao precisávamos de o comprar naquela altura e depois nao precisamos de ler?
Comprei The Complete Polysyllabic Spree com o mesmo entusiasmo com que comprei The Polysyllabic Spree, embora nao tenha a certeza de ter lido o primeiro do princípio ao fim. (Tenho a certeza de que nao li o primeiro do princípio ao fim.) Mas os meus amigos acham que a exigência de ter lido um livro antes de comprar outro é uma coisa “anal”.
E depois há ainda o problema de escrever sobre livros: aqueles livros todos que lemos com deslumbramento e vontade de transmitir e passar ao parceiro, dizer alguma coisa sobre aquilo. Semana após semana, adiamos o momento de dizer alguma coisa sobre aquilo. E, no momento de escrever, nao dizemos nada do que estávamos pensando dizer.

At the beginning of my writing career I reviewed a lot of fiction, but I had to pretend, as reviewers do, that I had read the books outside space, time, and self – in other words, I had to pretend I hadn’t read them when I was tired and grumpy, or drunk, that I wasn’t envious of the author, that I had no agenda, no personal aesthetic or personal taste or personal problems, that I hadn’t read other reviews of the same book already (…).
So this column was going to be different. Yes, I would be paid for it, but I would be paid to write about what I would have done anyway, which was read the books I wanted to read. (…) Inevitably, however, the knowledge that I had to write something for the Believer at the end of each month changed my reading habits profoundly. For a start, I probably read more books than I might otherwise have done. (…) Magazines have been the real casualties of this regime (although the Economist has survived, partly to replace the newspapers I’m not reading). [p.2]

A experiência de ler, dizia eu, a propósito do Hornby. A experiência de escrever, e tudo vai dar ao mesmo.

Acabo de receber um telefonema do editor, a dizer que o meu texto está atrasado. Se o outro é Praia, este aqui é batente. Tereis de tolerar a deficiencia de acentos, o ar descuidado da grafia. Estou em Madrid. Passei a manha [façam o favor de ler aqui um til] perdido. Se calhar aquilo já nao era bem manha [façam o favor de ler aqui um til]. Acabei, varias horas depois, num cibercafé numa cave, tirando que o cibercafé nao tem café e o espaço para o ecra, a cadeira e o teclado faz lembrar um aviao de companhia aérea low cost. Além do mais, este teclado parece meio partido. Todas as semanas isto custa a sair, mas esta semana custa mais.

O Pedro Mexia escreveu uma vez que a crónica é o género mais parecido com entrar numa sala para ver quem está, e voltar a sair. Abrir uma porta e ver o que está lá dentro. É um género que nao permite desenvolvimentos longos mas permite muitas hesitacoes, ensaiar hipóteses. Por exemplo: eu abro a porta que ao tempo mesmo fecho, abro a porta e tenho o pé na porta, escorregam umas coisas para fora, eu nao consigo chegar a entrar e ver coisa nenhuma. Há apenas estes detritos que saem porta fora.
É também a experiência subjectiva da crónica que torna este livro tao contraditório: há momentos em que Hornby se aproxima de estabelecer uma teoria sobre a superioridade da literatura “pop”, digamos assim, sobre a literatura “séria”: a literatura que é viciante, em se passam as páginas, contra a literatura que é difícil e em que as páginas custam a passar. Mas nao é muito grave porque chega o mês seguinte e ele vem explicar precisamente o contrário.
Em Agosto de 2005, por exemplo, diz assim:

This column has frequently suggested that a novel without forward momentum isn’t really worth bothering with, but that theory, like so many others, turned out not to be worth the (admittedly very expensive) paper it was printed on. [p.185]

A escrita do Nick Hornby faz-me lembrar a do maradona. Ou devia dizer ao contrário?

Este livro tem só um defeito sério. O defeito sério é que Hornby acaba a falar muito mais sobre os livros que leu do que sobre a experiência de os ler. Os textos sobre os livros que leu nao sao tao profundos nem tao interessantes como deveriam ser se fossem recensoes propriamente ditas: abundam os adjectivos (“engraçado”, “inteligente”, “divertido”). E há mais: as suas escolhas de leitura sao, naturalmente, idiossincráticas; nove-décimos dos livros sobre os quais ele fala sao livros que eu nao li nem penso ler. E Hornby praticamente nao lê nenhum livro que nao tenha sido originariamente escrito em inglês. Há uma passagem, referindo-se à experiência de ler Soldados de Salamino de Javier Cercas (o único livro nao-inglês que aparece nesta colecçao), em que ele diz que a ler a traduçao se sente como se ouvisse rádio num fm mal sintonizado.
Além disso – e isto é o pior – Hornby nao fala suficientemente sobre os livros que nao leu. A coluna dos comprados recebe muito menos atençao do que a coluna dos lidos.
Assim, as crónicas nem sempre têm um tema unificador. Sao crónicas sobre livros, isso é certo, mas nao é enquanto crónicas sobre livros que elas podiam ser boas. Nao é suficientemente explorada a relaçao com os livros, que era a promessa da capa.

Uma característica engraçada é esta de Hornby publicar o mesmo livro duas vezes, porque é consistente com a filosofia geral: uma forma de nos dar conta da experiência subjectiva de publicar. Tenho agora em casa duas ediçoes de The Polysyllabic Spree, como se a primeira fosse um rascunho da segunda. E, uma vez que ele continua a publicar na revista, nem sequer se percebe por que parou a colecçao por aqui.

Tenho um gajo ao meu lado que joga um jogo de computador que consiste em ser capaz de arrumar um carro num espaco. Que tipo de entretém é arrumar um carro num espaco de estacionamento? E que tipo de entretém é fazer isto virtualmente, frente a um ecra, carregando no teclado? Vocês desculpem esta overdose de subjectividade, mas o que eu ainda nao tinha escrito neste site era um texto subjectivo.

Dos livros referidos, estes dois têm ar de interessar ao Mexia, este de ser leitura para o maradona. Escusado será dizer que nao os li.

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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