Heróis de Hoje

Autor: Carlos Trincão

A casa tinha três pisos pelos quais a vida se distribuía, o último dos quais só para dormir. Ao nível da rua, numa antiga loja transformada em sala sobre o comprido, a vida ia crescendo, misturada com os brinquedos, o jornal do avô, a máquina de tricotar da avó e a televisão. Nesse tempo a televisão ainda era quase uma aventura e possuí-la… um luxo. E era aí, no rés-do-chão, que depois do jantar a família se juntava à volta de si mesma e de um descanso de fim de dia bem merecido.
Era nesse tempo de menino que os heróis – e as heroínas – viviam perto de mim: nos livros, nas revistas, nos filmes, na imaginação, na rádio e na televisão. Ainda hoje tenho heróis, embora um tanto ou quanto diferentes dos de rapaz.
Os heróis de agora são bem mais beligerantes que os de antigamente. Julgo eu, pelo menos. Ou então é só impressão. De qualquer modo, subjectividades incluídas, são mais destruidores e horrendos. Parece-me até que a qualidade do papel das revistas aos quadradinhos – couché, como parece que lhe chamam –, que é bem mais lustroso que os de outros tempos, realça mais os esgares, os tiros, os socos e o sangue.
Os primeiros heróis que conheci foram os do “Cavaleiro Andante”; também passei os olhos pelos d’ “O Mosquito”, mas gostei menos. Agora os do “Cavaleiro Andante”… ah!, esses é que eram heróis para os meus sonhos. Aquilo era um ver-se-te-avias de aventuras em sítios longínquos e exóticos.
Quando eu era mais miúdo, havia um herói que me era bastante simpático: era o Rei dos Macacos e passava a vida a saltar de árvore em árvore, agarrado às lianas, ao ritmo de uns gritos que imaginava portentosos. Deviam mesmo ser gritos fantásticos, pois a bicharada da selva obedecia-lhe sem hesitações, de alma e coração.
Bem… de alma não sei, mas para agora também não interessa, pois não?
Era-me este herói particularmente chegado por ser o único que eu tinha a ousadia de imitar, no quintal das traseiras lá de casa, pendurado nas árvores que faziam a minha selva. Só isso. Pendurado. E mais uns gritos infantis que, mais do que chamar elefantes, leões ou gorilas, tinham o condão de irritar os gatos que se passeavam por ali.
Existia igualmente um mascarado de preto, cavalheiro e cortês, robim dos Bosques, da Califórnia, que se divertia a dar cabo da paciência a um bojudo sargento, coisa que irritava, como se adivinha sem esforço, o dito subalterno mai-lo capitão.
A dar para o moderno, conheci dois do tipo “super”: o homem e a moça. Tinham chegado de um planeta distante, salvos à última da hora de morte certa. O mundo deles ia explodir e os pais do rapaz lograram arranjar-lhes transporte na nave espacial das sete e meia. Quando aqui chegaram, passaram a voar que era um mimo. Ainda voam, aliás e, salvam vidas a torto e a direito.
Bem… assim de cabeça e numa contagem rápida, eram mais que muitos esses heróis com quem cresci e que hoje, à entrada de todos os dias, recordo assim que abro a porta da minha loja de jornais e revistas.
Havia o Fantasma, o Mandrake, Blake & Mortimer… Eu sei lá quantos mais! Tirando um ou outro caso, todos tinham namoradas, embora sem atrevimentos.
De qualquer modo, isso não é importante. O que interessa são os heróis que encheram as páginas da minha meninice e que, assim de um modo geral, eram todos uma espécie de cavaleiros andantes do século vinte, sempre em busca de aventuras, fazendo o bem ao próximo, auxiliando os pobres e os fracos e defendendo as damas.
Andavam sempre impecavelmente vestidos, tivessem uniforme ou não. Por mais violenta que fosse a explosão ou a sessão de pancadaria, saíam ilesos, bem dispostos, sem um arranhão, prontos para outra. Quando muito, uma ligeira ferida que passava com um suave e carinhoso beijo da tal namorada, desaparecendo na vinheta seguinte.
Em matéria de higiene, por exemplo, eram referências quase divinas no que toca a limpeza; e as únicas vezes que osvia na casa-de-banho eram aquelas em que os cavalheiros de tronco perfeito e pelado faziam a barba, sinal de masculinidade, e as senhoras de curvas delicadas acertavam o penteado ou retocavam a pintura.
Também havia o Tio Patinhas e toda a sua família e amigos. As variações não eram muitas, a tal ponto que, de vez em quando, lá apareciam também os super-heróis, estes de trazer-por-casa, mas, nem por isso, menos super que os outros.
A realidade é que eles existiam mesmo, faziam o seu trabalho com competência e ajudavam-me a passar as minhas tardes de rapaz.
Pois…
Agora é que as coisas são mais complicadas. Os tais heróis já não aparecem tanto, nem estão tão disponíveis para ajudar os outros. Aliás, agora a moda até é a de ajudar quem não precisa. E de tal modo as coisas estão que os super heróis já não são super nem heróis porque, como já não ajudam tanta gente nem têm trabalhos tão hercúleos, já podem dar-se ao luxo de passar por gente normal.
Quer dizer… já não habitam só as páginas das revistas aos quadradinhos, mas andam pelas dos jornais e de outras revistas, assim a dar para o tom rosa. E o que é mais curioso é que nessas revistas e jornais as histórias também mudaram: agora o enredo é ir tirando aos que têm menos para distribuir pelos outros.
Sou franco: os heróis de agora não me atraem tanto como os de antigamente, mas quem se importa com isso?

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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2 respostas a Heróis de Hoje

  1. ´denise odwyer diz:

    Hérois? hoje só nós o povo brasileiro.SOBREVIVENTES em meio a tantas ameaças sóciapoliticas e economicas.

  2. paula diz:

    herois! essa merda nao mostra nada!

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