O planeta dos croquetes, por Helder A.

Há uma figura de jornalista de que eu não me consigo esquecer, a de um tipo baixinho, com ar remediado, como a minha avó dizia, e um daqueles chapéus moles que deixaram de se usar há quarenta anos mas ainda hoje se vendem nalgumas lojas da Baixa, que aparecia nas nossas conferências de imprensa só para comer. Eu confesso que, jornalistas e afins, nunca os levei demasiado a sério: em tempos também pertenci à confraria e percebi que, em deixando-a, metade da redacção me escrevia sal com cê cedilhado – mas isso, claro, foi antes de aparecerem os licenciados em comunicação social, que elevaram a prática do dislate a níveis de muito mais elevada sofisticação. Quando este me apareceu à frente pela primeira vez eu não percebi logo tudo, ele disse-me que trabalhava numa rádio qualquer de Almada ou do Seixal e eu, que me prezo de não ter esse tipo de preconceitos (tenho outros), malgré le petit chapeau, tratei-o como se ele fosse gente séria. Mas ele era muito natural e não conseguia esconder o que lhe ia por dentro. Mal ficámos sózinhos ele disse-me assim: – “O sotôr não está a ver o que se deve perguntar?” E eu fiquei logo a ver, e depois de lhe dizer tudo (a pergunta e a resposta, em tons diferentes) levei-o ao planeta dos croquetes, que ele insistia em conhecer mais de perto. Assim as confusões acabaram antes mesmo de poder ter começado: ele emprestava-me o microfone e eu dava-lhe de comer. Ninguém sabia de nada. E aqueles que sabiam não queriam acreditar. O que pode o terceiro Estado comparado com o quarto poder?

Um dia ele desapareceu, as nossas exaustas cozinheiras deram graças e os próprios croquetes voltaram a sorrir; mas depois chegaram-me ecos de que, noutra conferência de imprensa algures na capital, alguém tinha sido visto a castigá-los de tal forma que só podia ser o meu homem. Eu achei coincidência a mais, mas a descrição não permitia enganos: sempre com o inconfundível chapelinho fora de prazo, tinha mandíbulas de aço e o ar untuoso a que os mais patriotas chamam “brandos costumes”. Segundo apurei, regressara ao grande mundo da comunicação social, subsegmento das rádios de periferia; passara a oferecer os seus préstimos na zona da CREL porque se tinha tornado muito notado na margem sul e havia quem falasse mal dele, mas eu acho que era mais inveja; o tipo nunca me pareceu mau carácter e, sobretudo, guardo dele as melhores recordações profissionais: sempre directo ao assunto, dizia logo ao que é que vinha, não era pretencioso nem fingia que sabia coisa nenhuma, o homem “assumia”, como agora se diz. Em vez de dar voltas complicadas, pedia simplesmente: – “Tratem-me bem que eu também”; por isso lhe envio desde aqui renovados sucessos e aumentadas propriedades, lá onde estiver, perdido entre a sua classe, nas vastas regiões do planeta dos croquetes que eu, um dia, fui o primeiro a dar-lhe a conhecer.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.