Você tem culpa

[do Público de 21 Setembro 2006]
Já sabemos que o governo de nada serve senão para abrir as portas às leis da economia, convertendo assim a política numa mistura da contabilidade com a propaganda. 

Que pena o Secretário de Estado Adjunto da Indústria e Inovação, António Castro Guerra, ter retirado o que disse quando culpou os consumidores pelos aumentos de dezasseis por cento na tarifa da electricidade. O senhor Secretário de Estado Adjunto justificou-se dizendo que teve um mau momento, mas não é verdade: pelo contrário, as suas palavras foram o ponto alto, o auge da discreta carreira de um Secretário de Estado Adjunto. Melhor ainda: estas palavras foram toda a carreira do Secretário de Estado Adjunto, o princípio e o fim dela, condensados. O Secretário de Estado Adjunto saltou por cima das barreiras hierárquicas para nos dar aquilo que nem um Secretário de Estado dos verdadeiros (ou seja, não-adjunto), um ministro ou um primeiro-ministro nos podem dar: a verdade. Na prática, é um desastre, o equivalente político a deixar a bomba de nitroglicerina rebolar pelas escadas abaixo; por isso o governo se apressou a garantir que o dito aumento não fosse tão exagerado. Mas já que o mal estava feito, o senhor Secretário de Estado Adjunto deveria ter aproveitado para despejar a alma de todas as banalidades, num momento único de sinceridade e perfeição ideológica. Bastaria encarar a câmara com vigor, esticar o dedo indicador e denunciar: você tem a culpa.

Porque é verdade. Você vive durante mais tempo do que é comportável para os cofres da Segurança Social. Você tem menos filhos do que deveria ter. O seu salário é demasiado alto para o nosso Estado; o seu despedimento é demasiado difícil para as nossas empresas. Caso tenha sido despedido, você é um privilegiado do subsídio de desemprego ou, pior ainda, um privilegiado do rendimento mínimo. O país produz pouco e você tem culpa. O país não é competitivo e você tem culpa. Você tem culpa porque se endividou. Você tem culpa porque é professor e não ensina. Você tem culpa porque é aluno e não aprende. Você tem culpa porque é funcionário público e nem vale a pena pormenorizar as suas culpas. Você tem culpa porque trabalha no privado, mas não tanto como deveria. Se você é português, tem culpa. Se é estrangeiro, tem mais culpa ainda.

Neste país, há pouquíssima gente que não tem culpa. Não têm culpa alguns economistas, que são quem nos explica as nossas culpas (embora não esteja completamente certo em relação a Medina Carreira, que admitiu ao Expresso não tomar medidas contra o aquecimento global, ou seja, não combater o desperdício de energia — e portanto também tem as suas culpas no défice dos consumidores domésticos de electricidade). Não têm culpa os empresários do Compromisso Portugal, que fazem o que podem para tornar o país competitivo (embora haja entre eles pouquíssimos casos de sucesso fora deste rectângulo à beira-mar — e você sabe como tem culpa disso). Não têm culpa alguns gestores e juristas de topo, que temos de conquistar a peso de ouro ao sector privado e premiar abundantemente para que se sintam motivados. Alguém, neste país, tem de ser motivado. Não têm culpa aqueles que sempre sentiram que o país é fraco e que o destino os injustiçou ao fazê-los nascer numa terra pequena demais e incivilizada demais para o seu génio (penso, por exemplo, em Paulo Portas ou Herman José).

Para lá destas excepções, resta você, que tem culpa. Tem culpa de, como contribuinte, ter pago a reabilitação do Rivoli para agora o entregar a um privado que teria dinheiro para o reabilitar sozinho. Tem culpa de, como cidadão, ter acreditado que a privatização da EDP e a liberalização da energia iriam fazer baixar os preços e beneficiar o consumidor final (como lhe disse Durão Barroso, chefe de um governo onde pontificava o hoje escandalizado Marques Mendes, — e você tem culpa de lhes ter dado ouvidos). Tem culpa de, como acusa um certo Joaquim Pina Moura, o mercado da electricidade ainda não estar suficientemente liberalizado. Tem culpa de acreditar que os impostos que paga sirvam para alguma coisa que não seja para esta versão invertida da luta de classes.

Reparem: a electricidade é cara de produzir e o consumidor não paga o seu preço real. Nada muda esta realidade, quer o aumento seja de dezasseis por cento, de oito por cento como o governo agora propõe, ou de acordo com a inflação como a lei antiga determinava com mais justiça. O Secretário de Estado Adjunto estava, pois, correcto no particular. O que surpreende é que um Secretário de Estado, mesmo que Adjunto, e para mais de um governo socialista, não saiba ver o quadro geral e se limite a encolher os ombros quando colocado perante um aumento brutal dos preços, no país das pensões de duzentos euros, antes do Inverno começar. Já sabemos que o lugar-comum consiste em dizer que o governo de nada serve senão para abrir as portas às leis da economia, convertendo assim a política numa mistura da contabilidade com a propaganda. Mas, mesmo assim, dói ver como um governante socialista se contenta com o lugar-comum.

A candura e o voluntarismo com que tantos assumem este lugar-comum do mercado faz lembrar a vida e obra de Simão Bacamarte, personagem principal de O Alienista, uma das melhores obras do escritor brasileiro Machado de Assis (nota para Santana Lopes: morreu em 1908). O Doutor Simão Bacamarte, licenciado em Medicina por Coimbra, regressa à sua Itaguaí natal com tanta confiança nas leis da ciência psiquiátrica como hoje em dia se tem nas leis da ciência económica. Fundou um manicómio e pôs tanto esforço no internamento dos loucos da terra como hoje se põe na identificação dos culpados da crise. E descobriu tantos loucos como nós descobrimos culpados: o vigário e o prefeito, o boticário e o barbeiro. Quando toda a cidade estava internada, restava-lhe a conclusão lógica: diagnosticou-se a si mesmo e encerrou-se no manicómio. Também nós estamos nos estágios finais deste processo: explicaram-nos as razões do atraso do país, provaram-nos que não há alternativa, e propuseram-nos um remédio mais forte que a doença. Antes éramos apenas miseráveis. Agora dizem-nos que somos miseráveis e mal habituados. Quem tem culpa disto? Você — e eu também.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

3 respostas a Você tem culpa

  1. Sérgio diz:

    É por estas e por outras que vale a pena ler o Público aos sábados.

  2. Gostei muito do texto! De facto estamos mesmos a viver um período dominado por estes malabaristas de números que são os economistas que nos governam. Tudo tem os seus limites incluindo as frases tristes dos nossos ministros e secretários de estado. Tenho pena de viver numa época marcada pela abundância da informação onde, pelo contrário, as coisas realmente importantes são constantemente abafadas. A esperança que o nosso governo nos transmite está alicerçada num modelo de crescimento econónico assente num cada vez maior consumo irracional de energia. Não é a ideia de crescimento que está errada, o que está errado é o caminho desse crescimento. Agora que parte importante dos recursos energéticos do planeta Terra está a ser extraída ao máximo permitido pela natureza é estranho encontrar tanta gente importante a assobiar para o lado!
    Vamos ver o que o futuro próximo nos reserva.

  3. Este texto aponta (bem) um dos lados da realidade. É que os cidadãos continuam convencidos de que a culpa de isto ter chegado ao ponto a que chegou não tem nada a ver com eles. Isto não é verdade e justifica o demissionismo. As pessoas querem é entregar o governo das coisas a alguém que disso se encarregue e ficar descansados, se possível a não fazer nada e comprar tudo já feito; inclusivamente o governo da autarquia e do país, através do voto. Mas foram esses mesmos cidadãos que elegeram o Isaltino do sobrinho taxista, o Valentim das batatas e a Fátinha do saco azul. Os governantes são o espelho do povo. E que povo tão foleiro aquele em que nós nos deixámos cair!

Os comentários estão fechados.