Žižek numa livraria perto de si

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(Agora nas livrarias: Elogio da intolerância e Bem-vindo ao deserto do real, editados pela Relógio D’Água)

Slavoj Žižek é um pensador desconcertante. Faz do humor uma arma. Muitas vezes parece que apenas quer épater le bourgeois, mas vai dizendo verdades incómodas. Num tempo de relativismos, garante que pode-se falar das culturas, das sexualidades, das tolerância, mas que se a esquerda deixa de fora as questões da economia, da ideologia e da produção da vida, é apenas uma cereja no cimo do bolo do capitalismo. É óbvio, por exemplo, que uma sociedade que respeita a liberdade sexual é , nesse aspecto, mais avançada que outras formas de vida em conjunto. Mas, é também verdade que é possível ter uma sociedade com pobreza, discriminação e exploração e ter liberdade sexual. Escrevia Hobsbawm que o “sexo é a ópera dos pobres”, há regimes repressivos que coexistem bem com a liberdade sexual e, do mal o menos, os pobres podem sempre ficar prazenteiramente ocupados com isso.
Žižek afirma a necessidade de um certo retorno ao leninismo, quando afirma, por exemplo, na entrevista do El Pais, que mais do que discutir a participação das mulheres na política é preciso forçar essa entrada, mas é também o pensador que nos alerta contra o activismo pelo activismo, dizendo que actividade não é obrigatoriamente movimento. E que, sobretudo, é preciso fazer, nos dias de hoje, uma pausa para pensar.
No fundo, a grande questão é a da verdade na mentira, bem ilustrada na anedota, contada pelo autor, sobre dois russos que se encontram, anos depois da queda da União Soviética, em que o primeiro diz ao segundo: “já viste que os comunistas nos mentiram sobre o socialismo?”; a que o outro responde: “o mais grave é que nos disseram toda a verdade sobre o capitalismo”.
É na construção de uma nova agenda teórica que Slavoj Žižek se insere.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a Žižek numa livraria perto de si

  1. António Figueira diz:

    Sem me querer armar em Andrew, a que propósito escreves tu, na segunda ou terceira linha, “Num tempo de relativismos”?

  2. Andrew diz:

    o zizek está com umas olheiras horriveis! Suponho que usar uns pepinos seria uma “bourgeois tragedy.” ah ah ha 🙂

  3. Andrew,
    penso que as olheiras de Žižek são o seu esforço mais bem conseguido de aproximação a Lenine. Dão-lhe um ar zombie. De resto, o ideal da mente sã em corpo são já está gasto.

    Pelo que posso ler do autor, prescreve uma tarefa à esquerda, a tarefa de se reinventar. Julgo que José Sócrates está a conseguir isso, na medida em que a está a transformar numa direita real e efectiva à qual dá o nome esquerda.

    Isto é apenas uma outra forma de dizer que talvez a esquerda tenha ficado de olheiras e fragilizada até que morreu esmagada debaixo do muro de Berlim. As tentativas de terceira via e de leninização da actualidade talvez não tenham capacidade de ressuscitar este cadáver.

    É curioso ver como Žižek reconhece que a esquerda precisa de parar para pensar na economia. Mas esta esquerda está atoloda na velocidade dos dias que correm e a ideia de retiro cheira-lhe a religiosidade. Por isso, vai-se auto-destruindo. Julga que tem apenas de fazer movimentos, mobilizar massas e semear ódios anti-americanos. Deixou de ter uma estrutura própria, uma voz preenchida de ideias, e sustenta-se unicamente em ser anti-direita, em ser o contrário do capitalismo. Como nada tem a apresentar de seu perde o crédito popular a cada dia que passa. O que acaba por ser mais incrível no meio disto tudo é o facto de actualmente os momentos fortes da esquerda coincidirem todos com momentos perigosos da extrema-direita. A existência da esquerda não se sustenta por isso nela mesma, mas sim numa diversidade de insatisfações populares com a direita, sendo que o povo se sente bem com a direita desde que tenha dinheiro para consumir. Dinheiro esse que a direita cada vez mais consegue garantir.

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