Žižek numa livraria perto de si

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(Agora nas livrarias: Elogio da intolerância e Bem-vindo ao deserto do real, editados pela Relógio D’Água)

Slavoj Žižek é um pensador desconcertante. Faz do humor uma arma. Muitas vezes parece que apenas quer épater le bourgeois, mas vai dizendo verdades incómodas. Num tempo de relativismos, garante que pode-se falar das culturas, das sexualidades, das tolerância, mas que se a esquerda deixa de fora as questões da economia, da ideologia e da produção da vida, é apenas uma cereja no cimo do bolo do capitalismo. É óbvio, por exemplo, que uma sociedade que respeita a liberdade sexual é , nesse aspecto, mais avançada que outras formas de vida em conjunto. Mas, é também verdade que é possível ter uma sociedade com pobreza, discriminação e exploração e ter liberdade sexual. Escrevia Hobsbawm que o “sexo é a ópera dos pobres”, há regimes repressivos que coexistem bem com a liberdade sexual e, do mal o menos, os pobres podem sempre ficar prazenteiramente ocupados com isso.
Žižek afirma a necessidade de um certo retorno ao leninismo, quando afirma, por exemplo, na entrevista do El Pais, que mais do que discutir a participação das mulheres na política é preciso forçar essa entrada, mas é também o pensador que nos alerta contra o activismo pelo activismo, dizendo que actividade não é obrigatoriamente movimento. E que, sobretudo, é preciso fazer, nos dias de hoje, uma pausa para pensar.
No fundo, a grande questão é a da verdade na mentira, bem ilustrada na anedota, contada pelo autor, sobre dois russos que se encontram, anos depois da queda da União Soviética, em que o primeiro diz ao segundo: “já viste que os comunistas nos mentiram sobre o socialismo?”; a que o outro responde: “o mais grave é que nos disseram toda a verdade sobre o capitalismo”.
É na construção de uma nova agenda teórica que Slavoj Žižek se insere.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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