Outono, esse travesti do Inverno

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Admito que a confusão dos dias me faz hesitar. Ao passar na cidade, em qualquer cidade, na minha cidade, são folhas que caem ou árvores? São árvores que cospem. Agacho-me, a mais triste das alegres posições de antigo regime, e apanho uma folha. Todos os meus problemas se resolvem, daquele mais íntimo como um calo barbudo ao mais social o sorriso de dentição amarelada. Por momentos vivo na Pontinha, mora na Quinta da Marinha. Mamadu Soares, mestre, astrólogo, vidente e confidente, sussurra-me ao ouvido um telemóvel e promete mundos e fundos. Nos fundos das minhas calças vive um mundo, garanto a quem não saiba, prenhe de pedintes que batem palmas com os pés descalços. Juro, prometo, ou pelo menos insisto. Para começo de conversa confesso a minha vontade de desviver, modo macio de suicídio. Aspiro à limpeza de interruptor, um clique que evitasse para sempre aquela dor que é não menor de ver nascer macio o dia. Macio porque o dia trará o novo pulsar do coração, um riso explosivo, o deslizar do corpo jovem, a dúvida doce, enfim, uma surpresa que se confirma. E nessa está o Inverno das coisas. Agachei-me e apanhei a folha, que não será nunca para o trabalho do meu filho acerca da chegada do Outono. Olhai! Vede! É a promessa da solução. Está assinado Soares, mas Mamadu não quererá dizer Sócrates? Gostava de poder afirmar assim uma proposta, uma venda, uma proposta de venda acerca do mundo pronunciando o meu apelido. O meu apelido diz Lisboa, lamento os que vivem fora. E é em Lisboa que vivem as supermagias, notem o texto, que afirma como sede a Rua da Boavista. Bendito mamundo onde se apanham miradouros agachados! A preto e branco, que o serviço é poderoso, aceitam qualquer das bolas disparadas do lado de lá da rede. Há sempre um lado de lá as estações, das coisas, da vida. Agora hesito, eu que gosto de ler nas linhas, esta folha não possui veios, as aspirações sadomaso: prenda a si quem desejar. Mas não é isso que faz o desejo, prender a meus pés? Amarre a si os desejáveis, mas afaste os outros. Como? Com as supermagias, notem o texto, porra, que está lá tudo: belo e consolação. Saúde, bebo a isso; Negócios, cago nisso; Exames, só à próstata; Jogo, na boa; Doenças Espirituais, desde que nuas e despidas; Impotência Sexual, nos dias pares; Vícios e Álcool, ao pequeno almoço; Droga, porque não, Casas Assombradas pelo desejo; Maus olhados e mal de inveja, política não! Máxima garantia e trabalhos à distância, eis a cura única das doenças que se apanham no chão. Só um Grande Cientista Pessoalmente nos resolve este problema das estações sem saída: o Outono apresenta-se pessoalmente como se fosse o Inverno, chuvoso e problemático. A mim, que me falha a filosofia, perco a resposta ao debruçar-me . Felizmente só tenho que pagar depois de resultar. As moedas retinem na calçada. Chovem ratazanas e penso em desejo. Cuspo, feliz como o cinzento.

JOÃO PAULO COTRIM

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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