Três leituras

Excelente a entrevista que Fernando Henrique Cardoso deu ao Público na segunda-feira – e digo isto apesar da jornalista. O Público prossegue na sua tradição de jornalismo engagé, ainda que as «causas» de Teresa de Sousa não sejam exactamente as mesmas do seu celerado director. Mas impressiona, nas partes sobre política internacional (que, misteriosamente, não estão online), impressiona a insistência da jornalista em impor a sua agenda para falar da «ameaça populista» na América Latina. Como diz Daniel Oliveira pertinentemente neste post, «a coisa funciona assim: gosta de Chavez? Então é populista. É anti-Bush? Populista! Promete reformas sociais radicais? Populista, populista, populista! [Mas] o que me interessa a mim saber o que cada jornalista acha sobre cada candidato?» Perante isso, o tom moderado com que FHC se refere a Chavez é surpreendente, da mesma maneira que as críticas abertas que faz a Bush, e a Blair e à guerra do Líbano, estabelecem um marcado contraste com muito do que em Portugal passa por ser de esquerda. Do excerto disponível online (apenas sobre o Brasil), a passagem que achei mais interessante foi esta:

«É isso que me chama mais à atenção. O PT nasceu como o partido dos sectores mais avançados do Brasil, os trabalhadores de São Bernardo do Campo, como um partido renovador, com força, com pujança. E pouco a pouco, ele foi ocupando os espaços do atraso. Hoje, ganha nas zonas onde no passado ganhava a Arena (o partido oficial no tempo dos militares), não só, mas predominantemente.»

Segundo um estudo da Universidade Johns Hopkins (Baltimore, EUA) publicado na semana passada na revista Lancet, terão morrido no Iraque, em consequência da invasão americana, até agora, 650 mil pessoas. Trata-se de um estudo estatístico, que não contabilizou os mortos um por um: 650 mil é um valor intermédio, porque podem ter sido 390 mil ou 943 mil as pessoas que morreram a mais em relação ao que seria de esperar se não tivesse havido invasão. O Pedro Magalhães tem-se dado ao trabalho de explicar alguns dos aspectos cruciais da metodologia utilizada, divulgando críticas a que o estudo tem sido sujeito e respondendo, com notável paciência, a objecções colocadas na blogosfera portuguesa.

Este caricatura, bastante divertida, que o Filipe Nunes fez das manifestações da última 5ª feira gerou uma chuva de comentários irados no seu blog. Mas este texto, de sentido muito diferente, em que o Pedro Adão e Silva defende que o PS devia ter uma estratégia política própria para o movimento sindical, suscitou logo acusações de «fascismo».

Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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