Tempos Sombrios

Autor:
Arnaldo Gonçalves
Licenciado em Direito, Mestre em Ciência Politica e Relações Internacionais e professor convidado de Relações Internacionais no Instituto Politécnico de Macau. Presidente do Fórum Luso Asiático e autor de inúmeras publicações na sua área. Colaborou com vários títulos da imprensa escrita tendo, actualmente, uma coluna quinzenal no Tribuna de Macau.

Tempos Sombrios

Até nos tempos mais sombrios temos o direito de esperar ver alguma luz.
É bem possível que essa luz não venha tanto das teorias e dos conceitos
como da chama incerta, vacilante, e muitas vezes ténue,
que alguns homens e mulheres conseguem alimentar
Hannah Arendt

Cumpriu-se a 14 de Outubro o primeiro centenário do nascimento de Hannah Arendt (1906), filósofa judia, aluna de Heidegger e que perseguida pelo nazismo buscou asilo nos Estados Unidos. Aí ensinaria filosofia política, tornando-se uma das mais insignes representantes do pensamento político contemporâneo.
Importa, aqui e agora, celebrá-la, no sentido de que o seu pensamento, enquanto cientista política, socióloga e mulher, constitui um instrumento precioso para interpretarmos a realidade e o mundo dos homens.
Nascida numa rica e antiga família judia alemã, foi na Alemanha que Hannah Arendt fez os seus estudos universitários de teologia e filosofia em Königsberg (a cidade natal de Kant, hoje Kaliningrado), estudando filosofia com Martin Heidegger na Universidade de Marburgo e relacionando-se passional e intelectualmente com ele. Na Universidade de Heidelberg viria depois, sob orientação de Karl Jaspers, a concluir uma tese singular de doutoramento sobre a experiência do amor na vida e na obra de Santo Agostinho.
O seu envolvimento com o movimento sionista acabaria por colidir com o anti-semitismo do Terceiro Reich, o que a levaria inevitavelmente à prisão. Conseguiria, no entanto, escapar para França, onde trabalharia durante algum tempo com crianças judias expatriadas. Presa de novo com o marido – o operário e “marxista crítico” Heinrich Blücher – partiria, em 1941, para os Estados Unidos. Trabalharia ai, durante anos, em diversas editoras e organizações judaicas, obtendo a sua primeira ocupação académica em 1963, na Universidade de Chicago. Em 1967 trocaria esta pela New School of New York, instituição na qual se manteria até à morte, ocorrida em 1975.
O trabalho filosófico de Hannah Arendt abarca temas como a política, a autoridade, o totalitarismo, a educação, a condição laboral, a violência, e a condição de mulher.
O primeiro livro de Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo (1951), confirma-a como figura maior do pensamento político contemporâneo. Enunciando os aspectos comuns ao nazismo e ao estalinismo, Arendt revela como o totalitarismo depende da burocratização, do terror e de estratégias de manipulação das massas. Hitler e Estaline constituíam, assim, duas faces da mesma moeda, tendo ascendido ao poder explorando a “solidão organizada” das massas. Em A Condição Humana, de 1958, sublinharia a importância de um entendimento da política como acção e como processo em direcção à conquista da liberdade. Anos depois, em Sobre a Revolução (1963), detém-se nas revoluções francesa e americana, e avança que a preservação da liberdade apenas é possível se as instituições e organizações resultantes da revolução englobarem e mantiverem vivas as ideias revolucionárias. Alertaria os americanos que se se distanciassem dos ideais que levaram à Revolução Americana perderiam o seu sentido de pertença e identidade.
No mesmo ano escrevia Eichmann em Jerusalém, um reporte portentoso dos Julgamentos de Nuremberga. Nele mostraria que o protótipo do exterminador de judeus (Eischmann) não era um demónio, mas alguém “terrivelmente, horrivelmente banal”. Vários intelectuais judeus criticaram o livro por descrever o assassino dos judeus como um “típico burocrata”, homem comum que sem capacidade de separar o bem do mal, havia perpetrado esses crimes cumprindo fielmente as ordens recebidas. No limite, Hannah estava a sugerir a cumplicidade dos judeus europeus na sua própria destruição.
Hannah contraporia que é indispensável à verdadeira apreensão do fenómeno totalitário a consideração da complexidade da natureza e das motivações humana – o que designa pela “banalidade do mal” – de modo a assegurar e defender a liberdade.
As atrocidades praticadas já no ultimo quartel do século XX contra a minoria muçulmana na ex-Jugoslávia, os atentados terroristas de Nova Iorque, Madrid, Londres ou Bali revelam a acuidade e actualidade do seu diagnóstico e documentam a incarnação do fenómeno totalitário sob nova fácies. O extremismo religioso na sua variação islamista, naquilo que vários autores designam por islamo-fascismo, é um exemplo disto.
Seria curioso perceber como interpretaria o mundo contemporâneo e de que forma veria reproduzidos os exemplos de Hitler e Estaline. Não falharei muito em afirmar que acharia o mesmo pendor totalitário em Pol Pot, Mao Zedong ou Kim Jong Il e que não deixaria de alertar os contemporâneos para o perigo da ameaça que todos representam. Mas seria, também, particularmente cáustica com George W. Bush ou Tony Blair, por Guantanamo Bay ou o desnorteio do Iraque no caso do primeiro; pelas novas leis de excepção antiterroristas, no caso deste último. Veria nelas a tentação de ferir de morte a liberdade em nome de um enganoso desígnio superior: a defesa da segurança.
Hannah Arendt é homenageada um pouco por todo o mundo. Este é o testemunho simbólico que aqui presto com enorme respeito e veneração a uma mulher determinada e combativa, a um espírito livre e indomável. Hannah é parte do que somos.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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