Istanbul’u dinliyorum/ Ouço Instanbul

Autor: Carlos Trincão

Istanbul’u dinliyorum / Ouço Istanbul

Agora que o Nobel da Literatura foi para um escritor turco, permito-me compartihar um outro, Orhan Veli Kanik (1914 – 1950), um dos mais importantes poetas daquele país. A sua obra, muito influenciada pelo Haiku japonês, marca um corte (ou faz uma ponte?) entre a poesia turca tradicional e a moderna.

Deixo, então, três versões de um mesmo poema: o original, em turco, uma tradução inglesa de 1982 e a versão portuguesa que tive o prazer de fazer a partir da versão em inglês. No local.

Istanbul’u dinliyorum

Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali
Once hafiften bir ruzgar esiyor;
Yavas yavas sallaniyor
Yapraklar, agaclarda;
Uzaklarda, cok uzaklarda,
Sucularin hic durmayan cingiraklari
Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali.

Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali;
Kuslar geciyor, derken;
Yukseklerden, suru suru, ciglik ciglik.
Aglar cekiliyor dalyanlarda;
Bir kadinin suya degiyor ayaklari;
Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali.

Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali;
Serin serin Kapalicarsi
Civil civil Mahmutpasa
Guvercin dolu avlular
Cekic sesleri geliyor doklardan
Guzelim bahar ruzgarinda ter kokulari;
Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali.

Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali;
Basimda eski alemlerin sarhoslugu
Los kayikhaneleriyle bir yali;
Dinmis lodoslarin ugultusu icinde
Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali.

Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali;
Bir yosma geciyor kaldirimdan;
Kufurler, sarkilar, turkuler, laf atmalar.
Birsey dusuyor elinden yere;
Bir gul olmali;
Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali.

Istanbul’u dinliyorum, gozlerim kapali;
Bir kus cirpiniyor eteklerinde;
Alnin sicak mi, degil mi, biliyorum;
Dudaklarin islak mi, degil mi, biliyorum;
Beyaz bir ay doguyor fistiklarin arkasindan
Kalbinin vurusundan anliyorum;
Istanbul’u dinliyorum.

I am listening to Istanbul

I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed:
At first there is a gentle breeze
And the leaves on the trees
Softly sway;
Out there, far away,
The bells of water-carriers unceasingly ring;
I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.

I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed;
Then suddenly birds fly by,
Flocks of birds, high up, with a hue and cry,
While the nets are drawn in the fishing grounds
And a woman’s feet begin to dabble in the water.
I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.

I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.
The Grand Bazaar’s serene and cool,
An uproar at the hub of the Market,
Mosque yards are full of pigeons.
While hammers bang and clang at the docks
Spring winds bear the smell of sweat;
I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.

I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed;
Still giddy from the revelries of the past,
A seaside mansion with dingy boathouses is fast asleep.
Amid the din and drone of southern winds, reposed,
I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.

I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.
A pretty girl walks by on the sidewalk:
Four-letter words, whistles and songs, rude remarks;
Something falls out of her hand
It is a rose, I guess.
I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.

I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.
A bird flutters round your skirt;
On your brow, is there sweat? Or not? I know.
Are your lips wet? Or not? I know.
A silver moon rises beyond the pine trees:
I can sense it all in your heart’s throbbing.
I am listening to Istanbul, intent, my eyes closed.

Translated by Talat Sait Halman – 1982

Ouço Istanbul

Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.
Vêm primeiro aqueles sopros ligeiros
Que agitam tão suave quanto docemente
As folhas, as árvores e as folhas das árvores.
E lá fora, lá longe, incessantemente,
Tocam e tocam as campainhas dos aguadeiros.
Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.

Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.
E de repente, uma revoada de aves sobe pelo ar:
Bandos de pássaros num restolho de ares e ais
Por sobre as redes que secam nos cais
E um pé de mulher que chapinha no mar.
Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.

Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.
Está calmo; está sereno o Grande Bazar
E por todo ele há um tumulto que perpassa:
São os pombos nos adros das mesquitas a arrulhar.
E os martelos que malham e ressoam em quem passa
Fazem o suor que o vento da Primavera traz pelo ar.
Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.

Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.
Ainda bêbeda das noitadas de outrora,
Há uma casa à beira-mar com sujos embarcadoiros
Que o vento Suão adormece com melodias d’agora.
Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.

Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.
Uma rapariga caminha pelo passeio; e dá para perceber
As palavras de amor que ouve, os piropos, o palavrão.
Cai-lhe ainda qualquer coisa da sua mão:
Uma rosa, pelo que me é dado ver.
Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.

Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.
Uma ave esvoaça-se-lhe pela saia, entretanto.
E aquilo na testa, que é? Suor? Ou não. Eu sei.
Os teus lábios estão molhados? Ou não? Eu sei.
E uma lua de prata surge por detrás dos pinheiros:
Sinto-a totalmente no teu coração, palpitando.
Fecho os olhos, recolho-me e ouço Istanbul.

Tradução de Carlos Trincão
Istanbul, 21 de Abril de 2005

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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Uma resposta a Istanbul’u dinliyorum/ Ouço Instanbul

  1. xatoo diz:

    toc, toc, toc,,,
    tá aqui algum turco?
    ñ percebo para que foi preciso postar o texto na lingua original,,,
    muito menos em “inglixe” mas, enfim,,,
    ficou tão longo, que acho que ão vou ler nada.

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