As touradas e o aborto

Uma eurodeputada alemã apresentou na semana passada uma proposta relativa ao bem-estar animal que implicaria a proibição de touradas na União Europeia. A proposta foi devidamente emendada e as touradas nacionais, como seria de esperar, não estão em perigo – e ainda bem.

Eu detesto touradas e acho lamentável que as pessoas possam divertir-se com o espectáculo de espetar ferros no corpo de um animal. No entanto, tenho consciência que a minha opinião está longe de ser dominante e acho que seria uma violência, em nome de princípios que me parecem excelentes, procurar consagrar na lei a proibição das touradas e impor por via policial os meus excelentes princípios aos outros (o que não implica de modo nenhum que eu abdique de dar a conhecer a minha opinião, na esperança que ela venha algum dia a ser maioritária).

O grande argumento daqueles que se opõem à despenalização do aborto é a defesa da vida, e o seu corolário é que um pingo de sémen que fertiliza um óvulo é tão merecedor da protecção do Estado como a vida de qualquer um de nós. Ora parece-me evidente que a consciência social não acompanha este rigorismo conceptual, e que a esmagadora maioria das pessoas não vê com os mesmos olhos um homicídio ou o aborto de um feto com poucas semanas (e prova disso é que se praticam em Portugal por ano algumas dezenas de milhares de abortos clandestinos, e ninguém no seu perfeito juízo acha que existam dezenas de milhares de homicidas entre nós).

A aproximação entre a questão das touradas e do aborto, apesar de eventualmente chocante, tem uma justificação: se forem vistas através do prisma da moral e não da política, são ambas questões que podem parecer como de “tudo ou nada”, e onde não se aceitam meios termos: a defesa dos direitos dos animais e do “direito à vida” dos fetos por nascer parece impor, uma vez que se aceite os seus pressupostos, uma atitude onde o compromisso não é possível, e onde a defesa dos valores deve primar, se necessário for, sobre uma opinião maioritária em contrário.

Ora assim não é possível viver em sociedade. Se todos tentamos obrigar o próximo a viver segundo os nossos absolutos morais e não nos esforçamos por acomodar as opiniões alheias, vivemos sempre na intolerância e no conflito. O conflito deve existir – mas é o conflito de ideias: quem achar que fazer um aborto até às dez ou doze semanas está a tirar a vida a alguém e a cometer um crime aos olhos de Deus, é livre de o dizer, e de tentar persuadir os outros dessa sua verdade; agora não deve é procurar a ajuda da polícia e da prisão para convencer os incréus.

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SEXTA | António Figueira
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3 respostas a As touradas e o aborto

  1. Patricia San Payo diz:

    Não é possível viver em sociedade quando se decide em função de imperativos morais que para se fazerem passar por dominantes recalcam as mais evidentes circunstâncias que negam, pelo simples facto de serem comuns, a dominância de tais princípios. Não se pode viver em sociedade sem uma certa dose de hipocrisia, mas aqui trata-se de uma hipocrisia demente, de um alheamento da realidade, não de uma forma de contemporização ou de nivelamento, de apagamento das arestas que existe quando se busca o consenso ou o meio termo.

  2. Onde? diz:

    jÁ SE CONSEGUE LER.

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