Jorge Palinhos: A utopia viva

Há 50 anos, a 8 de Outubro de 1956, numa cidadezinha dos arredores de Mineápolis, nos E.U.A, abriu o primeiro centro comercial moderno.

O conceito de espaços comerciais fechados não era novidade – afinal, o maior de todos, o Grande Bazar de Istambul, foi construído no séc. XV, com mais de 4000 lojas a ocuparem quase 60 ruas. Mas, até meados do século XX, estes espaços eram abertos ao exterior e à cidade que os envolvia, com grandiosos pórticos de acesso para peões.

Com a chegada do automóvel nasceram os subúrbios citadinos. E atrás dos subúrbios vieram os centros comerciais como os conhecemos hoje.

O primeiro foi criado por Victor Gruen, um arquitecto judeu austríaco, de simpatias socialistas, que fugiu para os E.U.A. quando a Áustria foi invadida por Hitler.
Inspirado na Galleria Vittorio Emanuele, uma galeria comercial oitocentista de Milão, desenhou então o Centro Comercial de Southdale, modelo de todos os centros comerciais posteriores.

A concepção destes centros é notável pelo seu isolamento e detalhe.

Tem clarabóias para receber a luz do sol e cavernas subterrâneas para acolher os veículos dos visitantes, mas as portas são quase indistinguíveis da parede e o centro vive sobre si próprio. No seu interior, tudo é cuidadosamente planeado. A maioria dos centros comerciais tem só dois pisos, para que a força da gravidade não torne o cliente a renitente a subir a um terceiro ou quarto. Há vistas amplas entre pisos, para que um comprador no piso de baixo possa saber que lojas tem por cima da sua cabeça. As clarabóias que recebem o sol têm também pequenas luzes que se acendem ao crepúsculo para evitar que o visitante do centro se aperceba que está a ficar noite e comece a pensar que talvez seja hora de ir para casa, o ar condicionado mantém uma temperatura amena, as lojas estão dispostas por complementaridade ou tipo de produto: se um cliente comprou um fato caro numa loja, ao sair da loja provavelmente verá que quase ao lado tem também uma sapataria de luxo, para poder complementar o fato, os prontos-a-vestir estão aglomerados, as lojas para crianças também, as lojas de electrodomésticos também, a zona de restauração está convenientemente situada longe de tudo (para que o cheiro a caril não agrida as narinas da senhora que experimenta um vestido Prada) excepto dos cinemas, para que o cliente possa ficar com ideias onde digerir o jantar.

Mais interessante é que as chamadas lojas-âncora – aquelas que motivam o cliente a visitar o centro comercial – estão sempre afastadas entre si, com numerosas lojas menos importantes de entremeio, para incentivar que o cliente as visite e nelas compre, num terno e inesperado momento de capitalismo cooperativo.

Porque, sim, o centro comercial moderno é a verdadeira, viva e resistente utopia capitalista – um local de permanente dia e eterna primavera, onde se pode passar o resto da vida em infinitas compras, ao abrigo das agruras de clima, da rotina e da realidade, em saudável cooperação entre vendedores.

E, tudo isto, graças a um entusiástico socialista.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

Uma resposta a Jorge Palinhos: A utopia viva

  1. agitador diz:

    não foi um bolchevique que inventou muitas das tecnicas usadas actualmente no cinema?

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