“Milagrete” e “Boboneira” no tempo de Sócrates

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Diziam os antigos que quem conhece o nome verdadeiro das coisas tem poder de as controlar. Deus teria criado as coisas nomeando-as.
Uma visita ao serviço de empresas na hora, promovido no âmbito do programa governamental Simplex (mais um expediente cabalístico), revelou-me que o governo tem uma visão muito própria do que deve ser a economia portuguesa. Já toda a gente sabe que temos mais de 400 mil desempregados, quase um milhão de precários e 400 mil pessoas que trabalham através de empresas de trabalho temporário. A maioria das pessoas até já percebeu que em Portugal as soluções são poucas: ou somos criados de mesa no Algarve, ou vamos para um call center ou criamos uma empresa. No futuro, com a implosão do papel do Estado e a destruição dos direitos sociais, feita por sucessivos governos, seremos todos (os que trabalham) empresários sem dinheiro. Bem-vindos ao país dos 10 milhões de patrões!
Como saber é poder, o governo já preveniu as depressões através de um expediente simples. Cada vez que alguém vai constituir uma empresa tem a possibilidade de registar na hora, desde que utilize um menu de palavras livres oferecido pelos serviços. Todos nós podemos ter uma empresa chamada Abóbila, Antrofa, Apopólia, Bambulesco, Bicadinha, Boboneira, Cacarejo, Casa do Chorão, Folhirote, Fraldinhas e Travesuras, Milagrete, Olhonopé, Zoomais (nomes típicos da lista de nomes de empresas livres, disponibilizados pelos serviços, na quarta-feira passada), infelizmente nesse dia já não estavam livres os nomes “Ébano dourado”, “Graças e travessuras” e “Anconelo”… o país progride! Com muita probabilidade seremos miseráveis, mas vamos morrer a rir.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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2 respostas a “Milagrete” e “Boboneira” no tempo de Sócrates

  1. Não creio que morreremos a rir…

    Não posso deixar de me alegrar com a consciência colectiva manifesta ontem… 30 anos de liberdade conquistada sem guerra (e ainda bem!), é muito pouco para uma mudança radical, sem guerra tudo cresce mais devagar, ainda assim prefiro!

    Até sempre!

  2. Teresa Figueira diz:

    Também não creio que morreremos a rir… e apesar disso, gostei deste teu post.
    Mas para que conste, a “consciência colectiva manifesta ontem” contava apenas com 35% de trabalhadores do sector público!

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