Capuchinho Vermelho, o justiceiro

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Num texto de que, de resto, gostei muitíssimo, umas semanas atrás, o Rui Tavares escrevia às tantas a seguinte passagem:

«O interesse pelo caso [da jovem austríaca que foi sequestrada e ficou encerrada dos dez aos dezoito anos numa masmorra] nasce, em primeiro lugar, da preocupação real pelos traumas dos abusos sexuais, uma apreensão recente que por vezes sucumbe à morbidez e ao sensacionalismo, mas que é correcta na sua essência.»

E eu fiquei a pensar nisto: «correcta na sua essência». Será que a preocupação generalizada com os abusos sexuais sobre menores que hoje se vive é, descontada a morbidez e o sensacionalismo, correcta na sua essência? E ainda conseguimos discernir uma essência? As perguntas foram suscitadas, entre outras coisas, pelo facto de ter visto, dois meses antes, um filme que focava o problema das relações entre adultos e adolescentes sob o prisma dos abusos sexuais. Hard Candy parte deste temor: uma rapariga de catorze anos conhece num chat um homem quase duas décadas mais velho e vão tomar café. O encontro corre «bem» e o – por assim dizer – casal segue para casa dele.
Tudo começa aí. Não se pode revelar demasiado para não estragar o filme, mas em casa do fotógrafo os papéis invertem-se: o perseguidor é perseguido, e a jovem caçada é quem prende a sua caça. O que a miúda de 14 anos irá fazer é uma espécie de pregação moral em acto, que mostra ao «sedutor» que toda a sedução de adolescentes por adultos é imoral, inaceitável por mais que o adulto se sinta desafiado, tentado ou incitado. As adolescentes vestem-se e comportam-se muitas vezes de forma hipersexualizada – aliás, as pré-adolescentes também – mas isso não é desculpa. Falo em «pregação moral» porque o filme é carregado de discurso, mas trata-se sobretudo de vingança física, tortura demoradamente praticada pela rapariga em nome de uma amiga abusada em circunstâncias idênticas, e, em geral, em nome de todas as adolescentes. Se o universo das «vítimas» é amplo, o universo dos «acusados» não o é menos: o filme aposta em que estejamos todos, ou quase todos, a ser julgados ali, porque o adulto é um fulano com o ar mais «normal» possível (não um evidente «tarado», não um ostensivo criminoso) e porque a condenação da rapariga é extensível a todos os que alguma vez nas suas cabeças fantasiaram com adolescentes.
Pense-se o que se pensar desta pregação moral (e alguns aspectos fazem sentido), o lado perverso do filme reside em que ele não faz uma mera afirmação deste ponto de vista («moral») contra outro (da «imoralidade»). A coisa curiosa é que o filme joga nos dois tabuleiros, e retira a sua eficácia do facto de jogar nos dois tabuleiros. De um lado, é um filme altamente moralista sobre como não devemos explorar sexualmente as teenagers, não devemos interpretar os seus comportamentos libidinosos como convites ou concordâncias a aventuras sexuais. A plateia satisfaz o seu instinto moralista, comprazendo-se em ver o abusador castigado. Mas, do outro lado, a rapariga que castiga não é de maneira nenhuma uma adolescente vulgar, mas uma rapariga atraente, de maneira que a eficácia do filme também reside no alargamento generalizado da culpa.
O que eu quero dizer é que às tantas o filme inteiro é uma fantasia de homem, e de homem que gosta de miúdas novas. A miúda é ao mesmo tempo criança e ao mesmo tempo omnisciente e omnipotente: é inteligentíssima (o filme assenta num desses irritantes guiões em que cada frase é uma tirada de efeito); e ainda por cima tortura o «sedutor», castiga-o por ele ter desejos que não deve ter (e pelos quais se sente culpado). O castigo é ela quem o exerce – não a lei, sob forma mais ou menos abstracta. Se o filme ganha no tabuleiro da moralidade, ganha também no tabuleiro da fantasia voyeurista, do homem que fantasia uma rapariga inocente e poderosa, e que, ao mesmo tempo, se sente culpado e precisa de ser punido por isso.
A rapariga não fala, nem pensa nem age como uma rapariga de 14 anos. Aliás: a actriz não tem 14 anos, mas 19. O que o filme finge que nos oferece é um discurso moral sobre a atracção por miúdas; o que no fim de contas nos oferece é uma jovem bonita e atraente, com traços andróginos, inteligente para lá da conta, ao mesmo tempo que alimenta a fantasia de que se trata de uma adolescente semi-púbere, plena de inocência, sobre a qual pensar em termos sexuais será um crime análogo ao de pedofilia.

– She is decidedly pretty. I admire her immensely.
– What a thoroughly bad man you must be!
– What do you call a bad man?
– The sort of man who admires innocence.
[Oscar Wilde, A Woman of no Importance]

Um artigo no Economist – sempre essa referência fatal – que li no espaço entre o filme e o texto do Rui Tavares dizia ainda duas coisas curiosas. Primeira: que, de acordo com uma sondagem Gallup efectuada no ano passado, os norte-americanos estão muito mais preocupados com o perigo de um estranho que viole crianças do que com qualquer outro assunto público. 66% manifestam-se «muito preocupados» com esse perigo, face a 52% que manifestam o mesmo sobre o crime violento, ou 36% muito preocupados com o terrorismo. Esta preocupação tem efeitos práticos, como por exemplo o facto de, há dez anos, haver 3 estados com restrições aos sítios onde ex-condenados por abusos sexuais sobre crianças podem viver, contra 14 actualmente, e outros 12 que estão a preparar legislação nesse sentido.

«Um caso típico é o da lei aprovada esta semana em Monroe, New Jersey, que impede condenados por alguns tipos de ofensas sexuais de viverem a menos de 800 metros de qualquer escola, creche, jardim infantil, biblioteca ou local de oração – por outras palavras: de viverem seja onde for.»

Segundo: não só, como é sabido, a maioria dos abusos sexuais é praticada por membros das próprias famílias, como, de acordo com os números disponíveis para os EUA, só 3% dos condenados por esse tipo de abusos reincide no prazo de três anos. Por cada ex-condenado por abusos sexuais que reincide, diz ainda o Economist, há 7 ex-condenados por crimes comuns que abusam sexualmente de crianças.
A preocupação que hoje se vive com o perigo de estranhos vindos da rua abusarem de menores é «correcta na sua essência»? Dificilmente. Muito se poderia especular sobre a relação entre a actual hipersexualização de adolescentes e crianças, que antes referi, e a ansiedade pública. Mas não tenho unhas para isso e são horas de ir dormir.

Para uma recensão muito boa sobre Hard Candy – «the rare movie that may be worthiest for the arguments you’ll have after it’s over» –, aqui. E, para terminar, duas fotos da Ellen Page.

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Sobre Ivan Nunes

QUINTA | Ivan Nunes
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