Vida e Morte de Inocêncio

Autor: Carlos Trincão
 
 Recensão de Vida e Morte de Inocêncio, de Nuno Figueiredo. Editorial Escritor


 Li não sei onde, não sei quando, que um bom livro pode ser facilmente resumido num parágrafo. Não sei se é verdade ou se alguém concorda com tal afirmação. Nem eu sei se concordo. E quem sou eu para concordar com tal afirmação… O que é certo é que, desde essa altura, dou por mim, assim que acabo de ler um livro, a tentar resumi-lo num parágrafo. A ver se dá.
 

Assim sendo, se dissesse que esta é a história de um desenrascado que, em 45 anos de vida, sai da sua terra natal nas Beiras, apanha um barco para Angola, faz fortuna à custa de matreirices, rouba o negócio e a mulher ao sócio, regressa à Metrópole uns meses antes do 25 de Abril e guarda o dinheiro na Suíça, anda por cá com um pé na situação e outro na oposição, no Verão Quente é um grande amigo do PREC mas com o dinheiro ainda na Suíça, regressa à província, chega a Presidente de Câmara, usa a demagogia com uma simplicidade estonteante, ama desalmadamente a sua mulher (a tal que roubou ao sócio de Angola) mas ama também desalmadamente as (outras) mulheres (dos outros), e, no fim, morre afogado numa praia de França, se vos dissesse tudo isto, repito, estaria a resumir não um livro mas a trilogia “VIDA E MORTE DE INOCÊNCIO”.
 

No primeiro volume – “Os Dias Gloriosos do Império” – contada-se a odisseia de Inocêncio Farelo em Angola, onde fez fortuna e refinou a sua esperteza.
 

E onde também o horror da guerra colonial se dá a lembrar. Uma guerra fora das cidades,  que as gentes das cidades fazem por não querer conhecer mas sabem que lá está, numa angústia dissimulada facilmente transformada em pânico: o estrondo das espingardas era tal em certa noite de passagem de ano que ninguém teve dúvidas do fim próximo; afinal não passava de uma caterva de macacos assustados (na manhã seguinte, viera-se a saber, 3333 cadáveres de gorilas, chimpanzés e símios avulsos não identificados) continuamente baleados pelos assustados soldados do posto de sentinela nº 13,  também eles na permanente angústia das incertezas e na angustiante certeza de uma guerra longe de casa.
 

Em  “A Revoada Palavrosa”, o 2º volume, assisti-se ao vendaval revolucionário que passou por Portugal, damos conta de injustiças, sorrimo-nos dos exageros. Admiramo-nos com a facilidade com que Inocêncio e D. Mimi, a sua mulher, flutuam sempre e em segurança no encapelado mar do poder caduco que se afundava e do novo poder que emergia. Basta ver a subtileza com que o “busto do chefe” vai trocando o lugar de honra na residência dos Farelos por outros sucessivamente menos importantes e mais escondidos, até à descompostura final da arrecadação dos tachos… ainda por cima daqueles que já nem D. Mimi utilizava!
 

No 3º volume, “Poder em Bárbaras Mãos”, vai o casal Farelo de abalada até uma terrinha de província para descansar da agitação da capital. Sempre com o dinheiro da Suíça a dar muito jeito.
 

Província é província. Sossegada. Com os seus tiques e personagens. Sossegada. Com os seus importantes. Sossegada. Com os seus pecadilhos.
 

Mimi e Inocêncio cansam-se de não fazer nada. A política é a salvação. As primeiras eleições autárquicas estão à porta. Em terra de cegos quem tem olho é rei. Gente nova na terra traz necessariamente discurso novo (discurso novo, sublinhe-se). E ele ganha facilmente.
 

Interessante é o modo como Nuno de Figueiredo conta a história: em duas ou três ocasiões a narrativa volta atrás, para que o mesmo episódio seja contado por personagens diferentes, de ângulos diferentes. Com muitas páginas de intervalo.
 

É assim, por exemplo, que ficamos a saber que a causa do tropeção de Inocêncio no passeio – e consequente espalhanço – no dia da sua instalação como Presidente da Câmara não se deveu a um mero encontrão do sapato com a calçada, como nos sugere a leitura a escassas páginas do início da obra. A culpa foi da Lolita e da D. Teté, fica-se a saber 280 páginas mais adiante, que, pressurosas e querendo ver o Presidente eleito passar na rua a caminho da glória, provocam a queda de uma vaso de sardinheiras da sua janela, ali mesmo a dois pés do edil. Quase lhe acertava.
 

E  D. Tété, que de tão aflita e debruçada no peitoril nem dava (ou daria?) pelo decote que se abria e generosamente revelava os seios, desancava na outra… Desculpe, implora Lolita a seu lado, eram sardinheiras. E o Presidente, cá de baixo, de olhos enterrados naquela generosidade toda: E que fossem cravos, menina, sabe que podia ser crime político?
 

A campanha eleitoral é um mimo. Até D. Mimi, que dois volumes e centenas de páginas atrás parecia uma sonsinha, vai defender o voto no marido na casa do Beiral, onde as meninas viviam e o homens as visitavam…
 

Pelo meio um socialista convicto, sério, empenhado, morrendo de ideais e de amores pela sua amada. Personagem tão principal como Inocêncio, que já andara pelas páginas dos outros volumes com as mesmas certezas e convicções. Personagem menos mediático, infelizmente, mas como teria que ser num livro como este em que o autor nos pretende mostrar quão fácil é pisar os outros e simples fazer com que se volte atrás mantendo os desatentos na saborosa ilusão de que tudo vai no caminho novo.
 

Pelo meio outras histórias de outros personagens, que encaixam perfeitamente na história, que ajudam a explicar a história e os percursos.
 

Pelo meio de uma história aparentemente leve mas arrepiantemente mordaz muitas verdades pesadas. Ou apenas uma única: a de que com arte e engenho, ainda que sem competência, se pode ir longe. Se deixarmos. E cair depressa. Se estivermos alerta.
 

O livro é grande. Muito grande. A trilogia enorme. Mas tudo se lê quase de assentada porque a história nos prende e não larga mais. Estamos constantemente à espera de mais uma peripécia, de mais uma ideia megalómana do Presidente nunca concretizada. Estamos sempre à espera que Nuno de Figueiredo, julgando-nos desprevenidos, volte atrás e conte mais alguma coisa que ainda não sabemos.
 

O interessante também é que não precisamos do livro anterior para perceber o seguinte.
 

Inglória é a morte de Inocêncio: numa deslocação ao estrangeiro para uma geminação, enquanto esperavam ser recebidos pelo desinteressado Presidente da Câmara de lá e gastando o tempo em passeios ou idas à praia.
 

E é na praia, com a geminação por fazer, que Inocêncio, já meio barrigudo mas querendo mostrar-se ligeiro às cachopas de biquini, vai à água, esbraceja e só volta, sem vida, nos braços dos valorosos estudantes de Coimbra, peritos no mar da Figueira, que acompanharam o Presidente Inocêncio a terras de França numa verdadeira embaixada da terra de Samardã, de onde haviam saído cinco valorosos autocarros pejadinhos de samardenses.
 

Fortunato Ventura, o socialista convicto, toda a vida íntegro, também morre. Mas em Samardã, de desilusão e cansaço, com tiro de pistola auto-infligido.
 

Ia longe, este Inocêncio, ó se ia…

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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2 respostas a Vida e Morte de Inocêncio

  1. confesso que me assustei. é que, pela leitura do 1º parágrafo do teu comentário, pensei que se tratasse da história do Major Valentim Loureiro .(bastava acrecentar umas patifarias mais e algum futebol e não haveria diferença alguma)

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