Dália desbotada

dalia-negra.gifA história é soturna. Trata-se de um famoso e singular homicídio em Hollywood. Uma jovem aspirante ao estrelato foi serrada ao meio. Sangue drenado, rosto e corpo esculpidos com mais uns quantos mimos. O assassino nunca foi encontrado. A moça terminou célebre, sem dúvida.

Apesar de todo este material em bruto, o livro de James Ellroy é mau, mas pessoal. Tratando-se de Brian de Palma, esperar-se-ia que o filme não fosse pior. Mas é pior. E de pessoal tem pouco.

dalia-negra.gifNão é que não tenha o ferrete do autor. Este é, definitivamente, um trabalho de De Palma e o esplendoroso curso da câmara confirma-o insistentemente. Dália Negra nada tem de desleixado. Bem antes pelo contrário. É absolutamente burilado, lavrado até ao osso. Contudo, se o pretexto das beldades condenadas até podia ser bem ao gosto do realizador, De Palma perde-se nos muitos fragmentos legados pela morta. Tanto quanto se embrenha nos olhos dos dois detectives. Um é mau e o outro é bom. Um é gelo e o outro é fogo. Um é louro e o outro é moreno…e duplicam-se no feminino…Enfim…Onde devia estar tragédia, estão comentários sociais. Onde se exigia vigor, espraiam-se puzzles de mil peças. Em vez de entranhas e lâminas, oferecem-nos uma fotografia excepcional. Da paisagem. Cortesia onde devia haver rasgo. Desprezo pela plateia onde se espera gancho. Demasiado enredo, pouco suspense, humor fora de tom, sexo em versão reticências, estranho casting e muitas –demasiadas – camadas, sem unidade ou coerência. Fora isso, está lá tudo.  

dalia-negra.gifLésbicas, perversos, loucos, corruptos, droga. Sem nervo. O que até podia ser caminho. Não fosse ter ficado, assim, tão enfadonho. E se já ninguém se ri com uma certa cena género Addams Family, o melhor ainda é a aparição da assassina zorro estilizada e o mistério em torno da obsessão pelo caso, que consome um dos detectives. Nunca se percebe porquê ou como. Bom. De resto, o homicídio, feito arte nos melhores tempos de De Palma, sumiu. E é pena.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged . Bookmark the permalink.

4 respostas a Dália desbotada

  1. ams diz:

    Ó Joana! “O pretexto … podiam ser” ?

  2. cfreitas diz:

    O filme é execrável e o realizador idem, idem. aspas.
    Alfred faria melhor com o dinheiro gasto!
    Desculpe mas é apenas uma opinião: a minha, depois de ter visto o filme!

  3. joana diz:

    AMS,
    Muito obrigadinha pela devida correcção. Já consta.

  4. Paulo Franzini diz:

    Já podia ter escrito este post antes,escusava de o ter ido ver !:)
    Só não concordo totalmente com a opinião sobre Brian de Palma.Cumprimentos.

Os comentários estão fechados.