Um título lamentável

manchete

Perdoem-me a iconoclastia: o “Correio da Manhã” é o meu diário português preferido. Certo, o DN e o “Público” têm melhor opinião, mais alguma sofisticação intelectual e outros pós de civilização: mas perdem invariavelmente contra o CM se eu os submeto ao teste do value for money, que para mim consiste no seguinte: Pelo mesmo dinheiro, que jornal é que me dá mais tempo de leitura? – tal como, de resto, o CM também perde para “A Bola” ou o “Record” nos pouquíssimos dias em que eu os compro…

Deverá daqui inferir-se que eu só quero junk literature como alimento espiritual? Até certo ponto: os grandes plumitivos nacionais que me perdoem, mas há coisas que eu prefiro ler em publicações estrangeiras, e nas nacionais quero aquilo que só estas me podem dar: futebol, claro, mas também fait-divers, aquilo que hoje se chama, com um ar um tudo nada pedante, “local” e “sociedade”, e que quando eu era pequeno tinha títulos como “Na cidade”, “Dia-a-dia” e “Sangue no Asfalto”. E quem me dá mais dessa dieta é o CM, que reagiu da melhor maneira ao aparecimento do “24 Horas”, reposicionando-se um pouco mais acima na escala que vai do tablóide ao jornal de referência e situando-se naquela posição média do jornal no nonsense que em Inglaterra é ocupada pelo excelente Evening Standard.

O meu problema com o CM é que, em vez de se conformar em ser o Evening Standard – um jornal de factos (se é que tal coisa existe…), esforçadamente neutral e incontroverso – o CM insiste, por obscuras razões (e cometendo, do meu ponto de vista, um grosseiro erro de cálculo) em querer ser antes um Daily Mail nacional, ou seja, um jornal tão terra-a-terra como o primeiro, mas com uma agenda própria, uma agenda político-social conservadora que o torna no porta-voz da chamada “middle England”. Em resumo, o que é que define o Daily Mail? O Daily Mail é o jornal dos preconceitos: em matéria de costumes, não gosta de modernices, é xenófobo senão racista q.b. e apoia sempre a law’n’order.

Ora é a isto que o CM aspira – não percebendo, acho eu, que há uma incompatibilidade fundamental entre explorar os preconceitos da lower middle class e ser um jornal socialmente aceitável para os restantes leitores (quantos visitantes de blogues têm “lata” de dizer que lêem o CM?) E em que é que se traduz esse militantismo político-social do CM? Dantes constituía uma hidden agenda, verificável sobretudo no relato dos casos de polícia: quando havia negros envolvidos, era invariável a menção que o criminoso era de “raça negra” (sic, e embora tal menção fosse evidentemente omissa nos crimes cometidos por indivíduos de “raça branca”, claro), se o violador tinha sotaque brasileiro, esse pormenor linguístico era inevitavelmente referido (por mais que custasse a entender sua relevância) e então se o meliante era cigano, a frase feita é que era de “etnia cigana” (e os outros portugueses, serão de que etnia?)

Todos estes exercícios de racismo vulgar eram (e continuam a ser) feitos e refeitos, quase dia sim, dia sim, sem que nenhuma Alta-Autoridade, Provedor, Observador ou seja lá o que for entenda necessário mexer um dedo ou dizer uma palavra. Seja; é o outro lado dos nossos brandos costumes. Mas o CM temeu ser incompreendido, e achou necessário que a sua agenda deixasse de ser hidden e fosse exposta à luz do dia: e daí aquele espantoso Estatuto Editorial dado à estampa há menos de duas semanas, com as suas caricatas referências às “raízes cristãs” de Portugal, já aqui glosado pelo Nuno Ramos de Almeida, ao seu estilo particular.

Mas o CM não pára, e animado por este espírito de cruzada publicou no dia 4 de Outubro uma das mais lamentáveis manchetes da imprensa portuguesa dos últimos anos. Os factos prévios são conhecidos: a GNR mandou parar uns presumíveis delinquentes em fuga, estes não pararam e sucedeu-se uma perseguição, no fim da qual um guarda fez fogo com uma pistola-metralhadora sobre os fugitivos, abatendo um deles (de 21 anos) e enviando um outro baleado para o hospital. A manchete do dia seguinte do CM (e uma manchete do CM É UMA MANCHETE) era a seguinte: “Fugitivos à GNR têm cadastro” (e só lá dentro especifica que, conforme uma prestimosa fonte policial tinha informado, dos quatro fugitivos, dois eram efectivamente cadastrados, mas os restantes eram apenas “referenciados” – o que me é uma categoria sócio-policial notável…).

Parece assim que, embora nada indicasse que os fugitivos estivessem armados (como não estavam), o guarda que disparou não tivesse recebido treino para usar a arma que usou (terá afirmado à PJ que os seus superiores lhe tinham dito que aquelas balas eram muito caras para usar em treinos…) e ainda tenham sido dadas umas coronhadas nos presos (visíveis nas respectivas faces), este episódio de incompetência e violência policial gravíssimo está justificado porque, como diria o leitor que partilha “as raízes cristãs” do CM , o morto é que não tinha nada que fugir, e ainda para mais, como informa (e de que maneira!) o CM, o morto era cadastrado (ou simplesmente “referenciado”…), o que a GNR deve certamente ter lido nas estrelas, quando diz que o matou sem querer… Só não percebo muito bem é como é que títulos destes se compaginam com as referências ao “direito à vida” no referido Estatuto Editorial – mas não faz mal, porque o público que o CM toma por seu e a quem faz gala em dirigir-se também não se importa com essas coisas.

PS: A título de comparação, registe-se o tratamento exemplar dado pelo “Público” a esta notícia: mais discreto, mas ainda assim com uma chamada de primeira página (afinal, não é todos os dias que a GNR anda a matar pessoas, felizmente), sob o título “Agente que baleou jovens em fuga só tinha dado cinco tiros com metralhadora utilizada”, e com uma notícia no interior que não perde em pormenor informativo para o CM – com a vantagem de confrontar mais amplamente as várias versões do acontecimento. Quanto ao DN, não chamou o tema à capa, nem tão pouco transformou, como se devia, esta “local” do Porto numa notícia nacional.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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22 respostas a Um título lamentável

  1. Observador diz:

    Ou seja o António Figueira só quer noticias PC em jornais PC.
    A realidade é: os tipos fugiram ou não fugiram quando a policia os mandou parar ? Os tipos cometeram ou não um conjunto grave de infracções que poderiam ter consequências graves para terceiros ( andar em contra-mão, passar sinais vermelhos, conduzirem alcoolizados/drogados, etc) ?
    O que os Antónios Figueira deste país querem com isto é intimidar a policia de maneira a que os fora-da-lei fiquem impunes e depois o que seguirá ? A resposta é fácil: os cidadãos passam a organizar-se para auto-defesa e depois ainda poderá ser pior…

  2. António Figueira diz:

    Os “tipos”, para usar a sua expressão, cometeram uma data de crimes – mas para os quais não está prevista a pena de morte. O António Figueira não quer intimidar ninguém – mas gostaria de viver num Estado de direito, e ter de preocupar-se apenas com os delinquentes e não com os polícias que imitam os delinquentes. E quanto à possibilidade de alguns cidadãos com o sangue na guelra tomarem a lei nas suas mãos, a hipótese não me assusta.

  3. Luís Lavoura diz:

    “este episódio de incompetência e violência policial gravíssimo”

    Tretas de “esquerda”.

    O que nós temos é uns meliantes que fizeram 30 por 1 linha nas ruas do Porto, pondo com o seu veículo em perigo a vida de diversos cidadãos. Passaram semáforos vermelhos, circularam em contramão, excesso de velocidade, etc. Podiam ter matado muito bom e honesto cidadão. Podiam ter-se matado a si mesmos.

    Nada disto aconteceu, felizmente. Felizmente houve um polícia que abateu um deles, e outros polícias que deram umas coronhadas nos cúmplices. Que sirva de lição a essa cambada.

    Sou um pai de família, e espero nunca ser morto num cruzamento por uns adolescentes a 120 à hora que furam um vermelho a fugir à polícia. Prefiro mil vezes que eles sejam abatidos como cães. Não fazem cá falta, há muitos imigrantes a vir do Senegal todos os dias.

    Luís Lavoura

  4. António Figueira diz:

    Sr. Luís Lavoura: Também sou um pai de família, e também espero nunca ser morto, num cruzamento ou noutro sítio qualquer. À parte isso, acho moralmente repugnantes as suas considerações sobre “as lições” dadas “à cambada” ou a sugestão de abater delinquentes “como cães”. O título do CM sugere a barbárie; o Sr. Lavoura afirma-se um bárbaro.

  5. Manel diz:

    Pois… se fosse um imigrante provavelmente nem tinha chamadas de primeira página. Nunca pensei que fosse do interesse de um pai de família que @ seu filh@, se tivesse o azar de ir no banco de trás do carro de um amigo armado ao pingarelho que se metesse em peripécias idênticas, pudesse ser morto pela polícia. Nunca pensei que a selva autoritária fosse o melhor ambiente para criar filhos… humanos, claro está. Mas mesmo no que toca aos cães a coisa não está bonita, que na selva safam-se melhor as hienas.

  6. Vital Verissimo diz:

    Sinceramente fiquei farto do autoritarismo e das prepotências das chamadas «forças da ordem» do tempo da «outra senhora».Hoje estamos em democracia e temos liberdade, e por isso, muito mais responsabilidade pelos actos que praticamos, pois se assim não for isto transforma-se numa selva(que já é).Ora acontece que há indivíduos que abusam da liberdade para atentarem contra a vida dos outros – pessoas, as mais das vezes pacatas que vão no seu caminho de regresso a casa depois de um dia de trabalho- e são assaltadas( como ainda há pouco tempo me aconteceu) ou são atropeladas etc por indivíduos marginais,perigosissimos, são musculados e quase sempre armados, e que quando são mandados parar pela polícia fogem ou disparam, devemos ser condescendentes com eles?meus senhores,não enterrem a democracia e a liberdade.É que esses bandidos só prejudicam os fracos, os velhos, os que andam na rua e nunca os ricos,que estão sempre resguardados.

  7. António Figueira diz:

    Longe de mim querer enterrar a democracia e a liberdade, e concordo obviamente consigo quando diz que quem menos tem e menos pode é quem mais sofre com o crime, mas também creio firmemente que a democracia e a liberdade não se salvarão se tolerarmos que as forças da lei possam fazer, com impunidade, um uso tão gritantemente desproporcionado das armas de fogo de que dispõem para sua defesa e defesa dos demais cidadãos: a polícia aplica a lei, não está acima dela.

  8. Lord Jeremias diz:

    então meu caro antónio figueira, o que é um “uso tão gritantemente desproporcionado das armas de fogo” ? o que entendo do seu texto é que independemente de os tipos andarem em cima de passeios e contra mão, a 100 e muitos à hora no meio da cidade , de terem desobedecido À ordem de paragem e mais uma carrada de tropelias a GNR nunca poderia atirar contra os pneus ou tentar abalroar o carro para o parar.
    engraçada essa sua ideia de autoridade. quer dizer, tipos totalmente irresponsáveis, para não lhe chamar assassinos à espera de uma oportunidade, andam no meio da cidade pondo em risco a vida de qq cidadão incauto que por ali ande e a gnr não pode fazer nada a não ser pedir-lhes delicadamente para parar e serem presos.
    podemos discordar da pontaria ou preparação do GNR agora, de maneira nenhuma ele não tinha o direito de disparar (para os pneus note-se). a força, letal se necessária, deve ser usada sempre que criminosos ponham em risco a vida de outros cidadãos.
    e isto implica que se uma situação tem tudo para criar outra tragédia, tal como esta em que bastava alguem ir na rua para ser atropelado mortalmente, as forças da autoridade têm de agir.
    quer dizer, senão estamos todos refens de nossas casas que será o único sítio onde não nos pode acontecer algo. [e mesmo assim…]
    o meu caro antónio figueira acha que a força só pode ser usada contra alguém que use a força violentamente contra outro alguem ali à vista. agora discordamos é que essa força tenha de ser obrigatoriamente com uma arma e teha de estar alguem sobre a mira. um carro a +de120 km/h em plena zona povoada é uma arma à espera de disparar. e mal estariamos nós se as forças da autoridade não pudessem parar este tipo de actos.
    foi uma infelicidade os tipos terem sido baleados?…bem não posso dizer que vou sentir a sua falta, embora obviamente é uma pena que o tenham sido. agora não creio que fosse essa a intenção do agente e não posso concordar com o seu sacrificio no altar das “gentes bem pensantes” que confundem qq tipo de autoridade com a velha ditadura pidesca e para quem tudo é permitido excepto se for policia…

  9. Luís Lavoura diz:

    Sr António Figueira,

    o senhor compreenda, claramente, que um automóvel é uma arma. Quem anda de automóvel a 100 à hora no meio de uma cidade, furando sinais vermelhos e andando em sentidos proibidos, é equivalente a quem pega numa metralhadora e desata a disparar rajadas, ora para um lado ora para o outro, no meio da cidade. Se não mata ninguém, é por mero acaso. Quem tem tais comportamentos tem que ser imediatamente travado, pela sua perigosidade.

    Foi o que a polícia, muito bem, fez. Travou indivíduos que estavam a pôr em perigo, de forma sistemática e enlouquecida, a vida de transeuntes inocentes.

    Mais compreenda que a vida humana, como qualquer outro bem, está sujeita à lei da oferta e da procura – desvaloriza-se quando existe em excesso. Num mundo em que temos às nossas portas milhares de africanos esforçados, denodados, bem comportados, prontos a entrar, quem está descontente com esta nossa sociedae e se porta mal torna-se, pura e simplesmente, dispensável. Pode ser, facilmente e com vantagem, substituído por quem se porte bem.

    Quanto ao comentário do Manel, sabemos, pelo próprio relato de um jovem que ia no carro baleado, que esse carro não tinha seguro e que, quando mandados parar pela polícia, todos os ocupantes concordaram em fugir. Os ocupantes do banco de trás, inclusive o que morreu, eram pois cúmplices da fuga. Ainda bem que foi um dos ocupantes do banco de trás, e não o condutor, que morreu – porque, caso contrário, o carro teria batido em outros e causado prejuízo a terceiros.

  10. António Figueira diz:

    Luís Lavoura,
    Mea culpa por não ter percebido o seu humor negro (senegalês) mais cedo;

    Lord Jeremias,
    Não sei se sou “bem pensante” (prefiro pensar que sim), mas não me passa pela cabeça confundir a GNR com a PIDE ou achar que houve algum tipo de intencionalidade na morte em causa; preocupa-me sim o respeito dos direitos fundamentais pelas forças policiais e tendo a concordar com o Inspector-Geral da Administração Interna quando este diz que, em situações semelhantes, mais vale deixar os delinquentes fugir do que disparar (lembro que estamos a penseguir gente que cometeu infracções de trânsito e não homicídios, e que está desarmada).

  11. Observador diz:

    Parece que o Sr. António Figueira não apreende o minimo. Já lhe foi explicado que um carro nas mãos de tipos que fazem o que estes aqui fizeram é equivalente a uma metralhadora nas mãos e a disparar para tudo o que é sitio. Pode ou não morrer alguém ( e aqui felizmente só morreram meliantes).
    Em resumo o que o sr. António Figueira quer passar no seu post é uma mensagem básica: o “bom selvagem” pode fazer tudo o que lhe dá na gana, o “mau policia” (mau é um pleonasmo pois para estes senhores um policia é sempre mau por definição) é que tem a culpa de tudo inclusivé se calhar de existirem os tais “selvagens”.
    Só espero que ao sr. António Figueira ou alguém próximo quando for asaltado ou ferido por um desses “bons selvagens” não se lembre de ir ter com um policia para que o defendam.
    E por fim lembre-se que, como aqui já foi dito, que as vitimas destes tipos não são os “ricos”, pois esses estão bem protegidos, mas sim os pobres que andam pelas ruas das cidades.

  12. António Figueira diz:

    Ao Observador das 16h45:
    A leitura do seu comentário leva-me a descrer da teoria do “bom selvagem” e obriga-me a concordar consigo: isto de facto anda cheio de selvagens, mas não são dos bons.

  13. Luís Lavoura diz:

    “tendo a concordar com o Inspector-Geral da Administração Interna quando este diz que, em situações semelhantes, mais vale deixar os delinquentes fugir do que disparar”

    Como???

    Quer isto dizer que um bandido, se tiver um carro à mão, deve ser deixado fugir em paz?

    Quer isto dizer que é tudo uma questão técnica – ter ou não um carro mais potente do que o da polícia, e ter ou não a perícia e a sorte de conseguir conduzi-lo suficientemente depressa para escapar?

    A isso se reduz a total impotência das forças da ordem?

    Senhor António Figueira, ser de esquerda, como eu sou, é defender os direitos básicos de pobres, excluídos e desprotegidos. Não é defender meliantes irresponsáveis nem assassinos em potência.

    Tenha tento!!!

  14. António Figueira diz:

    E quem disse ao Senhor que eu sou de direita ou sou de esquerda? Lá por o senhor ser Lavoura, on n’a pas gardé les moutons ensemble…

  15. Lord Jeremias diz:

    “(lembro que estamos a penseguir gente que cometeu infracções de trânsito e não homicídios, e que está desarmada). ”
    não antónio, o que o GNR estava a perseguir foram pessoas provavelmente já com comportamentos/atitude/aparência suspeitos a quem foi dada ordem de paragem e identificação e que se recusaram.
    O(s) GNR(s) na altura não faziam a mínima ideia se era apenas tipos com uns copos a mais, se traficantes de droga com o fornecimento do mês na bagagem se raptores/violadores com a vitima na bagageira.
    ora, se você não sabe que tipo de pessoas/acções está a decorrer e observa dps toda telenovela/prémio de F1 urbano que se seguiu dps tem de presumir o pior e portanto tomar as atitudes que julgar necessárias para terminar a situação.
    bem, talvez o Sr Inspector da administração venha dps lamentar que apareça vitimas violadas e sequestradas no seu próprio carro, ou a quantidade de droga imensa que circula na nossa sociedade, mas vai na volta digo eu na minha ingenuidade se as autoridades não tivessem de mãos e pés atados com mil e um garantismos absurdos a coisa corresse melhor.
    exemplo? além deste caso, em que toda a “gente bem pensante” [e sim, não sei se é a gente bempensante a que me refiro mas por este post presumo que sim] critica as acções do GNR com base nos conhecimentos que se teve dps de ter ocorrido [criticar as acções passadas é fácil, díficil é acertar sempre no presente…] tem aquela maravilha de lei/regra que supostamente indica que quando se faz uma barragem de estrada tem de se deixar a berma livre para o criminoso não bater com ocarro coitado. ora se é um cidadão honesto sem nada a temer podemos presumir que vai parar quando lhe é dado ordem. se não vai parar então podemos presumir que não está de boa fé e portanto não percebo tais regras que só impedem as forças da autoridade de ter qq tipo de acção eficaz.

  16. António Figueira diz:

    Respeito a sua condição de Lord, mas vou ficar por aqui: V. mesmo o diz: eles têm “comportamentos/atitudes/aparência” suspeitos – e a comportamentos, atitudes e aparências suspeitos (e desarmados, repito) não se contrapõe o uso de armas de fogo, ainda para mais por guardas mal treinados. Se V. não percebe isso, lamento; eu quero, evidentemente, defender-me do crime – mas o meu modelo de polícia ideal será mais uma polícia respeitadora da Convenção Europeia dos Direitos do Homem que a de uma polícia de uma república das bananas com o dedo demasiado leve no gatilho; eu prefiro o estilo da terra dos Lordes propriamente ditos, registo que Lord Jeremias prefere o da Baixada Fluminense.
    PS: Quanto àquilo a que chama “garantismos”, são o tributo que a humanidade civilizada deve pagar ao Estado de direito; são chatos de pagar porém fundamentais.

  17. Manel diz:

    Parece que a RTP não está mais que de acordo com o espírito dos tempos quando coloca o Salazar na lista dos grandes portugueses. De acordo com a biografia que coloca on-line, ainda hoje “a polémica está instalada” sobre se foi um ditador ou o salvador da pátria.

    Assim, só posso lamentar, esta leva de comentários. Que mais fazer? Não é possível argumentar com pessoas tão seguras de si e do mundo e dos outros e de que o agente que disparou sabia que os que iam no banco de trás tinham concordado em fugir, e até que havia cadastrados e referenciados, e de que os nossos filhos hão-de estar nos passeios à espera do carro-arma e os filhos deles, dos outros, dos cães, andam aí nas esquinas prontos a atacar os inocentes, nascidos não se sabe donde, mas não de nós, que nós não temos culpa de nada, nós só andamos aqui nas nossas vidinhas e pronto.

    32 anos de democracia. Palavra que continua a querer dizer nada para aqueles que mais se atiçam a defendê-la. O mundo está assim, porque não os portuguesinhos?

  18. Lord Jeremias diz:

    “e a comportamentos, atitudes e aparências suspeitos (e desarmados, repito) não se contrapõe o uso de armas de fogo”
    como lhe disse meu caro antónio, o guarda nem ninguém sabia que ele estavam desarmados.
    e o seu crime não é o ter comportamentos, atitudes e aparencia suspeita. é o conjugarem tudo isso, com uma desobediência clara às ordens e uma fuga assassina por uma zona povoada.
    tudo junto o veredicto de qq pessoa que os persiga é que estes só podem ser ou crimonoso ou irresponsáveis que estão a perigar a vida de outros, esses sim totalmente inocentes.
    e repare que eu nao critiquei as garantias de um estado de direito e a presunção de inocencia. critiquei foi o excesso de”garantismos” , consequência do trauma do antigo regime que leva ao exemplo absurdo que lhe apontei. que numa barreira para parar fugitivos se deixe uma abertura não vão eles aleijar-se coitadinhos.
    uma coisa é uma dose normal de garantias e contra provas que garanta q um cidadão inocente não pode ser persguido por algum agente perturbado ou corrupto ou pelo próprio estado. outra é absurdo a que chegamos que faz com qq tentativa de impor a lei seja ineficaz e posteriormente criticada como aqui se viu. acho que consegue perceber a diferença entre os dois?!
    e quanto ao lord, agradeço mas tenho condição plebeia mesmo. é um nick como qq outro.
    e já agora, a falta de treino das policias tb se deve ao medo político que se tem, mais uma vez resultado dos traumas da antiga senhora, em aumentar para níveis decentes o financiamento, apoio e acima de tudo a imagem da autoridade no nosso burgo. que sim, está cada vez mais a caminhar para a baixada fluminense (seja lá onde isso for) mas exactamente pq quando se retira um dose qb de ordem e autoridade ela ausenta-se por completo para regressar em Grande…

  19. Lord Jeremias diz:

    e já agora um ponto que há que frisar. eu estou a assumir que o Agente queria realmente atingir apenas os pneus, e que quer por ser um veículo em movimento, quer por falta de treino quer eventualmente pela tal “inclinação” da rua atingiu os bancos de trás.
    note-se que nunca no argumento admiti que se disparasse à queima roupa com intenção de matar ou lavejar os ocupantes. isso obviamente que discordo. nesta situação.
    agora o alvejar dos pneus não é só admitivel como, nesta situação, obrigatório!
    e sim caro Manel, o agente da autoridade tem que admitir que haverá pessoas nos passeios na sua “vidinha” e pronto , como é hábito no porto como em qq outra zona povoada e q portanto tem o dever de as defender… presumo eu que foi para isso que foram criadas as forças da autoridade não?

  20. Manel diz:

    Não sei, diga-me o lord para que efeito foram criadas as forças de segurança. Assim de repente lembro-me dos mais heterogéneos – e descontrolados – exemplos.

  21. Observador diz:

    Para o Sr. António Figueira
    Pois é eu sou mais pessimista e considero que a sociedade deve educar os bons e maus “selvagens” para os transformar em cidadãos que respeitem os direitos dos outros e isso passa por respeitar as leis e não andarem a fugir à autoridade democrática.
    Percebo muito bem que os “Antónios Figueira” tenham um objectivo na vida que é a destruição da sociedade tal qual a conhecemos para construir uma outra, da qual com o desaparecimento da Albânia do grande lider Enver Hoxa, deixou de ter um modelo fixo.
    Os “Antónios Figueira” usam sempre os mesmos métodos que passam pela intimidação da policia como ponto de partida para o seu combate politico. O azar deles é que esse tipo de tactica já é velho e já não passa assim à primeira (vejamos o grande números de comentáros aeste seu post).

  22. António Figueira diz:

    V.engana-se, caro Observador: o António Figueira (pelo menos este António Figueira) tem objectivos na vida bem mais simples do que aqueles que V. lhe atribui, e que passam neste momento por ver-se livre de um comentador louco que totalmente a despropósito o mete no mesmo saco do horrível Enver Hoxa. Comments off from now on.

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