Fadistas do meu bairro

– O 5 Dias nasceu como um portal de opinião, e não como um blogue – fez-me notar uma voz amiga – por isso trata de arranjar colaboradores, amigos, heterónimos, quem tu quiseres, para me compores essas terças-feiras. Compreendi a urgência do seu conselho e voltei ao Campo de Ourique da minha juventude, à procura de adolescentes tardios que se prestassem à função e ainda tivessem alguma coisa a dizer. Encontrei poucos: o bairro está agora perigosamente colado às Amoreiras, o João Peste já não exerce o seu pernicioso magistério e mesmo o velho Alberto Lopes já não escreve como em 75, com uma caneta Futura preta, sobre os cartazes do MDP-CDE, que “o fascismo e o imperialismo são tigres de papel”. Os tempos estão miseravelmente pacificados, as únicas drogas em circulação são prodigiosamente duras e eu próprio já mudei de freguesia há mais de vinte anos, mas ainda assim encontrei quem se dispusesse a representar esse lamentável papel. Chama-se Helder A. (um dia posso explicar porquê) e passa escrever aqui às terças-feiras, logo a seguir ao Glen Baxter, até que a fúria popular o conduza ao (merecido) cadafalso.
 

Em duas palavras, por Helder A.
 

Pegava no currículo de Direito e deixava lá uma única cadeira, “Das Cadeiras em Geral”, com sebenta em dois vastos volumes, editada de preferência pela Almedina e escrita por algum antigo ministro do Prof. Oliveira Salazar (no final do quinto ano, para assinalar cinco anos de puro desperdício, haveria um único exame, um exame-súmula, um caldeirão jurídico que consistiria na prova de um hábil manejo dos códigos por parte do examinando, o mestre pedir-lhe-ia um artigo difícil e ele, de olhos fechados, encontrava-o logo à primeira com os seus dedinhos lestos).

Acabava com as bandas todas e mandava o R. saltar para o palco imitar o vocalista, o guitarrista, o baterista & o baixo, sem som nem nada, e depois ficava a gozar o prato à distância, até o produto acabar, o R. desmaiar de exaustão ou alguém desligar a electricidade e ficar tudo calado e às escuras (o público que interpretasse então o silêncio, se quisesse: como a música anda de péssima qualidade, só pode ganhar com uma dieta assim, este silêncio são as cinzas de que poderá renascer um dia).

(Isto na música; no desporto, atacaria em primeiro lugar, por causa do irritante high moral ground que reivindicam, os jogos olímpicos, que, mesmo se apenas de quatro em quatro anos, são sempre uma maçada e uma despesa:) Acabava com as modalidades todas e ficava só uma, a “pose olímpica”, ganhava o mais garboso e pronto, era o único que verdadeiramente merecia, uma só medalha, um só hino, uma só cerimónia, le tout vite fait, uma tremenda economia.

Sonho com um futebol parado, onde nunca nada aconteça, ninguém perca, ninguém se magoe, onde os campeonatos não comecem nunca, nem muito menos cheguem ao Natal, onde todos sejamos campeões, tomba-gigantes de gigantes que nunca tombaram. Sonho com um futebol falado, uma conversa sem fim e sem propósito, recordado em vez de visto, descrito em vez de jogado, o futebol de senhores que devia haver no lugar do futebol de carroceiros que há. Se eu mandasse (ai, se eu mandasse!…), se eu mandasse (mas quem disse que eu queria mandar?), se eu mandasse (apenas, sem excessos, como um bom pai de família), suspendiam-se os jogos, dissolviam-se os clubes, depurava-se o público e acabava-se com o futebol de vez, sempre por amor ao futebol. As vitórias morais da minha infância confundir-se-iam assim com as vitórias propriamente ditas, que sempre invejaram, em cujo encalço sempre seguiram e cuja sombra sempre habitaram; subversivamente, os campeões passariam a ser sempre justos; e enfim, vasto como a vida, o futebol confundir-se-ia em definitivo com ela, deixaria de ser a chatice de desporto que alguns aindam teimam que ele é para passar a ser a musa, o mote, a filosofia que sempre será.

Em duas palavras, a crescente complexidade do real requer uma redução drástica da nossa disponibilidade mental; em duas palavras, é preciso apreender menos para perceber melhor (no further comments, j’en peux rien pour vous, quem ainda não percebeu que meta explicador).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Fadistas do meu bairro

  1. redhot diz:

    Já estava a ficar preocupado com o desaparecimento (ou melhor, com o não aparecimento) do Helder A.
    Afinal ele continua “alive and kicking”.

  2. António Figueira diz:

    Como diria o Helder A. “on ne peut rien te cacher”…

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