Jorge Palinhos: A América vulnerável

Oliver Stone, World Trade Center

World Trade Center, o filme de Oliver Stone, é uma obra peculiar. Toma como assunto o mais mediático e global atentado da última década e fá-lo parecer um filme sobre a queda do telhado da junta de freguesia local. O atentado é tratado de forma tão elíptica e recatada, e as suas consequências de forma tão restrita e intimista, que um extraterrestre que chegasse neste momento à Terra e assistisse ao filme para tentar perceber o que se passou, não lhe atribuiria mais importância que a um incidente local.

Curiosamente, é justamente essa contenção que acaba por dar força emocional ao filme, permitindo-lhe ziguezaguear pelo terreno minado do melodrama televisivo, para atingir o patamar de um filme de alguma intensidade emocional.

Politicamente, não é um filme neutro e agradará a muitos conservadores e apologistas da América de George W. Bush. Porém, este mesmo espectador, embalado pelos valores de família e defesa da invasão do Iraque, talvez não se aperceba da estranha caracterização que o filme faz do poder da América, dos americanos e das instituições americanas.

O enredo é curto: A 11 de Setembro de 2001 um grupo de polícias de Nova Iorque entra nas Torres Gémeas para tentar salvar vítimas, mas ficam soterrados sob escombros quando as torres desabam.

Um filme do género catástrofe, portanto, mas ao contrário dos seus filmes aparentados, o World Trade Center prima pela ausência de um herói, americano, bem entendido. Antes, o que sobressai nesta obra é a falta de preparação das autoridades americanas. Os polícias são levados para o local da catástrofe e pouco mais fazem que olhar horrorizados enquanto corpos tombam das torres. Nenhum deles parece fazer a mínima ideia do que deve fazer, nem tão pouco sabe o que se passa. Os seus líderes pouco mais preparados ou sabedores parecem, liderando mais por palpite e ouvir dizer que por autoridade. E nenhum exibe especial impulso para o heroísmo. Quando o sargento John McLoughlin pede voluntários entre os seus homens para entrar nas Torres e tentar salvar vítimas, apenas dois ou três se oferecem e, segundo diz mais tarde um dos voluntários, William Jimeno, só o fazem porque a recusa os faria sentir mal.

Já o próprio salvamento dos protagonistas é feito por um grupo muito heterogéneo e assaz subequipado de salvadores, alguns deles heróis de ocasião, mais motivados pela busca de auto-redenção – como é o caso da personagem de um paramédico – que por patriotismo ou solidariedade.
E todo o salvamento é baseado no improviso, entrecortado de hesitações e de medo, por parte dos próprios salvadores, de se tornarem vítimas também.

Não importa se estes aspectos se baseiam em factos verídicos ou não, pois tornaram-se ficção a partir do momento em que foram escritos num guião e interpretados por actores, mas é notável a distância que as separa das imagens de hiperpotência da América que os media nos vendem e das imagens de justiça infinita e heroísmo que George W. Bush proclama nos seus discursos.

Mas ao contrário dos discursos de George W. Bush, talvez seja esta mesma imagem de incompetência, ignorância, hesitação, cobardia, improviso e fragilidade que venha salvar a imagem da América perante o mundo e lhe dê uma face profundamente humana.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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4 respostas a Jorge Palinhos: A América vulnerável

  1. Luís Lavoura diz:

    Não sabe a diferença entre “sobre” (= por cima de) e “sob (= por baixo de)?

    Não se fica soterrado sobre os escombros, mas sim sob os escombros.

  2. Se tudo isso ressalta do filme de Stone, é por acaso. O Homem só queria fazer um filme “humano” (???). Stone não está sobre mas sob o controlo da sua criatividade.

  3. Ana diz:

    É apenas um ponto de vista, e vale o que vale, e apesar de ser baseado em facto reais é um filme e não um documentário tem que ser visto como tal.
    Talvez estivesse à espera do típico filme grandiosa-catástrofe-com-heróis-americanos-tipo-equipas-swat-hiper-preparadas-sem-medos-e-sem-hesitações.
    Certamente esse filme existirá, só que simplesmente não é este.
    Com certeza que tem o direito à sua opinião, que vale tanto como o ponto de vista, mas sinto uma certa prepotência nas suas palavras.
    E talvez essa “mesma imagem de incompetência, ignorância, hesitação, cobardia, improviso e fragilidade” seja apenas cagaço – e esse, garanto-lhe que é humano e universal.

  4. Jorge Palinhos:

    É mesmo só para saudar, o regresso. Já tinha saudades destas leituras.

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