A espiral da redução

A já célebre Lei de Godwin: numa qualquer discussão (originalmente na internet, mas pode aplicar-se a outros suportes), a probabilidade de os nazis ou Hitler serem citados em comparação com o adversário aproxima-se de um. Mais tarde ou mais cedo, corre o risco de ocorrer. Corolário: o autor da comparação a Hitler perde a discussão. Leo Strauss ridicularizava este tipo de retórica chamando-lhe a reductio ad hitlerum.

Com isto em mente, vejamos um artigo de opinião no Público de hoje “O aborto: as razões e a vergonha”, por Mário Pinto [link só para assinantes]. A comparação aos nazis (e a Stalin também, por segurança) demora exactamente… um parágrafo a aparecer.

«É um golpe baixo da propaganda ideológica e política a favor da legalização do aborto lançar agora a campanha de que a motivação da defesa daquela punição é ver as mulheres na cadeia. Só os Goebbels e os Estalines estão à altura de uma tal calúnia.»


Mário Pinto é um craque da Lei de Godwin: não só marca um golo na própria baliza, como faz questão de o marcar no primeiro minuto de jogo. Deixemos de lado que a lei que Mário Pinto defende determina a prisão por crime de aborto: esse é o resultado; se é a motivação ou não (e ver os criminosos castigados costuma ser uma motivação, nas leis que cada um defende e considera justas) é matéria para filigrana semântica.

Mais importante é ver outros dois passos do artigo de Mário Pinto. O primeiro é uma defesa da utilização de imagens chocantes na campanha para o referendo:

«Esconder, fazer evaporar a vítima do crime, é tão importante que se faz tabu de mostrar as técnicas do aborto e os restos mortais do embrião, do feto abortado. Qualquer pessoa razoável poderá então interrogar-se: mas porque é que se não hão-de mostrar-se as técnicas do aborto? E até os embriões e bebés abortados? Mostrar honradamente o horror não é imoral; imoral é escondê-lo, [LEI de GODWIN: OCORRÊNCIA #2] como se fez nos campos de concentração nazis.»

Quando alguém precisa de mostrar embriões abortados para ganhar uma discussão, podemos dizer que o desespero é grande. Chamem-lhe a Lei de Pinto. Mas o texto não acaba aqui, sem antes entrar no muito divertido domínio das teorias da conspiração, tão desacreditadas se aplicadas a outras realidades. Mário Pinto ainda vai a tempo de insinuar que a culpa do movimento de descriminalização do aborto é de Henry Kissinger. Uma tentativa de ganhar votos à esquerda?

«E pode, efectivamente, identificar-se um factor político candidato a este papel detonador e propulsor desta nova era fracturante. Refiro-me ao célebre relatório Kissinger, precisamente de 1974, que esteve classificado durante 15 anos e, muito significativamente, não costuma constar dos destaques nem da imprensa nem da política, sobre “as implicações do crescimento da população mundial para a segurança dos Estados Unidos e para os seus interesses nas relações internacionais”.»


Os nazis, Goebbels, Stalin, imagens de fetos abortados mostrada “horadamente”, campos de concentração e Kissinger. Vale a pena perguntarmo-nos o que leva um sisudo professor a escrever este frankenstein da opinião quando a campanha para o referendo ainda não começou. Tenho uma resposta: Mário Pinto não quer ganhar a discussão; o que ele e o movimento a que pertence desejam é que a discussão seja de tal forma inquinada que gere uma espiral de reduções sucessivas. As pessoas afastar-se-ão gradualmente do debate, os jornalistas farão o seu papel blasé de distribuir as culpas pelos “dois campos”, todos se declararão enfastiadíssimos e, se tudo correr bem, o referendo sairá descredibilizado. Depois, com o público enojado e distanciado, uma minoria de fanáticos poderá ter peso eleitoral. Tudo isto “honradamente”, como não podia deixar de ser.

[nota: houve uma pequena edição no primeiro parágrafo deste texto. siga os comentários para identificá-la]

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

6 respostas a A espiral da redução

  1. e depois tem esta gente espaço de opinião na imprensa. Só faltou dizer que tinha algo a ver com a célebre área 51 onde “estão” escondidos ET’s. Bom texto/post.

  2. eufrásia diz:

    É isso mesmo,o que ele(s)quer(em) é ajabardar a discussão

  3. Vital Verissimo diz:

    Foi hoje o dia em que pela 1ª vez acedi a este site.Como costume ler o artigo do Rui Tavares – umas vez concordo outra vezes nem tanto – vou continuar a frequentar o espaço.
    Tambem li o artigo do dr Mario Pinto.É identico aos outros que escreve.Com ele não consigo aprender nada, até fico aparvalhado com aquelas ideias medievais.

  4. “… a probabilidade de os nazis ou Hitler serem citados em comparação com o adversário é igual a um.”

    Se me permite, a probabilidade é próxima de 1 (um) como enuncia Godwin e não 1 (um) pois isso seria uma certeza, uma infalibilidade…

    Nuno G. Ferreira

  5. Tem toda a razão: “aproxima-se de um” é que é correcto.

  6. Rodrigo Castro diz:

    Parece-me que o Prof Mário Pinto está muito ciente da realidade, analisando a História, os seus erros e questionando a actualidade.
    Porque daqui a 50 anos todos veremos este tema do aborto como aquio que é: um atentado aos Direitos Humanos, morte atroz de crianças por nascer ( http://www.mttu.com/abort-pics/index.html ) e atentado à saúde física e psíquica das Mulheres ( http://www.afterabortion.org/ ), suas Mães…

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