Rendez-vous

O vulto chegou furtivo como só os vultos sabem. Bateu na porta, evitando o toque demasiado sonoro da campainha. Era esperado, pois nem um segundo passou antes da porta lhe dar entrada na casa pouco iluminada. O vulto levava consigo um pequeno saco negro. Agora que o descrevo vejo outro vulto nocturno como só os vultos sabem ser. Repete os gestos do anterior, acompanhado também por um semelhante saco negro, que brilha de tão opaco. Eis outro vulto, que coincide com mais outro, formando um elegante cortejo de encapuzados que, pelos gestos, não é grande risco afirmar como feminino.
A descrição passa doravante a ser mais justa. Um dos vultos que chegava apanhou-me distraído na observação e estou agora prisioneiro de um grupo que cresce, tumefacto, a cada minuto. A minha intuição masculina diz-me que algo de macabro se prepara. O cenário interior da casa cruza o perfume parado de um Museu de História Natural com a simplicidade higiénica de um hospital. Visto apenas as cordas com que me prenderam. Escrevo de cabeça estas palavras, para não me deixar tomar pelo medo. Assinalo as diferentes origens das mulheres, com predominância asiática, acho que tailandesa. Uma delas, talvez a dona da casa, dá início ao ritual exortando à abertura dos sacos negros, opacos e palpitantes. Em macabra coreografia, as mulheres que foram vultos retiram e colocam sobre uma mesa os pénis: tingidos de sangue, assustadores na sua tristeza inerte. Reparo no brilho das lâminas e desmaio.

JOÃO PAULO COTRIM

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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