Nem a história se apaga, nem a cultura se abastarda!

Autor: Carlos Trincão

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Escrevo na segunda de manhã, depois da leitura do DN e da surpresa da notícia da suspensão, em duas localidades algures no País Valenciano, das tradicionais festas populares evocativas das guerras entre cristianos e moros.

E vão duas, com esta: primeiro aquilo da ópera, na Alemanha; agora isto em Espanha.

Para mim, nem há muito a discutir sobre estes assuntos. As coisas são como são e não devem deixar de o ser. O problema, para variar, está nos homens, que aqui nem me atrevo a escrever com agá grande.

O que me chateia é que o pessoal anda todo às turras por causa de nada a não ser esta ideia maluca de querer mandar nos outros à força. E depois, ainda por cima, malham uns nos outros em nome do mesmo Pai: Alá, Jeová e Deus.

O ano passado estive uns dias na Turquia, numa acção de formação do Programa Comenius sob o tema “Ícones de Identidade”. Vindos de Salónica, entrámos pelos Dardanelos, fomos até Tróia, subimos à acrópole de Pérgamo, descemos a Bursa, rumámos a uma aldeia perdida no meio das montanhas – Kornurlar –, parámos em Iznic, atravessámos o Mar da Mármara, espreitámos o Negro e aportámos a Istanbul.

Falo disto, pois se houve locais onde encontrei Tolerância com muitos tês maiúsculos foi, precisamente, nas mesquitas. Aliás, as minhas notas pessoais de viagem turcas eram invariavelmente escritas nas mesquitas, pernas cruzadas e rabo no chão. O silêncio, o recolhimento e a frescura davam o tom ideal.

Kornurlar é uma aldeia perdida, como referi. Escusam de procurar, sequer, pois não a vemos no mapa. Calha a ficar mesmo à borda de um caravanserai da antiga Rota da Seda, entre Bursa e Iznic, a velha Niceia.

Só isso já dá que pensar: Niceia, Concílio de Niceia quando o Cristianismo tinha dentes de leite, Credo oficial da Igreja… Tudo na Turquia, num país de religião islâmica.

Em Kornurlar, a vida segue o ritmo da transumância, razão para que os amigos que ali fiz me dissessem que não precisavam de grandes casas. E realmente…

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As casas são assim… mas a Mesquita é o seu ai-jesus, passo a expressão, como pode ver-se pela foto da cúpula: simples, mas um mimo!

Porém, o mais curioso é uma das pedras que fazem uma das paredes de suporte:

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Lá no sítio vê-se melhor, mas dá para perceber a cruz cristã, não dá?

Então porque é que a gente (os humanos de toda a parte, está bem de ver) complica as coisas?

Eu sei que houve a Guerra Santa; mas também houve Cruzadas, algumas delas tipo vá para fora cá dentro, como aquela contra os Albigences, já para não falar da Inquisição ou do saque de Constantinopla.

De modo que não vale a pena ir por aí, pois todos têm culpa no cartório. Nem vale a pena falar de minorias fundamentalistas, porque fundamentalistas também são muitas maiorias, islâmicas, judaicas ou cristãs.

O que me dói nisto tudo é o pessoal começar já a preferir não dar nas vistas, mesmo que sejam vistas culturais. Ou então, arranjam maneira de fazer às escondidas, o que é muito mau.

Vem aí uma espécie de alheira cultural, parece-me.

É até por isto que há aquele ditado do quem tem cú tem medo… E têm muita razão em ter receio, mas deviam não ter.

A minha dúvida, para já, é: e se fosse comigo?

Caramba, porque é que as coisas não são assim tão simples como naquela parede de Kornurlar?

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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Uma resposta a Nem a história se apaga, nem a cultura se abastarda!

  1. Filipe d'Avillez diz:

    Eu sei que estou a comentar um mês tarde de mais, mas deixe-me ver se percebi bem:

    “Só isso já dá que pensar: Niceia, Concílio de Niceia quando o Cristianismo tinha dentes de leite, Credo oficial da Igreja… Tudo na Turquia, num país de religião islâmica.”

    Não estás, espero, a sugerir que o concílio de Niceia teve lugar “na Turquia, num país de religião islâmica” pois não? Especialmente se tivermos em conta que a turquia não existia, e o Islão muito menos. Que Niceia ficava em terras do império romano do oriente, que tinha por capital Bizâncio/Constantinopla que era a capital política e cultural da cristandade, até ao século XV (onde é que já ia Niceia) quando os Muçulmanos ocuparam a cidade pela força.
    Não estavas a dizer isso pois não?

    Quanto à mesquita e à pedra. Eu não consigo perceber se é uma cruz cristã ou não, mas Joana, por favor, não estás a insinuar que porque a mesquita contém uma pedra na parede de suporte que tem uma cruz, isso é alguma lição de tolerância? Das duas uma, ou a mesquita era uma igreja e foi adaptada, ou os vestígios cristãos foram destruídos e os seus restos usados para construir a mesquita. Tolerância? Hardly…
    A Turquia sempre foi um paraíso para os cristãos. Os Gregos e os Arménios que o digam!

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