Ideologia neo-conservadora contra a ciência

Autor:
Rui Curado da Silva

Licenciatura em Engenharia Física – Univ. Coimbra
Doutoramento em Física Tecnológica – Univ. Louis Pasteur, Estrasburgo
Direcção da Sociedade Portuguesa de Astronomia entre 2003 e 2005
Principais publicações científicas nas revistas: Experimental Astronomy, Nuclear Instruments and Methods e IEEE Transactions on Nuclear Science.

Ideologia neo-conservadora contra a ciência

No passado 7 de Fevereiro, George Deutsch demitia-se do seu lugar de relações públicas da NASA, após um escândalo que envolvia a tentativa de censura de alguns investigadores da agência e a falsificação do seu curriculum vitae. George Deutsch que fora designado por George W. Bush para o lugar, ameaçou o climatologista da NASA James Hansen de terríveis consequências para a sua carreira se este continuasse a lançar alertas para a urgência em limitar a emissão de gases de efeito de estufa que contribuem para o aquecimento global. Numa outra ocasião, Deutsch deu ordens a um web designer para adicionar a palavra “teoria” sempre que se mencionasse o Big Bang no sítio internet da NASA.

Este é apenas um de uma série de episódios de falsificações e de ataques à comunidade científica norte-americana que estuda o aquecimento global por parte de grupos de pressão ligados à tendência neo-conservadora do Partido Republicano. Durante longos anos o empresário Glenn Kelly, que chefiava o grupo de pressão anti -Quioto intitulado Global Climate Coalition, liderou esta vaga de ataques até que uma sucessão interminável de resultados científicos que culminaram na publicação deste documento por 11 academias das ciências (EUA, Rússia, Canadá, Brasil, China, Japão, França, Itália, Índia, Alemanha e Reino Unido) dando conta da gravidade do aquecimento global do planeta, levaram a organização de Glenn Kelly a perder toda a sua credibilidade e os seus aderentes. Actualmente, o sítio internet da Global Climate Coalition está inactivo como se pode verificar.

Outra das grandes falsificações científicas de cariz neo-conservador visa a apologia do criacionismo como matéria científica escolar em vez de matéria de cariz espiritual como é prática normal nos seminários e nos institutos religiosos com credibilidade. A exposição de fósseis no Dakota do Sul que pretende demonstrar o advento do Dilúvio Universal é um dos exemplos dessa falsificação. Trata-se de uma falsificação rasca e ignorante que nada tem de elegante quando comparada com o cálculo da idade do mundo realizado por Santo Agostinho, com a demonstração da existência de Deus de Descarte ou com a busca da árvore genealógica completa até Adão e Eva elaborada pelos Mormons.

Não é de espantar que a comunidade científica americana tenha uma apreciação bastante negativa sobre o desempenho da neo-conservadora Administração Bush, como o ilustra o resultado
desta sondagem realizada pelo Pew Research Center em 2005 sobre a gestão do conflito iraquiano e da restante política internacional.

O novo livro de Richard

Dawkins (autor de “O Gene Egoísta”) intitulado The God Delusion e a edição hors-série a lançar no próximo dia 8 da revista Ciel et Espace, L’Univers a-t-il besoin de Dieu, são duas respostas enérgicas de quem na comunidade científica já percebeu o carácter organizado e profundamente político da tentativa medieval de retorno ao criacionismo.

O padrão que encontramos nestes ataques à ciência encaixam perfeitamente nos mecanismos de controlo social da ideologia neo-conservadora: o controlo do indivíduo através de um moralismo religioso validado por fraudes científicas e o controlo do colectivo confinando o grosso do lucro e da produtividade a grupos empresariais fiéis à ideologia (industrias do petróleo, tabaco e sector alimentar). A tentativa de introdução do criacionismo nas escolas é um exemplo do primeiro mecanismo e o negacionismo do aquecimento global é um exemplo de tentativa de eliminação de obstáculos ao bom funcionamento do segundo.

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QUARTA | Joana Amaral Dias
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