A musicologia na era do porquinho Babe

Autor: Vítor Rua

Em 1980, funda o grupo Rock G.N.R.

Em 1982 foi co-fundador de TELECTU(com Jorge Lima Barreto).

Neste seu trabalho com Telectu encontrou-se com grandes figuras internacionais da improvisação (Elliott Sharp, Chris Cutler, Jac Berrocal, Carlos Zíngaro, Jean Sarbib, Louis Sclavis, Ikue Mori, Sunny Murray, Paul Rutherford, Evan Parker, Barry Altschul, Giancarlo Schiaffini), afirmando-se como experimentalista e poliartista.

Intérpretes como Daniel Kientzy, John Tilbury, Frank Abbinanti, Peter Bowman, Kathryn Bennetts, Ana Ester Neves, gravaram e/ ou interpretaram obras deste compositor em concertos e festivais nacionais e internacionais.

A musicologia na era do porquinho Babe
 
NOTA: 
pb1= porquinho babe I
pb2= porquinho babe II
me= meta

(pB1 e pB2 encontram-se em casa do primeiro jogando uma partida de xadrez)

pB1: Hum, você hoje está a jogar excelentemente meu caro.

pB2: É verdade. Sinto-me bastante concentrado. Deve ser deste agradável silêncio.

pB1 levanta-se

pB1: Peço desculpa por interromper, mas vou até á porta pois tocou a campainha.

pB2: Campainha? Não ouvi nenhuma campainha…

pB1 não ouve este último comentário, pois encontra-se já abrindo a porta da entrada de sua casa

pB1: Mas que agradável surpresa: o nosso querido Meta Eu.

mE: Resolvi fazer uma pausa no meu metaconto e vir fazer uma visita á casa de um amigo onde tenho sempre enriquecedores diálogos e estimulantes ideias, isto claro para não falar da sua exótica e opípara gastronomia.

pB1: Oh, é pura amabilidade sua… mas entre meu caro que está frio aí fora, entre e pendure aí o seu sobretudo.

caminham os dois para a sala onde se encontra pB2

mE: Mas isto é fantástico…como está meu estimado colega?

pB2: Bem obrigado. E o meu amigo, como vai o seu metaconto?

mE: Estou quase a terminar o último capítulo, mas resolvi fazer uma pausa para visitar o nosso anfitrião, o que é sempre bastante refrescante devo acrescentar.

pB2: Absolutamente de acordo.

pB1: Deseja beber alguma coisa? Um vinho tinto clarete talvez? Fiz uns maravilhosos pastéis de massa tenra que ainda devem estar quentinhos e que estão uma delícia.

mE: Hum, parece-me tudo excelente. Aceito o vinho e os pastéis.

pB1 sai e dirigi-se para a cozinha

mE: Parece-me que vim interromper o vosso jogo.

pB2: Para felicidade e alívio do nosso camarada pB1, pois estava em grandes dificuldades. Mais umas jogadas e dava-lhe o xeque-mate.

mE: Oh diabo, peço-lhe imensa desculpa. Logo hoje que estava em vantagem.

pB2: Tolice. Acabamos o jogo mais tarde. É sempre um prazer estar consigo e isso é mais importante do que um mero jogo.

pB1 regressa da cozinha com uma jarra de vinho num tabuleiro, azeitonas temperadas, broa de milho e os pastelinhos

mE: Bravo… mas que belo aroma

pB2: … e a forma… e a textura… 

pB1: Parem mas é de falar e comam agora enquanto estão quentinhos.

pB2: Ah é verdade, já me estava a esquecer de uma coisa que me intrigou, meu caro pB1. Quando há pouco minutos você interrompeu o nosso jogo dizendo que a campainha tinha tocado, eu não ouvi nada…

pB1: Isso é porque comprei uma nova campainha esta semana – uma campainha silenciosa.

pB2: Uma campainha silenciosa?

mE: Já tinha ouvido falar. Parece que é o último grito em campainhas digitais.

pB2: Uma campainha silenciosa? Mas se é silenciosa, como é que a ouvimos?

pB1: Bom, em primeiro lugar existem diferentes silêncios.

pB2: Diferentes silêncios? Eu pensava que só existia um tipo de silêncio: a ausência de som.

pB1: É uma questão de estarmos atentos e de ouvidos abertos. Ainda há pouco você disse que se sentia hoje particularmente concentrado devido ao silêncio. Aquilo a que você chamou de silêncio, era na realidade um silêncio relativo pois podíamos ouvir o crepitar da lenha da lareira, o vento lá fora, as nossas respirações…

mE: É como na música – também existem variegados tipos de silêncio.

pB2: Na música também? Eu sabia da importância do silêncio na música, em especial na contemporânea, mas não sabia que existiam diferentes silêncios.

mE: Mas é uma realidade, meu caro. Veja o caso do silêncio do compositor John Cage. Creio que já está familiarizado com a composição 4´33´´ de Cage?

pB2: Claro. Tenho até a partitura.

mE: Pois nessa peça, como sabe, o ou os intérpretes deverão não tocar durante um período de 4´33´´. Dessa forma, a experiência auditiva dos espectadores, era um pouco semelhante á vossa durante o vosso jogo de xadrez: vocês eram intérpretes de uma música silenciosa, mas ouviam as vossas respirações, o crepitar da lareira, o vento. Assim, esta composição é sempre diferente, consoante o sitio aonde é executada (sala de concerto, ao ar livre) e das pessoas que assistem ao evento. O que ouvimos, ao escutar o não tocar dos intérpretes, é tudo o resto.

pB2: Creio que já entendi esse tipo de silêncio.

mE: Mas há outros silêncios.

pB2: Quais?

mE: O silêncio – por exemplo – de um outro magnífico compositor americano: Morton Feldman.

pB2: E como é esse silêncio?

mE: Bem, no caso de Feldman, os seus silêncios são constituídos por infindáveis reverberações, como lhes chamou John Tilbury – que como ambos sabem é um experto da música de Feldman.

pB2: Ou seja: embora não haja acção instrumental durante curtos ou longos espaços temporais, o silêncio é constituído por reverberações de acções instrumentais passadas.

mE: Exactamente. Mas há mais: os silêncios de Sciarrino e Nono.

pB1: Ah, que belos silêncios esses…

pB2: Estão a deixar-me curioso. Como são esses silêncios?

mE: São silêncios de certa maneira idênticos. Aliás crê-se que Nono terá tido um primeiro contacto com esse tipo de silêncio numa obra de Sciarrino.

pB2: Sim, mas como os definir?

>mE: São silêncios criados a partir de pianíssimos instrumentais, ou seja, o silêncio de Sciarrino e Nono é constituído de sons instrumentais subliminais – por vezes quase parasitas, no sentido de que são sons que surgem por serem tocados a tão baixas dinâmicas.

pB2: Creio então poder definir esse silêncio como sendo um silêncio sonoro subliminal, não lhes parece?

pB1: Talvez… mas tem que se ter muito cuidado com definições absolutistas e por vezes redutoras, pois sintetizam apenas uma pequena essência de algo muito mais complexo. Veja o exemplo da minha nova campainha: ela reflecte outro tipo de silêncio que existe também em certa música mais recente – o silêncio digital. Certos compositores contemporâneos, incluem o silêncio digital – criado artificialmente nas suas peças. Assim, ao contrário do que acontecia por exemplo nos discos de vinil, aonde o silêncio era constituído pelo ruído amplificado da agulha sulcando o vinil, agora com a tecnologia digital, conseguiu-se criar o silêncio total. Mas como o distinguimos do silêncio do compositor John Cage? Muito simplesmente porque se em Cage o silêncio é alibi para se ouvir tudo o resto, neste caso, no silêncio digital, o que se pretende é a audição desse mesmo silêncio.

mE: Bravo. Muito bem dito.

pB2: Parabéns. De facto começo agora a aperceber-me das subtilezas e idiossincrasias dos diferentes silêncios mencionados. Mas continuo sem perceber como é que se ouve uma campainha silenciosa…

pB1: Muito facilmente, caro amigo: o som da campainha silenciosa é silencioso.

mE: Ah, Ah, Ah.

pB1: Vá meu caro, deixe lá isso, anime-se e beba mais um copo de clarete.

Os três amigos continuaram em animada cavaqueira ouvindo – em loop – a peça4´33´´ de John Cage  

Sobre Joana Amaral Dias

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