O país esdrúxulo

Primeiro, a notícia era que o Governo tencionava reduzir a velocidade nas auto-estradas nacionais de 120 para 118 km/hora, e aí muita gente achou que esta medida revolucionária poderia mudar em apenas poucos meses a face de Portugal, e que depois, inspiradas no luminoso exemplo das auto-estradas, as escolas passariam a dar início às aulas não já às 8h30, como antigamente, mas às 8h23, os telejornais, que antes abriam às 20h, começariam agora às 19h57, enquanto a Carris e o Metropolitano de Lisboa, fartos também de vender os seus bilhetes a €0,70, alterariam o seu custo para €0,71 – e que enfim os portugueses, quando descobrissem a nova e surpreendente liberdade de viver num país esdrúxulo, se perguntariam como tinham conseguido resistir tantos séculos à tirania opressiva da normalidade… 

Mas depois o Governo esclareceu que não queria baixar a velocidade máxima nas auto-estradas (que de resto é de 130 km/h) mas apenas reduzir a velocidade média, que actualmente se estima em 120 km/h, para 118 km/h, a fim de limitar as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, e que esta medida, que consta do Programa Nacional de Alterações Climáticas (PNAC), não vai portanto obrigar à mudança dos sinais de limitação de velocidade por esse país fora. Ainda assim, e apesar do esclarecimento, a dúvida persiste nos espíritos sobre a forma como a medida vai ser aplicada, existindo fundadas suspeitas de que o seu simples anúncio é revelador de que as autoridades se conformam com a ilegalidade reinante nas nossas auto-estradas (e não só) e as medidas que adoptam são larga e consabidamente faz-de-conta. Senão vejamos: se a velocidade média é de 120 km/h, e tendo em conta a existência de muitos carros que circulam abaixo dessa velocidade, torna-se forçoso reconhecer que muitos circulam também acima dela, e acima igualmente do máximo permitido. Quando as autoridades, num determinado período de tempo ou ponto do território, anunciam com grande fúria moralizadora uma política de “tolerância zero” para com os infractores, estão implicitamente a admitir que, no resto do tempo e nos outros pontos do país, a tolerância é cem ou mil. 

De que serve então legislar se a lei não é para aplicar? Evidentemente, para nada – ou pior, para desprestigiar a lei e fazer o país regredir, do Estado de direito para o Estado da arbitrariedade. Na rua onde eu trabalho, a PSP passa inopinadamente, de tantos em tantos meses, e multa os carros todos que estão mal estacionados; nos outros dias, os donos dos carros jogam uma espécie de totoloto ao contrário com a polícia: uma boa hipótese de ela não aparecer, grande azar se aparece. Tenho a sorte de morar uma parte do ano num parque natural, e a 500 metros do sítio onde eu moro há uma lixeira a céu aberto, ao lado de um cartaz que promete coimas ferozes para quem deixar ali lixo. O parque natural em causa tem uma vasta quantidade de funcionários e um impressionante dispositivo legal que eu já vi na internet, embora nunca tenha visto ninguém fazer nada para o aplicar. Na célebre fórmula de Jorge de Sena, a alternativa está entre tentar salvar Portugal e salvar-se de Portugal. A primeira será a mais nobre, mas a segunda é a que dá mais vontade.     

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SEXTA | António Figueira
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2 respostas a O país esdrúxulo

  1. redhot diz:

    Segundo me parece o governo (talvez dirigido por Glen Baxter 😉 quer reduzir as emissões em dois por cento.
    Se não me falham as contas, dois por cento de 120 km por hora são 2,4 km por hora.
    Ou seja, a velocidade média nas autoestradas deveria baixar para 117,6 km por hora!

    Que belas placas teríamos nós…

  2. antoniofigueira diz:

    É mais um exemplo da influência anglo-saxónica: em Inglaterra há placas a dizer, por exemplo: Bristol 3 3/4 (milhas, claro).

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