Mulherzinhas

A manchete do “24 Horas” indignou o país: “Miss Portugal abandonada na Polónia!”.  Mas nada disso: conforme esclareceu no dia seguinte a representante da “marca Miss Portugal” ao inestimável “24 Horas”, a jovem abandonada nas ruas de Varsóvia era da concorrência: era apenas a “Miss Lusitânia”, concorrente ao título de Miss Mundo, mas não ao de Miss Universo – ao qual só pode aspirar a verdadeira e única Miss Portugal.  A esquizofrenia que parece reinar no grande mundo (ou deverei dizer universo?) das nossas misses merece uma reflexão cuidada: será que baseados neste astucioso precedente poderemos reivindicar dois lugares nas organizações internacionais, ter duas equipas no campeonato do mundo ou receber fundos comunitários a dobrar? À atenção das autoridades competentes.

Chavez que se cuide: a sua compatriota Venezuela Portuguesa da Silva (sic), advogada e mãe, de 53 anos, prepara-se para lhe disputar a Presidência da Venezuela, assente no programa de amizade entre os povos que o seu próprio nome anuncia. Venezuela da Silva admitiu ao “Correio da Manhã” que ainda não é muito conhecida na Venezuela propriamente dita, mas não baixa os braços – e como primeira acção da sua campanha, resolveu vir visitar as suas raízes em Portugal, mais exactamente em Aveiro, de onde era natural o seu avô, “um  lutador social com obras publicadas e o nome numa rua e numa lavandaria”, e onde, pelo sim, pelo não, está tratar da documentação necessária para os seus três filhos obterem a nacionalidade portuguesa.

O Presidente da Junta de Freguesia do Lumiar (PSD) fez campanha e foi eleito com base num programa que incluia a manutenção da Quinta de Nossa Senhora da Paz no património municipal e a sua recuperação, mas a Assembleia Municipal de Lisboa trocou-lhe as voltas e, com o apoio do mesmo PSD, decidiu alienar a referida quinta. Após o voto, com grande elevação e dir-se-ia mesmo espiritualidade, a Presidente da Mesa da Assembleia, a social-democrata Paula Teixeira da Cruz, fez segundo o “Público” esta declaração singular: “A Mesa apela à Câmara para que acolha o sentimento que perpassa nesta votação”. Esta e outras declarações invulgares de Paula Teixeira da Cruz (que, recorde-se, é Presidente do PSD Lisboa e mulher de Paulo Teixeira Pinto, Presidente do BCP e quadro destacado da “Opus Dei”) levam a que ela seja crescentemente considerada a chefe de fila da ala “milenarista” do PSD.

Às leitoras: Não ignoro que Portugal está também cheio de “homenzinhos” e peço que não interpretem esta pequena selecção de delírios no feminino como um indício de misogenia, mas apenas como uma homenagem a Louisa May Alcott.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Mulherzinhas

  1. RMG diz:

    Um esclarecimento: a Assembleia Municipal não votou a alienação da Quinta de Nossa Senhora da Paz! Votou um moção do PS sobre a matéria. A proposta deverá constar da próxima ordem de trabalhos da AML.

  2. antoniofigueira diz:

    Obrigado pelo esclarecimento.

  3. cláudia diz:

    fora os arrepios que alguns dos eleitos do poder local vão causando a qualquer um, aqui fica uma pérola para, se quiseres, adicionar à “colecção”.
    A propósito (?) do último disco do Caetano Veloso:

    “(…) É particularmente inovador o tratamento poético e musical do tema sexual; o compositor serve-se dos grosseiros arrepios das guitarras do rock para eternizar gemidos, enquanto o poeta brinca em profundidade com a cor, o som e o ritmo das palavras. A canção “Porquê?”, perfeita na simplicidade de um vernáculo até agora só escutado na intimidade da cama de cada um ou nos filmes da especialidade, causará sem dúvida um escândalo orgástico no nosso púdico país, remetendo o “Je t’aime moi non plus” de Gainsbourg para a secção das cantigas infantis – até porque, hélas, não é em francês. (…)
    Dizia Agostinho da Silva que “a única coerência que podemos achar é a de sermos uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo”, e este novo disco de Caetano, com uma sonoridade ácida e nostálgica de rock-anti-rock, onde o roxo do sexo e da saudade tatua as vísceras vermelhas do futuro, é um exemplo maior dessa imprevisível coerência.(…)”

    Crónica Feminina de Inês Pedrosa, publicada na revista Única, Expresso, 30 de setembro de 2006

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