Jorge Palinhos: Blogs e Traseiros

Como muitas pessoas – duzentas e tal mil, segundo a sua inchada direcção editorial – comprei o novo semanário Sol. Passei-lhe os olhos rapidamente e formei uma opinião. Depois, liguei-me à internet e fui à procura de comentários nos blogs sobre o mesmo.
Tal procedimento não é novidade para mim e, desconfio, nem se quer me é específico. Creio que cada vez mais gente, confrontada com uma novidade ou evento, digita http://blogseach.google.com em busca de opiniões sobre o tópico que lhe interessa.
Opiniões, digo, e não informações. É certo que os meios de informação portugueses são poucos, lentos e limitados . Mas desde sempre os mass media sentiram a necessidade de integrar secções de opinião, mesmo antes de surgir o dito jornalismo isento. É como se houvesse em cada humano uma necessidade incontornável de confrontar ou alinhar as suas opiniões com as opiniões de outros.

Os americanos têm um dito do género: “As opiniões são como traseiros, cada um tem o seu e ninguém gosta de olhar para o dos outros”. Mas este aforismo parece-me falacioso, não só do ponto de vista sexual, mas também do ponto de vista geral. Basta ver a popularidade de que colunistas de jornal, comentadores de televisão e bloggers parecem gozar.

E porquê esta necessidade de opinião alheia? Porque uma opinião isolada não existe. Só no confronto de opiniões diversas e similares é possível estabelecer contextos, campos e narrativas: este defende isto porque acredita nisto, aquele defende aquilo porque acredita naquilo, eu defendo isto, que está a meio caminho entre este e aquele, porque acredito nisto e naquilo, e ao acreditar nisto devo ser isto, e se sou isto tenho de fazer isto, isto e isto. Esta necessidade de identificação explica em grande parte a recepção emocional que os textos de opinião geram: as descargas de adrenalina geradas pela indignação que sentimos diante de uma opinião que confronta e mina a nossa, o prazer reconfortante de uma defesa lógica e argumentada de uma posição que partilhamos, embora não soubéssemos explicar porquê.

E é neste processo de constante reconfiguração de mapas sociais e ideológicos que os blogs parecem ter vencido definitivamente os jornais. Instantânea e gratuitamente tenho agora acesso a milhares de opiniões que ajudam a situar – talvez mesmo a redefinir e completar – a minha opinião e a definir-me como pessoa e cidadão. E ao poder redefinir-me a cada instante, posso também a cada instante redefinir o meu comportamento e reagir imediatamente às circunstâncias que me envolvem. Por outro lado, passo a ser eu próprio a escolher os tópicos em relação aos quais me interessa “ter opinião”, isto é, a tomar contacto com a opinião dos outros, e deixam de ser os meios de comunicação a escolher que tópicos são suficientemente importante para merecerem comentário opinativo e quando é que posso ter acesso aos mesmos.

Nem sequer se coloca o problema de, como alguns acreditam, a maioria poder agora ter só acesso às opiniões que confirmam as suas. Isso sempre foi possível e, de qualquer modo, a minha experiência constata que a maioria das pessoas prefere ler opinion-makers dos quais discorda – porque a opinião própria se desenvolve mais rápida e profundamente através do confronto do que através da confirmação e porque a adrenalina do confronto se torna viciante.

Perigos? O incremento da calúnia, da má-fé, da demagogia, da aldrabice pura e dura, claro. Estas também existem na imprensa dita séria, só que com menor facilidade de refúgio no anonimato. Mais grave é que a disseminação e fragmentação da informação na internet tornam mais difícil o desmentido e a reposição da verdade. Logo, opiniões assentes em perfeitas mentiras são mais fáceis de propagar e mais difíceis de exterminar. Mas isso são questões que têm de ser consideradas e solucionadas. Porque os blogs estarem a tornar-se uma fortíssima ferramenta de opinião é um facto incontornável que não se pode simplesmente desejar que desapareça.

E, caso estejam interessados, a minha opinião sobre o Sol é que é um jornal bom para uma dada camada socioeconómica na qual não me revejo. É tudo.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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