Cuidado, aí atrás!

Do Público de Sábado. Começa assim:

A semana passada, ao escrever sobre o discurso de Ratzinger em Ratisbona, lembrei aquela banalidade segundo a qual não é necessário concordar com o conteúdo de um texto para se defender o seu direito à liberdade de expressão. No entanto, há muito quem exija uma carta branca para Ratzinger só pelo simples facto de ele ter sido atacado. Não se deve discordar de Ratzinger, dizem, porque devemos estar todos unidos escrevendo corajosos panfletos contra os malvados dos fanáticos religiosos… muçulmanos. Isto quando Ratzinger, no seu discurso, passava mais tempo a atacar as liberdades modernas do que a defendê-las. Penso então que deveria antes ter lembrado o seguinte corolário: um texto não passa a ser consensual, nem muito menos uma brilhante defesa da liberdade, pelo simples facto de ter sido atacado “pelo outro lado”.

Isto faz lembrar aquele momento dos filmes em que o herói luta contra os mauzões que estão à sua frente, sem reparar que nas suas costas surge um tipo empunhando uma garrafa de whisky já destinada a escaqueirar-se-lhe na moleira. É aí que a mocinha, que estava desmaiada cinco segundos antes, grita: cuidado, aí atrás!

Guardem esta imagem.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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